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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A aglomeração do torcedor do Vasco e nossa régua moral

Torcedores do Vasco da Gama se aglomeram em obra vizinha ao estádio Almeidão, em Tombos (MG) - Arquivo Pessoal
Torcedores do Vasco da Gama se aglomeram em obra vizinha ao estádio Almeidão, em Tombos (MG) Imagem: Arquivo Pessoal
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

08/04/2021 16h38

Quando vi a foto de torcedores do Vasco aglomerados fora do estádio para assistir o time jogar contra a Tombense pela Copa do Brasil minha primeira reação foi pensar: "ah, caramba, não aglomera não, pessoal". Chateada, fui pegar um café e, antes mesmo de voltar à minha mesa, já tinha mudado de ideia - ou quase.

De imediato a imagem me dá a certeza de que o futebol precisa - deveria - parar. Estamos enfrentando o desafio de nossas gerações, não há dados, fatos, estatísticas que mostrem que as coisas melhorarão em tempo curto, e seria útil se o futebol - essa instituição - parasse para indicar ao torcedor que as coisas não andam bem e que precisamos de atenção.

Os que defendem que o futebol não pare alegam que o jogo é entretenimento e que, por isso, cumpre uma função também em tempos pandêmicos. Se fosse isso, com todo o respeito, o sinal dos jogos estaria aberto e gratuito a todos.

Então, antes de mais nada, temos que entender que se o futebol não para não é por nossa causa, nem por nossa saúde mental. O futebol não para em nome do lucro e de interesses corporativos que nada têm a ver com nossas vidas.

Com essa realidade fora do caminho, precisamos falar sobre os torcedores do Vasco que se aglomeraram para ver o time jogar.

O torcedor que estava aglomerado na imagem é, provavelmente, aquele mesmo a quem o Brasil institucional diz: "não aglomera em festinha não, meu chapa, mas amanhã quero você no trabalho porque se não fizer isso vai morrer de fome e não quero nem saber se o ônibus tá cheio, deixa de ser medroso e vem".

Que condições esse nosso Brasil dá para que o pobre se proteja do vírus? Oferece transporte público de qualidade? Oferece vacina? Oferece máscaras? Oferece segurança alimentar? Não, nada disso, apenas o que chamam de "direito" ao trabalho.

Contra o "aglomerador pobre" a polícia é pontual e funciona. Antes mesmo do segundo gol do Vasco o espaço da aglomeração já estava livre "dessa gente sem noção que aglomera em pandemia".

Moro num bairro rico de São Paulo e quando meu vizinho bolsonarista deu uma festinha durante a pandemia - com direito a tiros pra cima - eu mesma liguei para a polícia, que, verdade seja dita, chegou rápido e - para seguir com a verdade - não fez absolutamente nada e saiu ainda mais rápido.

Meses depois, outro vizinho deu festão, com música ao vivo, cobertura de chuva etc. Chamaram outra vez a polícia e, vejam só, nada aconteceu e a festa seguiu forte até de manhã.

Na final da Libertadores, no Maracanã entre Palmeiras e Santos, teve até aglomeração oficial e patrocinada. Mas foi mesmo só para uma gente fina e elegante (incluindo o prefeito de São Paulo).

Vamos aprofundar a reflexão: Sem políticas públicas que permitam que o trabalhador fique em casa, sem lideranças que digam que o vírus é sério e que mata, que não existe tratamento precoce, que os hospitais estão colapsados e sem um comitê emergencial que trace um plano federal para que enfrentemos tudo isso, não vamos escapar sãos.

Estamos todos desesperados, amedrontados, desesperançosos. A vilanização do outro - especialmente desse outro que segue sendo explorado durante a pandemia, esse outro que precisa se amontoar em transporte público para poder trabalhar e colocar comida na mesa mas de quem cobramos correção moral para não se aglomerar para ver seu time jogar - precisa ser combatida.

É bom lembrar que o Brasil é o pior lugar do mundo para se estar hoje e que tudo isso poderia ter sido evitado. Antes mesmo da vacina, o Vietnam, um país com 100 milhões de habitantes e grande densidade populacional, fez um plano de isolamento, ofereceu apoio social, se organizou. Resultado: menos de 2 mil casos de Covid e menos de 50 mortes até aqui. Por lá, a economia, essa entidade que para muitos é maior do que a vida, segue forte. E a população, viva e sem traumas.

"Ah, mas para fazer isso eles tiveram que tomar medidas autoritárias", muitos dirão. Aqueles que gritam pelo sagrado direito de ir e vir precisam entender que acima dele está o ainda mais sagrado direito à vida - e que todas as vidas importam. Ou deveriam importar.

Então, antes de sair por aí agindo como um soldado moral pra cima do torcedor vascaíno talvez a gente devesse refletir sobre todas essas coisas. Não estamos nessa uns contra os outros e como só sairemos disso juntos seria indicado que a gente juntasse forças para vencer o verdadeiro inimigo: esse poder público covarde, cruel e que está fechado com os piores interesses corporativistas do Brasil, para quem não passamos de números, de utilidades, de objetos, de consumidores, de "sócio-torcedores" (ser apenas torcedor não basta mais; se você não consumir não vai interessar muito não).

Como diz a grande professora Rita Von Hunty, do canal Tempero Drag: "Não existe saída individual para problema social". Abandonados e encorajados a apontar o erro uns dos outros, estamos na verdade montando um exército moral que não vai fazer nada por nossas vidas, mas vai fazer muito para que aqueles que estão no poder continuem ali, a cada dia mais ricos, a cada dia mais autoritários.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL