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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desde quando o dinheiro passou a ser notícia de futebol?

Especial - Futebol Raiz (varzea) - Diego Padgurschi /Folhapress
Especial - Futebol Raiz (varzea) Imagem: Diego Padgurschi /Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

12/04/2021 13h58

O noticiário esportivo da atualidade destaca em grandes espaços o tamanho das dívidas dos clubes de futebol do Brasil. Toda vez que eu vejo isso, me pego pensando que alguma coisa errada não pode estar certa. Desde quando a notícia passou a ser o dinheiro no futebol? Que mundo é esse no qual a CBF (associação privada que organiza o futebol brasileiro), é rica, no qual os dirigentes são ricos, no qual uma minoria de jogadores profissionais é milionária e uma minoria ainda menor é bilionária? Que mundo é esse em que o torcedor que queira ir ao estádio (vai passar, tem que passar) tem que pagar caro, em que a geral não existe mais, em que é preciso assinar canal para ver os jogos e, dentro desse universo, assinar de novo para ver seu time?

Se esse país em que vivemos é uma invejável matriz de talentos futebolísticos, por que nossas bases não estão sendo capazes de montar times completos e bons até o profissional? Por que gasta-se tanto com jogadores que muitas vezes nem usados são? Quem ganha com tantas transações? Quanto se ganha? Para onde estão indo nossos talentos antes mesmo de se tornarem pessoas adultas?

São muitas as perguntas, e para todas elas a resposta atravessa a obviedade de o futebol ter passado a se organizar na lógica do capital. Essa lógica, sempre tão perversa, trabalha diminuindo o espaço do comum e das coisas públicas e alargando ao perímetro máximo possível as grades do privado. Por ela, ricos se beneficiam e acumulam; pobres padecem e se endividam.

Qual a saída? Como o futebol não existe como coisa separada da sociedade, a saída é a gente mudar a forma como existimos nesse mundo que - todos devem concordar - não anda lá tão bom.

Não podemos viver de Palmeiras e Flamengo até o fim dos tempos. Ou viver dos próximos times ricos e "bem geridos" a ganharem títulos, prestígio, tempo em TV. Não podemos mais achar que sul e sudeste são os umbigos do mundo do futebol brasileiro. Deveríamos trabalhar para destruir esse fundamento porque ele não conta a história do jogo nesse país de proporções continentais. Não podemos viver de "boas gestões" porque a lógica dessa perspectiva é a palavra eficiência, e eficiência não quer dizer nada. O que é ser eficiente? Lidar bem com a dicotomia custo/benefício? Por ela, por exemplo, barragens de hidrelétricas são rompidas regularmente, matando rios, florestas, povos. A multa aplicada compensa o risco de colocar ali uma barragem qualquer porque o lucro é sempre maior do que o desastre e do que a multa. Quem estabelece essas regras? Sob a ótica do Capital, a Vale é eficientíssima. Mas e sob a ótica da natureza? Do planeta? Dos povos originários?

Passou da hora de a gente mudar nosso ponto de vista. E isso vale para o futebol também.

Deveríamos ter acesso a jogos como Remo e Paysandu, Treze e Campinense, Bahia e Vitória sem necessariamente pagar, e pagar caro, pelo privilégio. Somos o país do futebol? Não mais. Somos o país dos grandes empresários, controlado pelos mesmos executivos de sempre, que tratam dessa nossa paixão como um negócio que visa apenas o lucro (deles mesmos).

Em 2019, o Congresso Nacional aprovou um projeto que oferece a opção de os clubes brasileiros se tornaram sociedades-empresariais. Os times de futebol podem deixar de ser associações civis não-lucrativas e virar (ainda mais) negócios para os poderosos. Quanto tempo até um líder de um desses países ditatoriais comprar um grande time no Brasil?

Por tudo isso estamos naturalizando abrir o noticiário e ver matérias e mais matérias sobre as dívidas dos clubes, sobre o mercado do futebol, sobre o balanço do seu time. Não se pensa mais pela ordem da criatividade: novas táticas, uma maneira original de triangular, estratégias, jogadas inusitadas, times inovadores. Nossa imaginação está bloqueada pelo capital, que organiza a forma como pensamos, sonhamos, desejamos. Como mudar isso? Não sei, mas a gente devia começar reconhecendo que pegamos o caminho errado. A partir daí, tudo passa a ser possível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL