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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Neymar tem razão: o mundo anda chato

Neymar lamenta durante partida entre PSG e Lille, pelo Campeonato Francês - REUTERS/Benoit Tessier
Neymar lamenta durante partida entre PSG e Lille, pelo Campeonato Francês Imagem: REUTERS/Benoit Tessier
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

07/04/2021 10h20

Neymar é craque, jogador fora-de-série. Vi Neymar pela primeira vez num jogo da Copinha, no campo do Nacional, em São Paulo. Ele estava no banco, entrou no segundo tempo, já nem lembro o ano (2005 talvez?). Eu, que comentava o jogo para a TV, me emocionei quando ele pegou na bola. Era um garoto mirrado mas em três toques dava para ver que ele jogava diferente de todos ali. Minha vontade era a de levantar e aplaudir, mas eu não podia. Ou será que podia?

Na saída do pequeno estádio, pensava em Neymar. Comovida, entendi que talvez eu tivesse visto um dos maiores jogadores da nossa história em campo naquele dia. Cheguei em casa querendo rever os melhores lances do jogo na TV, mas precisava ir ao mercado antes das nove. Na época eu morava em Perdizes, perto do estádio do Palmeiras, e decidi ir a pé porque a loja não era longe. Na volta, carregando mais sacolas do que devia, notei um homem vindo em minha direção.

Toda mulher sabe que o primeiro medo que nos invade nessas horas é o do abuso sexual. Dinheiro, celular, bolsa, compras - nada disso importa. Importa não ser estuprada. São quase 70 mil estupros reportados por ano (um número que não retrata a verdade porque muitas de nós não têm coragem ou força de prestar queixa. Estima-se que esse número seja 10% do total). Mais da metade (53%), contra meninas de até 13 anos. Calcula-se que uma mulher seja estuprada a cada 11 minutos - uma terá sido até você chegar ao final desse texto.

Sobreviver a um estupro é seguir com esse fantasma para o resto da vida. Mas tem pior: no Brasil, uma mulher é morta a cada 9 horas apenas por ser mulher. É chato ser mulher numa sociedade como essa. Muito chato. Então eu tenho que concordar com Neymar: viver nesse mundo é chato pra burro.

A gente que é mulher cresce aprendendo a ter medo do sexo oposto, um medo que a gente internaliza e depois segue administrando pela vida. Já pensou ter medo do sexo oposto? Você não acharia isso chato? Homens, afinal, têm medo que mulheres riam deles. Nós temos medo que homens nos matem.

É super chato quando, mesmo sabendo disso tudo, a gente tem que aturar que um dos candidatos à presidência faça piada com estupro. Isso é chato demais porque, falando francamente, nunca é "só" uma piada, sabe? Palavras importam e elas podem ser usadas fantasiadas de gracejo para legitimar abusos ou podem ser usadas vestidas de coragem para libertar o excluído.

Tem mais coisa chata nesse mundo. Por exemplo: é chato ser mulher, ser comentarista de futebol e ser criticada por criticar técnicos e jogadores acusados de estupro. É chato escutar: "ah, calma, não precisa ficar tão brava falando desse assunto". Chato comentar um jogo de futebol que envolve uma dessas pessoas e saber que você vai ter que avaliar o profissional no âmbito do futebol, mas que sua vontade era dizer: esse cara aí para o qual vocês estão babando um ovo foi acusado de estupro e fica difícil falar dele tecnicamente sem pensar nisso, sem se indignar com isso, sem se revoltar com isso. É chato pra caramba quando uma coisa assim acontece.

Mas talvez Neymar e eu não estejamos falando da mesma chatice quando ele vai para as redes sociais escrever que o mundo anda chato. A chatice para ele é não poder fazer mais piadas ou comentários machistas, racistas, LGBTfóbicos. Esse é o mundo chato de Neymar. A chatice para mim é viver num mundo que, todos os dias, abusa, assedia e mata mulheres (estando as mulheres negras à frente dessas estatísticas todas) e seguir tendo que escutar piadas machistas, lgbtfóbicas e racistas.

Apenas como registro: somos o país que mais mata LGBTQs no mundo e também o que mais consome pornografia LGBTQ no mundo. Nossa crise é de desejo, e isso é bem chato.

"É só uma piada", repetem os críticos do politicamente correto. Então, gente, de novo: nunca é "só" uma piada. Palavras importam, palavras ferem, palavras matam ao legitimarem o ódio, o deboche, a exclusão.

Esses mesmos do "é só uma piada" diziam assim: "Bolsonaro só fala. Pode votar 17 que ele não vai fazer nada dessas coisas horrorosas que fala". Corta e adianta dois anos esse filme de terror: vivemos num Brasil no qual é chato pra caramba ter que ficar em casa (quem tem a sorte de poder ficar em casa) porque se sair pega o vírus que mata e contra o qual o atual presidente se recusou a lutar dizendo "não, obrigada" quando laboratórios do mundo inteiro ofereceram vacinas. Podíamos, agora, estar quase todos vacinados. Chato saber disso, né?

É chato não poder sair de casa, e, ainda mais chato, ser obrigado a sair em plena pandemia para colocar o pão na mesa porque o ministro da Economia do atual governo diz que não tem mais do que R$ 150 pra auxílio emergencial - o mesmo ministro que no começo dessa tragédia liberou bilhões (ou trilhões, mas quem está prestando atenção?) para ajudar o sistema financeiro. Chato. Chatíssimo isso aí.

É chato também quando a gente vai pesquisar a quantidade de dinheiro perdida para a sonegação fiscal no Brasil: R$ 415 bilhões por ano. Difícil saber o que esse número significa? Vamos escrever de um outro jeito: o que a sonegação tira dos cofres públicos todos os anos é sete vezes maior do que o que tira a corrupção. Chato demais isso.

Quantos hospitais poderíamos construir com esse dinheiro desviado pelos muito ricos? Quantas escolas? Quantas vacinas? Quantas pesquisas em saúde pública? Chato, chato, chato.

Chatíssimo quando a gente vê no noticiário que mais um bilionário teve sua dívida perdoada pelo fisco, ou quando o pai de um bilionário consegue audiência com o presidente e o ministro da Economia para tratar da dívida aos cofres públicos. Caramba, isso é imensamente chato pra gente que paga tudo certinho, que anda na linha, e que nunca ganhou uma molezinha como essa.

Chato também quando tentam convencer você de que o maior problema do Brasil é a corrupção se a sonegação é sete vezes maior. Corrupção, corrupção, corrupção: é isso o que acaba com o Brasil e nada além disso, dizem por todos os lados. Chato ser manipulado assim, né?

Quer saber outra coisa chata? Quando a gente está vendo um jogo, e o craque do time, em vez de jogar bola, prefere simular faltas, rolar no chão executando um teatro macabro de vitimização. Ô como é chato esse troço. E a propósito: mimimi, Neymar, é cair berrando de dor pela falta não sofrida. Usar mimimi para falar da dor da exclusão, da dor da opressão, da dor do deboche é estar completamente desconectado do outro e da realidade a nossa volta.

Então, sim: o mundo anda chato. Chato para todos, mas especialmente para mulheres, para negros e negras, para LGBTQs, para o entregador que trabalha no risco e nem uma gorjeta decente ganha, para o trabalhador que tem que se amontoar em um ônibus na volta para casa no meio de uma pandemia e ainda escutar dos poderosos, que raramente se manifestam pela boa luta, um mimimi sem fim pelo "meu sagrado direito à piada e ao deboche".

Diante disso tudo não é pedir muito que o pessoal do "abaixo o politicamente correto" deixe de ser chato, engula o gracejo e, em vez de sair por aí exigindo espaço para seguir contando suas piadas ofensivas e opressoras, faça alguma coisa para que a gente viva numa sociedade mais justa, livre e decente. O mundo atual tem chatices muito maiores do que não poder sequer fazer uma piada ruim que fere milhões e da qual poucos riem. Acorda pra vida, Neymar. Seu destino é (era?) ser gigante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL