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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marluci: Isla errou ao deletar algumas das melhores fotos da sua vida

Isla saindo de campo após ser expulso na partida entre Grêmio e Flamengo - Pedro H. Tesch/AGIF
Isla saindo de campo após ser expulso na partida entre Grêmio e Flamengo Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

22/09/2021 12h49

A cerquilha, tecla do telefone de função só compreendida pelos raros leitores de manuais de instrução, ganhou vida e serventia. É capaz de fazer bombar na web os mais vis sentimentos de quem a tem na ponta dos dedos. Para quem não sabe, refiro-me ao jogo da velha, aquele símbolo da hashtag, palavra sem tradução, mas íntima dos menos jurássicos. Em português claro: estão perseguindo e ofendendo nas redes sociais o lateral-direito Isla, do Flamengo. Doeu nele.

De acordo com quem segue o chileno no Instagram, o pagamento veio na mesma moeda. Ou melhor, ele respondeu no mesmo teclado: tomado por completo desvario, meteu o dedo no delete e saiu apagando todas as suas fotos com o manto rubro-negro, num rompimento virtual de vínculo, como se não valesse o que está escrito na base do contrato e nas publicações de imprensa. Está lá, na mesma internet que bate sem dó, o registro: no dia 22 de agosto de 2020, Isla assinou com o Flamengo até dezembro de 2022. E, olha, tem até foto de beijo no escudo.

Ao apagar as fotos com a camisa do Flamengo, um álbum do qual deveria se orgulhar pelo resto dos dias, Isla agiu sob influência de seus agressores. E se Renato Gaúcho decidisse fazer o mesmo, deletando-o do time? Isla errou. Por sua linha de raciocínio, delegou aos detratores o poder de editar seu álbum de fotografias e de escalar o time. Melhor seria dar um delete nos haters ou ratos de internet que rastejam pelo esgoto alimentando o ego e um objetivo na vida: 280 caracteres de fama no Twitter ou a mísera atenção de alguém para um retrato postado no Instagram.

Cheguei a me lembrar do ex-jogador Felipe que, em seu último jogo pelo Flamengo, em 2004, marcou um golaço na vitória por 6 a 2 sobre o Cruzeiro, tirou a camisa do corpo e arremessou-a longe. Mais tarde, em uma entrevista a mim concedida para o Jornal Extra, ele se justificaria: "Joguei a camisa para o alto, mas camisa não voa". Melhor ouvir isso do que ser surda, melhor ainda é rever o lance do gol, o mais bonito da carreira do ex-lateral, ídolo do Vasco.

Felipe, hoje com 44 anos, ainda viveu os tempos da irreverência desdentada do geraldino, que divulgava ao mundo seu protesto por meio de letras mais ou menos tortas escritas em cartolinas de tons pasteis. Isla, com 33, não está neste fuso. A era da ingenuidade saiu do jogo, deu lugar a um canhão de maldades das redes sociais, que ferem o alvo com hashtags agudas, sem poupar famílias, sem compromisso com a verdade, pois quem atira tem, em vez de nome e CPF, um simples apelido e um rosto cedido por um banco de imagens gratuito ou coberto com bandana de bandido. A rede social ganha também eleição, dá emprego, chegou para ficar.

É amá-la ou deixá-la. O que não faz sentido é Isla e o Flamengo se pautarem pela cabeça de gente que talvez nem conheça os portões de acesso do Maracanã. O melhor caminho contra ameaças e ofensas mais pesadas usa farda e distintivo, é a polícia, e há uma delegacia especializada para crimes de informática entupida de denúncias, não custa nada receber mais uma. Já estive lá, ofendida certa vez por alguém, muito bem atendida pelo inspetor Cromwell, nome de personagem de filme policial, de autoridade e tamanho que encorajam qualquer denúncia embasada. Na audiência, uns seis meses depois, meu suposto detrator vestiu terno, chorou copiosamente e mostrou um celular de tela quebrada pela mulher, disposta a pedir o divórcio se não fosse comprovada a esfarrapada tese de defesa de roubo de senha do Twitter. Chamei no canto meu amigo Jiló, advogado que me acompanhava: "Esquece isso, o coitado do cara tá chorando, vamos recuar".

Em uma coluna semanal, nem cabe lembrar que Isla vem jogando abaixo das expectativas, pois um cruzamento bonito, um gol ou um drible podem virar esse jogo. As palavras escritas na internet, assim como as fotos marcantes das nossas vidas, ficam para sempre e não devem ser deletadas, ainda que se esteja sob a mira do pelotão de anônimos atiradores de hashtags do dia. Eles passam. Ou choram na hora do acerto de contas com a justiça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL