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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O futebol brasileiro precisa ser refundado

Especial - Futebol Raiz (várzea) - Diego Padgurschi /Folhapress
Especial - Futebol Raiz (várzea) Imagem: Diego Padgurschi /Folhapress
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

27/03/2021 16h39

Estamos por conta própria. Quis o destino - e todas as pessoas que votaram em Bolsonaro ou anularam o voto - que tivéssemos que passar por uma pandemia liderados por um psicopata que, com o auxílio de seu ministro da economia, não deixou passar a chance de cometer um genocídio. É onde estamos agora: sozinhos e sozinhas, implorando por alguma dose de sorte, lidando com medos e com o desamparo.

Todas essas sensações são ainda piores para quem não pode se isolar, para quem não tem onde se isolar, para quem precisa trabalhar e se expor ao vírus para não morrer de fome.

No meio dessa tragédia sem precedentes, tem o futebol que se recusa a parar. Negacionista, segue como se quase nada estivesse acontecendo baseado na crença limitante e delirante de que o povo precisa dessa distração.

A população precisa de muitas coisas sim: oxigênio, segurança alimentar, acesso à tratamento, amparo social. O futebol, nesse momento, não é imprescindível. Mas poderia exercer sua função social, uma que ele parece ter perdido de vista.

Só que o futebol, assim como a economia, não pode parar. É o que diz o mantra dos donos do poder.

A reunião da CBF em que o presidente Rogerio Caboclo fala com representantes de diversos clubes brasileiros e que foi divulgada pelo Blog do Venê Casagrande (Obrigada, Venê), revela as vísceras apodrecidas desse esporte que amamos.

Pelas palavras de Caboclo fica escancarado por que o futebol não pode parar: as corporações que pagam por ele não querem. São patrocinadores, a empresa que televisiona, a grana enfim. Se o capital não quer parar, então não há por que parar, sejamos razoáveis.

A palavra da razão está sempre ao lado daqueles que dizem coisas como "claro que algumas vidas serão perdidas, faz parte. O que não pode parar é a economia". Quem chama a atenção para a importância da vida é rapidamente chamado de ingênuo.

O futebol é, hoje, nada além disso: uma mercadoria.

O futebol brasileiro existe para atender interesses que não dizem respeito ao torcedor. O torcedor é um detalhe nesse jogo. Estádios foram redesenhados para que apenas uma parcela específica da população possa frequentá-los. Jogos pela TV precisam ser comprados. Duas vezes comprados porque não basta assinar o canal de esportes. Precisa também assinar o - o nome é gringo, claro - pay per view. Aqueles que só têm dinheiro para assinar um tipo de pacote acabam tendo que ver Mirassol e Novo Horizontino. Quem sabe ano que vem, se você se esforçar um pouco mais, sobre dinheiro para o pay per view.

O futebol brasileiro se desconectou da realidade. Num país em que pessoas estão deixando de usar botijão de gás e voltando à lenha por falta de grana, em que a fome é outra vez uma ameaça, em que a população de rua cresceu exorbitantemente, o futebol é feito para a pessoa rica, para um Brasil institucional que se acovarda nos muros de seus condomínios, que se recusa a enxergar o futebol como ferramenta política de emancipação.

Em 1970, durante uma ditadura feroz, existíamos futebolisticamente. Éramos gigantes, autores de um tipo de jogo que não víamos em nenhum outro lugar. Em 1982 ressurgimos com um futebol emocionante e comovente, que encantou e fez vibrar Europa, Africa e Oceania.

E então, assolados pelas sagradas leis de mercado, assistimos de nossas salas o capitalismo em sua versão mais nociva - o neoliberalismo - infectar todas as dimensões de nossas vidas - o futebol uma das mais importantes. Em sua fúria por lucro e exploração o sistema econômico estrangulou o futebol e o jogo começou a agonizar.

Muito antes de o futebol assumir sua dimensão corporativa e virar produto feito para ricos eu conhecia pessoas que diziam: quer resolver o problema das brigas nos estádios? Aumenta o preço do ingresso. Como se o pessoal da cativa fosse uma gente muito fina, elegante e sincera que aplaude um gol como quem aplaude uma orquestra sinfônica ao final do concerto e respeita o sujeito sentado ao lado com a camisa do rival. O classismo - que nesse país não está separado do racismo - é de nossas mais graves doenças.

O futebol brasileiro hoje é feito por e para um Brasil que não existe de fato. O Brasil da geral, o Brasil dos corpos que dançam e cantam livremente, não está representado pelo jogo. Em campo o que a gente vê é um reflexo dessa miséria moral: um jogo acovardado, apequenado, defensivo, violento.

Não há mais um esquema tático original, o drible praticamente morreu e tudo o que fazemos é imitar aqueles que nos colonizaram. Imitamos a forma como entrevistas são dadas, a entrada dos times em campo, os esquemas de jogo. De bom grado, nos curvamos a uma cultura futebolística que não nos representa, mas que atende perfeitamente os interesses do capital.

E até a camisa amarela, que chegou a ser a mais bela do mundo, hoje representa essa miséria moral, um patriotismo entreguista, tosco e contraditório. Uma aberração estética capaz de, numa manifestação patriota, misturar a farda amarela com a bandeira americana.

Um futebol que está fechado com essa política genocida, com o negacionismo, com a covardia. Um futebol incapaz de debater privilégio de cor, como se existisse num universo paralelo, num mundo alienado e irreal, formado por homens brancos e poderosos que têm sempre todas as respostas e que se orientam apenas pelo lucro e por absolutamente nada além dele.

Nosso futebol está morto. Que possamos, quando tudo isso passar (porque vai passar) refundá-lo. Que o novo futebol tenha as pernas de Garrincha, a cabeça de Pelé, as mãos e o caráter de Barbosa, a técnica de Marta, a potência de Formiga.

Que seja leve como o Brasil que existe nas frestas (Salve, Luiz Antonio Simas), alegre como o samba de roda do Recôncavo, irreverente como o Carnaval, exuberante e encantado como a bateria de uma escola de samba, ousado como todos os que se arriscam lutando contra opressões (Viva Marielle) e potente como um Orixá.

Que tenha a sabedoria das rezadeiras do nordeste, carregue a esperança de uma benzedeira e a resiliência de tudo o que é feminino. Que tenha as cores de um Brasil capaz de resistir e re-existir, capaz de se reinventar uma vez, e depois outra vez, mesmo quando tudo parece perdido.

E que esse mundo colonizado e apodrecido comandado por homens brancos hétero-normativos cheios de poder e de crenças limitantes, aprisionados em seus castelos machistas e patriarcais, seja de vez superado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL