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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Mulher e o futebol

Marta cumprimenta Vadão durante jogo entre Brasil e Itália pela Copa do Mundo de futebol feminino - Richard Sellers/PA Images via Getty Images
Marta cumprimenta Vadão durante jogo entre Brasil e Itália pela Copa do Mundo de futebol feminino Imagem: Richard Sellers/PA Images via Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

08/03/2021 15h32

Eu jogo bola desde muito pequena. Não sei exatamente como isso aconteceu, mas sei que não me lembro da infância sem uma bola debaixo do braço e meu kichute de cadarço amarrado na canela ou dando voltas pelas travas. Eu jogava bem e, claro, jogava com os meninos porque não havia, naquela época, meninas para jogar comigo.

Quando finalmente montamos um time de mulheres, começamos a jogar mais seriamente, entrar em campeonatos, ganhar troféus. Conhecer outras mulheres que jogavam bola foi um divisor de águas na minha vida. Ter que jogar entre meninos e homens era sempre ter que, antes de mais nada, me provar. E, depois, ir driblando aqueles que tentavam chegar um pouco mais perto, ganhar mais coisas além de passes e tabelas. Aqui era preciso um equilíbrio diplomático porque arrumar encrenca com os caras era ter que sair do time, e isso eu não queria.

Nesse 8 de março, muito se fala em igualdade entre os gêneros, e de fato a luta passa por aí. Mas o que a gente quer mesmo é a superação desse marcador. Não queremos o pedestal. Não queremos elogios porque somos assim ou assado, porque jogamos bem, porque chutamos forte, porque cabeceamos com precisão. Queremos apenas ser - e exercer essa paixão.

Uma vez teve um cara que disse mais ou menos assim: o livre desenvolvimento de cada um se torna condição para o desenvolvimento de todos. E ele também disse: só através do outro podemos nos tornar quem somos.

Isso implica o enriquecimento de liberdades individuais, e não sua diminuição. Para esse homem, o trabalho era uma coisa que não poderia desconsiderar gênero, afeto e sexualidade. Trabalho deveria envolver amor.

O nome dele é Karl Marx e suas ideias incentivaram, entre outras revoluções, a criação do 8 de março no mundo: dia de celebrar a luta das mulheres.

Em 1910, uma feminista-marxista alemã chamada Clara Zetkin sugeriu que as trabalhadoras de todos os países organizassem um dia especial das mulheres com o objetivo de promover o direito ao voto feminino.

Em 1911, em Nova York, um incêndio numa fábrica têxtil matou mais de 150 trabalhadoras gerando revolta e, com ela, a luta das mulheres por direitos civis, incluindo os trabalhistas, começava a se unir pelo mundo.

Em 8 de março de 1917, operárias russas saíam pelas ruas de São Petersburgo (Petrogrado na época) pedindo luta nacional contra a Monarquia.

A origem do 8 de março é a luta das trabalhadoras no mundo. É uma luta contra as violências embutidas no sistema patriarcal e capitalista. A gente situa violência na criminalidade e na delinquência apenas, mas há outras formas de violência e a maior delas é não reconhecer a humanidade no outro.

Virginia Woolf escreveu: "Como mulher, não tenho um país; como mulher, não quero um país; como mulher, meu país é o mundo inteiro". Para ela, a escola da vida não ensinaria a arte da dominação, ou a arte do poder e da matança, ou como adquirir terras, propriedades, capital. A escola imaginada por ela ensinaria artes como medicina, matemática, música, pintura, literatura. Também a arte do sexo, do entendimento a outros seres humanos, vidas e mentes. O objetivo não seria segregar ou especializar, mas misturar. E ela também disse que o fascismo é a derradeira expressão da hierarquia patriarcal.

Como não superamos a hierarquia patriarcal, estamos, outra vez, lidando com o fascismo que parecia ter sido superado. Mas ele não foi superado e, como escreveu Nicolas Kistoff, colunista do New York Times: a grande ameaça a extremistas não são bombas jogando drones, mas meninas lendo livros.

É isso o que vai nos libertar.

Politicamente, somos moldadas desde pequenas: Casar é transmitido como objetivo final quem é mulher.

O recado vem por todos os lados, das formas mais singelas, como via brinquedos que simulam o trabalho de uma dona-de-casa (jamais uma bola, como minha mãe ousou me dar) ou via filmes românticos que terminam sempre com o casamento.

Não há conversas sobre sexo, relações humanas, convívio. Apenas o casamento como objetivo final, e as tarefas do lar como brincadeiras de criança. A política da doutrinação e da perpetuação do patriarcado.

Para outra socialista memorável, Emma Goldman, casamento nesses termos é como aquele outro arranjo patriarcal, o capitalismo. Ele rouba homens e mulheres de dignidade, de brilho, poda seu crescimento, envenena seu corpo, os mantém na ignorância, na pobreza, na dependência, e então institui a caridade, que rouba os últimos vestígios de autorrespeito.

Então, nesse 8 de março, resista à tentação de colocar a gente em um pedestal. Não queremos rosas. Não somos boas ou más por sermos mulheres. Não somos fortes ou fracas por sermos mulheres.

Quando somos separadas do todo podemos ser observadas para sermos elogiadas, mas também mutiladas. O mesmo vetor que endeusa na segunda é capaz de matar na sexta. É o que fazemos com a natureza enquanto destruímos o planeta. Colocar a mulher num pedestal e admirá-la de longe apenas cria novas possibilidades de nos separar.

"Um ser humano é parte de um todo que chamamos de universo", disse Albert Einstein. "Uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experimenta a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como alguma coisa separada do resto, uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é uma forma de prisão, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas. Nossa tarefa deve ser a de nos libertar dessa prisão, alargando nosso círculo de compaixão para envolver todas as criaturas vivas e toda a natureza em sua beleza"

Ao fazermos o que pede Einstein, o fato de haver ainda quem more em comunidades sem acesso a água tratada vai nos mover politicamente. O fato de um homem morrer de frio nas ruas de São Paulo vai nos mover politicamente. O fato de haver crianças sem acesso a abrigo e alimentos vai nos mover politicamente. E ao atingirmos esse nível de envolvimento entenderemos que tudo, incluindo aí o futebol, é política.

E que política, portanto, é amor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL