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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marluci: Renato Gaúcho tem o pior emprego do mundo

Renato Gaúcho observa a equipe do Flamengo em jogo contra o Athletico-PR na Arena da Baixada - Gabriel Machado/AGIF
Renato Gaúcho observa a equipe do Flamengo em jogo contra o Athletico-PR na Arena da Baixada Imagem: Gabriel Machado/AGIF
Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

03/11/2021 07h39

Tão logo enrolou-se a porta do bar, abrindo caminho para a fila de espera, eles foram os primeiros a entrar. Missão cumprida, a mesa mais próxima à televisão estava dominada, tudo deles, a quatro horas do início do jogo do Flamengo. Era meio-dia, fim de uma manhã de Finados, esperança de sucesso no processo de ressurreição no Campeonato Brasileiro. Eram quatro. Logo seriam seis. Oito. Dez. Não paravam de chegar. E o trio uniformizado que adentrou por último, um casal com o filho, desistiu da confusão.

- Tá cheia demais essa mesa. E, olha lá, tem até um tricolor. Tá fazendo o que aqui? Vai se f*. Fico nervoso. Vamos ver o jogo em casa mesmo - despediu-se o chefe da família, arrastando pelas mãos a mulher e o filho, com o andar apressado porque àquela altura faltava pouco para o apito inicial.

Saíram também de cena a costela, os bolinhos de arroz e os bolovos, quando a bola começou a rolar. A comida já não descia pela garganta daquele pessoal, com muita sede de gols e dos chopes servidos com fartura pelo garçom Michael - juro que era esse o nome -, em melhor forma que os jogadores do time. Alguém se sentou na minha mesa, desculpando-se pela invasão que pouco me incomodava. A infiltrada ali era eu, imagina, uma vascaína roubando o espaço de um rubro-negro em dia de futebol deles.

Jogo do Flamengo é um evento. A pessoa dorme ansiosa na véspera, acorda tensa e falante, combina cedo a programação com os amigos, umas cervejas nos arredores do Maracanã em dia de mando de campo, ou uma reunião diante da televisão, prenúncio de uma confusão com aquele palavreado que não se aprende na escola, mas nos estádios e botequins mais vagabundos.

Já estavam todos de pé muito antes de o árbitro erguer o braço e decretar silêncio na mesa. Caras emburradas, copos pela metade, fim de festa sem saideira. Conta paga, mesa vazia, acabou o dia. Finda a esperança, a menos que o Galo permita o sonho mais uma vez.

Quem vai explicar a essa gente apaixonada que o Flamengo precisa abrir mão do Campeonato Brasileiro e mergulhar de cabeça na Libertadores? Como convencer o torcedor rubro-negro a não esquentar a cabeça com a cegueira do VAR que invalidou a expulsão de Renato Kayzer? Como curar a tristeza pelo gol de empate sofrido nos acréscimos?

Renato Gaúcho tem, nesse momento, o pior emprego do mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL