PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mais sagrado do que a vida só o mercado e as leis que o protegem

Bola de futebol e carteira de dinheiro - Photo by blende11.de/ullstein bild via Getty Image
Bola de futebol e carteira de dinheiro Imagem: Photo by blende11.de/ullstein bild via Getty Image
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

09/04/2021 13h31

Dividir para reinar. O lema é milenar e embora não possamos comprovar quem primeiro entendeu e elaborou em palavras esse segredo, sabemos que ele é verdadeiro. Enquanto estivermos gastando nosso tempo se indignando uns com os outros, aqueles que estão no poder seguirão intocados.

O futebol, como arte e, portanto, como forma de representação da vida, caiu nessa armadilha ao abrir mão de ser instrumento de transformação e inclusão social, ferramenta que tem o poder de ajudar a construir subjetividade, e se transformar em mercadoria.

Circula por aí um vídeo de Leo Príncipe, ex-jogador do Corinthians, contando as circunstâncias em que foi contratado. Não precisaríamos ver o vídeo para ter certeza das coisas que desconfiamos, mas ainda assim é perturbador quando nossas suspeitas se materializam em provas.

Passou a ser normal que o noticiário esportivo fale das dívidas dos clubes. Os grandes, os médios e os pequenos times de futebol do Brasil vivem endividados. Dívidas cujos valores nem somos capazes de entender de tão altos. O torcedor, um apaixonado, começa a pensar em formas de ajudar seu time com vaquinhas. Uma tristeza.

A dívida, aliás, é o lastro da criação de dinheiro na economia moderna. Dívida é muito ruim quando ela fere o bolso do cidadão comum, mas os muito ricos vivem da dívida, e o mundo atual se move não a despeito dela, mas por causa dela. Como clubes conseguiram essas dívidas colossais? O vídeo de Leo Príncipe explica. Para cada clube muito endividado não seria difícil encontrar dirigentes abastados. Para cada nação endividada, não é difícil encontrar empresários e políticos abestalhadamente ricos.

Claro que o endividamento de uma nação não pode jamais ser comparado ao endividamento de um cidadão. Nações não precisam dar lucro, precisam atender de forma igualitária e justa as necessidades de seus cidadãos. Mas o discurso do "temos que cortar gastos" é repetido à exaustão para que você e eu não reclamemos de cortes em nossa aposentadoria, em nosso acesso à saúde, à educação, ao transporte etc etc etc.

Enquanto os muito ricos - incluindo aí dirigentes, empresários e políticos - contam essas e outras mentiras pra gente, seguimos nos digladiando aqui fora.

A nova onda da indignação é o jogador que se aglomera, anda sem máscara, sai pelas ruas com covid. Não existe defesa para esses caras, claro. Ainda que as palavras que vêm da presidência da república sigam ecoando o "é só uma gripezinha", "deixa de "mimimi", "chega de chorar sobre o leite derramado" etc.

Palavras que muitos de nós entendemos como criminosas, mas que para outros tantos servem para evitar o consenso, gerar dúvidas e abrir espaço para esses comportamentos toscos e pouco empáticos como, mesmo com covid, achar razoável levar a mãe ao supermercado. É indefensável, sem dúvida. Só que enquanto a gente gastar o tempo berrando contra isso e nada mais, o mundo do acumulo de riqueza vai seguir dançando na nossa cara.

Existem hoje muitas e eficazes vacinas contra o covid. Muitas. Existe um excesso de insumos para que as vacinas sejam produzidas. Existem laboratórios que estão ociosos e que poderiam estar produzindo vacinas. O que impede, então, que elas sejam produzidas e distribuídas fartamente? As sagradas leis de mercado - essas mesmas que transformam tudo (até o futebol) em mercadoria.

Poderíamos usar formas legais, legítimas e éticas para quebrar essas patentes através de um instrumento previsto em lei chamado licença compulsória. Não fazemos isso porque as grandes nações do mundo (incluindo o Brasil, um ex-gigante) votaram "não" quando o assunto foi abordado internacionalmente. Mais sagrado do que a vida só o mercado e as leis que o protegem.

Não é exagero, portanto, dizer que hoje não se morre mais de covid, mas sim de livre-mercado.

O futebol acima da vida, o capitalismo acima de tudo e de todos.

Quando a gente entender que luta devemos lutar e quem é o inimigo, vai virar passeio e vai ser de goleada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL