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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marluci: Barreira do Vasco desce colina e ganha ressignificação desonrosa

Lisca, ex-técnico do Vasco - Thiago Ribeiro/AGIF
Lisca, ex-técnico do Vasco Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

09/09/2021 12h23

Eu até poderia falar da Barreira do Vasco, a favela madrinha. Reza a lenda que o apelido Gigante da Colina nasceu porque a linda sede cruz-maltina ficava em um terreno elevado. Mas aquela região acabou aterrada, e aos poucos a colina foi dando lugar a casas populares; era a Barreira do Vasco se formando.

A favela tem história íntima com a do glorioso estádio de São Januário. Vem de uma época em que orgulho definia, e assim foi por muitos e muitos anos.

Toda essa tentativa de traçar bem as linhas acima é para massagear o hematoma do presente que, sem poesia, permitiu outro dia a inserção de um novo significado nos sites de busca da vasta internet. Barreira do Vasco é também, desde o dia 6 de setembro, uma formação com seis jogadores - cinco de pé, lado a lado, e um outro deitado no chão. Não custa descrever o desnecessário clima de pânico criado ante uma mísera cobrança de falta na lateral da entrada da grande área, com o tal jogador deitado de costas para a bola, exatamente com o traseiro virado para o que estava por vir. Mais 90 graus de inclinação, seria o prenúncio napoleônico da perda da guerra.

Ah, sim, é preciso dizer que esse jogador em questão era o camisa 10 do time. Que morte horrível a dessa camisa - quando for assim, alguém precisa tirar as crianças, o Roberto e o Edmundo da sala.

Não tentem fazer na pelada, pois, claro, bola alçada sobre a cabeça dos bobos, e foi gol do Avaí, em vantagem numérica dentro da área já que o Vasco gastou 60 por cento do seu efetivo em uma barreira burra, ingênua e sem fundamento. Foi também o sinal de que Lisca estava perto de ir curtir em outra freguesia a Ana Júlia Vascaína do seu celular, na voz afinada da rainha Teresa Cristina. O sentimento por ele parou ali.

Lisca não fez nada no Vasco. Foram quatro vitórias, um empate e sete derrotas - duas das quais pela Copa do Brasil. A péssima campanha ficou em evidência por bizarrices como a da barreira e muito também pelo desempenho de outros dois treinadores que chegaram chegando na Série B: Enderson Moreira e Vanderlei Luxemburgo. Na última quarta-feira, quando Lisca meteu o pé - ou será que tomou um pé naquele lugar? -, o Botafogo de Enderson respirava o ar puro do G4, e o Cruzeiro de Luxa se vangloriava por uma invencibilidade de sete jogos com ele, nove no total.

Já o Vasco desceu a colina e mora hoje abaixo da linha da pobreza do futebol, abaixo do que jogam os times de estatura mediana, abaixo do aceitável quando se pensa no tamanho daquela bandeira. E, agora, carimbado por uma barreira rebaixada ao anedotário esportivo, feito videocassetada da qual se ri por pior que seja a dor de quem leva o tombo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL