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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O futebol não pode furar a fila da vacinação

Fila para vacinação na UBS Jardim Aeroporto (Unidade Básica de Saúde), na zona sul de São Paulo - Rivaldo Gomes/Folhapress
Fila para vacinação na UBS Jardim Aeroporto (Unidade Básica de Saúde), na zona sul de São Paulo Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

13/04/2021 16h28

"Não existe saída individual para problema social", repete a professora Rita Von Hunty. Ninguém vai se salvar dessa pandemia sozinho e não existe imunização individual. Poucas coisas, aliás, existem na dimensão do individual e a vacinação só vai funcionar se alcançar as sociedades em suas totalidades. Mas o futebol sul-americano arregaça as mangas e se une à imoralidade fazendo plano para furar a fila e vacinar os times que disputarão a Copa América que, afinal, não pode ser cancelada outra vez.

Não pode por quê?, alguém, talvez, quem sabe pergunte. Não pode porque o dinheiro não quer. Patrocinadores, empresários e executivos do futebol não querem. Por isso, deram um jeito de se mobilizar por uma doação de vacinas e, em vez de repassá-las ao países para que as vacinas sejam aplicadas conforme o plano de distribuição justa e igualitária de cada país, decidiram que vão tentar correr por fora para, assim, viabilizar a competição que seduz seus interesses pessoais. Dane-se que os mais vulneráveis ainda não tenham sido vacinados. Queremos vacinar nossas mercadorias (os jogadores) para que nosso lucro não seja prejudicado (a mesma lógica absurda vale para os empresários que querem comprar vacinas para usar em seus funcionários).

Como o Brasil não permite vacinação privada, o plano indecente provavelmente não será executado por aqui. Mas é claro que a força bruta do capital já se articula para passar no Senado uma lei que permitiria essa aberração moral de vacinação privada (imoral e burra, diga-se de passagem, porque, outra vez, ninguém se imuniza sozinho). Não custa lembrar que a compra de vacinas pela iniciativa privada não é proibida no Brasil. Acontece apenas que, uma vez compradas, as vacinas devem ser doadas ao SUS para que sejam usadas conforme plano nacional de imunização. Mas isso os empresários não querem: lutam para poderem comprar e usar da forma que bem entenderem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL