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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um Atlético de notas afinadas mas de nenhuma música

Vargas fez o gesto de silêncio após o gol marcado na partida contra o Boa Esporte - Divulgação/Mineirão
Vargas fez o gesto de silêncio após o gol marcado na partida contra o Boa Esporte Imagem: Divulgação/Mineirão
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

18/04/2021 17h54

Rever joga muito. Nacho é craque. Vargas é bom atacante. Arana é lateral sólido. Tche Tche é volante competente. Dylan e Keno podem evoluir. Hulk deve ganhar titularidade e, quem sabe, ser perigoso como um dia já foi. O Atlético é um time que, se bem treinado técnica, tática e fisicamente, pode entreter o torcedor esse ano. Só que o que se viu em campo na vitória por 2 a 1 contra o Boa Esporte nesse domingo 18 de abril pelo Campeonato Mineiro foi um time conservador, sem criatividade, sem muitas ideias, sem a capacidade de empolgar.

Nacho, um cracaço, cobre tudo e todos, corre talvez mais do que fosse preciso, e deixa de exercer seu excesso de talento naquilo que faz de melhor: criar. No mais, muita correria e cruzamentos; um Cucabol que - pelo menos até aqui - esqueceu de se renovar. Terminou o jogo com quase 70% de posse de bola, estatística que sem contexto não conta a história do jogo.

É um time que tem tudo para dar algumas voadas e ser um dos mais sólidos da temporada, mas para isso Cuca vai precisar deixar uma marca, e isso ele ainda não fez, seja por falta de tempo ou por falta de competência até aqui. Resta esperar. Cuca é um dos melhores treinadores em atividade no Brasil e, se conseguir fazer desses nomes um time, tem tudo para dar alegrias ao torcedor.

Como nota triste a se destacar, no segundo tempo o repórter informou que quando uma bola derrubou o microfone que estava fincado à beira do gramado Cuca foi lá e o recolocou. Era apenas uma curiosidade dessas que o repórter se sente compelido a dizer quando o jogo não está lá muito bom. E era para ficar nisso, mas o narrador Julio Oliveira achou por bem replicar: "Cuca é um gentleman" (ou, sem o anglicismo: Cuca é um cavalheiro). Aqui precisamos parar e lembrar: Não, Cuca não é um cavalheiro. Ser um cavalheiro não é recolocar um microfone no lugar. Ser um cavalheiro deveria envolver conceitos como comportamento respeitoso, consciente e gentil com tudo, com todos e com todas a sua volta e jamais ser acusado de abusar de uma mulher. Cuca é um bom treinador, é um profissional vencedor, mas, fora de campo, tem uma história triste que envolve acusação de estupro.

É assim que o machismo se reproduz: nos detalhes, a linguagem, nos pactos silenciosos entre homens. Esse tipo de comentário é um desrespeito com todas as torcedoras do Atlético, com todas as mulheres que amam futebol, com Renata Mendonça, que estava bem ao lado dele comentando a partida, e com qualquer pessoa que esteja na luta contra o abuso, o assédio e o estupro. Doeu em meus ouvidos. Deve ter doído no de muitas outras mulheres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL