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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vovô Roberto Dinamite, a estátua tarda mas não falha

Roberto Dinamite em jogo do Vasco - Reprodução de foto de Ronaldo Theobald
Roberto Dinamite em jogo do Vasco Imagem: Reprodução de foto de Ronaldo Theobald
Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

22/10/2021 11h15

Os cabelos brancos denunciam a pressa do tempo e a lentidão do ser humano. Passaram-se 50 anos desde a explosiva vitória do Vasco por 2 a 0 sobre o Internacional, e somente agora aquele garoto da Baixada Fluminense, um dos muitos Robertos desse país, vai virar estátua na casa onde cresceu.

Precisou de uma bomba certeira para ganhar o sobrenome eterno como se de batismo fosse, Dinamite. E de um total de 708 gols pelo Vasco para ser esculpido pelas mãos de um artista.

Roberto precisou disputar 1.110 jogos com a camisa do clube.

Precisou ser o maior artilheiro da história do Campeonato Brasileiro.

Precisou ser o maior artilheiro do Campeonato Carioca.

Precisou ser o maior goleador do Vasco.

Precisou ser o maior ídolo do clube.

Precisou fazer gol de lençol no Osmar.

Parem as máquinas porque é preciso escrever mais do que uma linha sobre esse gol. Foi no Carioca de 1976, contra o Botafogo. O ídolo do Vasco recebeu da direita a bola de Zanata, matou no peito, aplicou um lençol no zagueiro Osmar e detonou o goleiro. O gol, aos 45 minutos do segundo tempo, foi o da virada: 2 a 1.

Roberto precisou recusar um convite para jogar no Flamengo.

Precisou fazer cinco gols sobre o Corinthians no Maracanã lotado.

Precisou reunir amigos da pesada na sua festa de despedida, e, entre eles, Zico, com a camisa do Vasco na foto para a posteridade.

Nem dá pra dizer que só faltou fazer chover. Deve ter feito isso também.

O que faltava mesmo para Roberto Dinamite merecer uma estátua em São Januário? Dinheiro? Em cinco horas a torcida corrigiu o lapso histórico: uma vaquinha arrecadou R$ 190 mil, merreca que não paga o valor de Roberto, patrimônio do Vasco e do futebol.

Demorou tanto que Roberto já é avô de Valentina e Bento. A menina, de 7 anos, e o pequeno, de 1, já poderiam se orgulhar do coroa de cabelos brancos por tudo o que os livros e a televisão contam, mas em breve terão a materialização da lembrança em uma estátua no Brasil de desmemórias.

Que a estátua de Roberto em São Januário corrija as perdas pela lentidão do processo. E que tenha o sorriso aberto e sereno, marca registrada do artilheiro, agora com mais uma razão para novamente mostrar os dentes: fez-se a justiça.

POR FALAR EM ÍDOLO...

O STJD acertou em mandar para o banco dos réus o descontrolado Fred. Ele não precisava acrescentar à sua biografia a agressão a Ronald, do Fortaleza. O quase quarentão, libriano de 38 anos, um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro, tem nome e história a zelar; não importa se doeu ou não o golpe no pescoço do adversário; não importa se o humilhante lençol era desnecessário, com o jogo já parado. A cena patética não combina com a categoria do ídolo do Fluminense, que, ao puxar a camisa do adversário, obrigando-o ficar de pé, desceu alguns degraus da fama. Foi feio e, infelizmente, inesquecível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL