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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um Flamengo que permite sonhar

Gabigol comemora seu segundo gol na partida do Madureira contra o Flamengo - Thiago Ribeiro/AGIF
Gabigol comemora seu segundo gol na partida do Madureira contra o Flamengo Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

06/04/2021 12h05

Eu não sou flamenguista - muito pelo contrário. Mas amo o futebol e, como qualquer pessoa que esteja atenta ao que estamos vivendo, tenho sentido falta de sonhar. Pensamentos que projetam o futuro nesse Brasil bolsonarista e guedista envolvem pesadelos e angustias. Diante do absurdo de existir dentro de um país que mata seus cidadãos de vírus ou de fome, uma das primeiras coisas que morrem são os sonhos.

Mas ontem, por dever de ofício, assinei a FlaTv (me perdoa, pai) e assisti ao time de Rogério Ceni jogar. Foram quase 90 minutos de suspensão: um time que pressiona, que tem vocação para fazer gols, que não se contenta com o resultado favorável e que busca sempre mais. Um time em que os jogadores trocam de posição freneticamente como numa dança intensa, mas também harmônica.

Tirando linha de quatro da defesa (dois laterais, dois zagueiros) fica bastante difícil definir posições: são volantes que aparecem na área, atacantes que se revezam pelos lados do campo e voltam para construir o jogo, armador que marca. Fazia muito tempo que eu não via um time jogar assim no Brasil. Talvez o último tenha sido o Flamengo de Jesus.

"Ah, mas foi contra o Madureira". Pois é, essa nossa mania de desdenhar de uma ocasião grandiosa é o que nos dilacera lentamente. Foi, de fato, uma segunda-feira triste. Mais uma vez tivemos a notícia de dezenas de milhares de mortos por uma doença para a qual já existe vacina, mais uma vez tivemos um jogo em um estádio vazio, mais uma vez assistimos uma partida pensando que talvez, por respeito ao momento, ela não devesse estar acontecendo. Triste, sem dúvida.

Por outro lado, nessa fase em que movimentamos afetos tão sombrios, como o medo, o desamparo, o desespero, ver em campo um time corajoso e audacioso funciona como uma doce contradição. O futebol é arte no sentido de nos mostrar que mesmo quando tudo parece perdido aparecem as frestas e dentro delas podemos respirar.

Fora de campo o Flamengo não merece muito da minha simpatia. Uma diretoria que recebeu e afagou presidente genocida não está na minha lista de coisas aceitáveis. Mas em campo, quando a bola rola, o Flamengo presenteia o torcedor com o sagrado direito de seguir sonhando com dias melhores. Mostra que juntos podemos mais, e que o ser humano, a despeito de tantas maldades e individualismos, segue tendo a capacidade de ser encantado.

Nada garante que esse time de tanta magia vai ganhar títulos, nem mesmo que vá vencer o Palmeiras no domingo. Mas não se trata, como já disse, de projetar cenários. Não tem nada de bom que venha dessa projeção. Se trata de estar aqui agora e de conseguir - diante do admirável ímpeto de um time concebido para atacar intensa e criativamente - encontrar um espaço para respirar e sonhar em meio a tanta ruína.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL