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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As vozes do esporte: STJD respalda racismo, Hamilton condena homofobia

Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

19/11/2021 11h23

Os três pontos imundos devolvidos ao Brusque pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva são cicatriz para toda uma vida. Estão ali na tabela da Série B como símbolo de vergonha, desrespeito e respaldo a uma das mais nojentas práticas do ser humano, o racismo. Precisava, sim, o clube pagar caro, e não somente por ter na presidência do seu conselho deliberativo um calhorda capaz de ofender um adversário negro. O Brusque precisava pagar caro também por ter tentado virar o jogo, acusando a vítima, Celsinho, do Londrina, de falsa imputação de racismo.

E há, ainda, requintes de crueldade na decisão de devolver os pontos malditos ao Brusque: o julgamento ocorreu às vésperas do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. É muita insensibilidade.

A diretoria do Brusque jura que Júlio Petermann não cometeu injúria racial ao mandar o meia Celsinho cortar seu cabelo "cachopa de abelha". Como se não fosse racista quem faz esses dois julgamentos tão comuns contra quem tem a pele negra: 1) cabelo ruim, 2) tem que cortar. Ora bolas, já não vamos nos surpreender se alguém disser que chamar de macaco agora é elogio; e periga o STJD também cair nessa, hein...

Voltemos aos cabelos. São lindos. Os de Lewis Hamilton transitam pelo circuito de Losail, no Catar, cobertos por um capacete com as cores do arco-íris. Inveja define meu sentimento ao saber da novidade, queria esse britânico com RG e CPF brasileiros, voando nas pistas e, silencioso, gritando ao mundo contra a atrocidade de um país do Oriente Médio que considera crime as relações homossexuais.

O piloto da Mercedes dá ao mundo o sinal que o Brusque e o Superior Tribunal de Justiça Desportiva não conseguem enxergar. Não basta ser atleta. Não basta fazer do esporte uma fonte de renda. Há muito mais em jogo do que músculos, suor, troféu e carrão na garagem. O esporte pode e deve sugerir reflexões humanas justamente por estar aberto a todas os credos, sexos e raças. O esporte é caixa de ressonância, faz chegar aos ouvidos os mais belos acordes mas também o chiado da orquestra desafinada. Lewis Hamilton escolheu dar voz à população LGBTQIA+, levando no seu capacete a inscrição "We Stand Together", que por sugestão minha será traduzida para "Tamo Junto" na sua próxima encarnação, quando ele voltar ao mundo como atleta brasileiro. Faz falta por aqui. Já o pleno do STJD desafinou e perdeu a oportunidade de proteger a causa antirracista, uma luta árdua, mas que vai continuar. Apesar deles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL