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Marília Ruiz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marília Ruiz: Endurecemos e perdemos até a ternura

Marília Ruiz

Tenho 20 anos de jornalismo esportivo: 5 Copas do Mundo, 4 Olimpíadas, muitos Brasileiros, alguns Mundiais e várias Copinhas. Neste blog seguirei fazendo isso: escrevendo sobre futebol. Sem frescura. Sem mimimi. Para versões oficiais dos clubes e atletas, recomendo procurar as assessorias de imprensa.

18/05/2021 13h59

Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais.

Não há biógrafo ou texto deixado por Che Guevara que confirmem que o argentino revolucionário tenha dito a famosa frase. Mesmo assim, a citação (usada e abusada) serve para muitos momentos da nossa conturbada vida latino-americana. Só não serve mais para uma das coisas que mais une o povo desunido dessa parte do mundo: a Copa Libertadores da América.

Sem qualquer verniz humanitário, o futebol por aqui decidiu que, com ou sem pandemia, seguiria. Seguiria a lógica da sobrevivência dos mais fortes/com mais lobby/ com mais respaldo das carentes torcidas para não parar de jogar-arrecadar-jogar-arrecadar-jogar, e as outras atividades econômicas que se virassem para se livrar das consequências e sequelas do novo coronavírus.

É tamanho o desamor (ou a anestesia por tanto horror?) pelos outros, pela vida, pela mínima ética, que não choca quase ninguém a situação bizarra enfrentada nesta semana pelo River Plate, que não tem nem 11 jogadores sãos para colocar em campo pela Libertadores nesta rodada. Não tem NENHUM goleiro!!!

Até a guerra tem leis mais humanas de combate do que a Conmebol tem imposto aos clubes nesta edição itinerante da Libertadores. Há regras da Convenção de Genebra/Estatuto de Roma que, entre outras diretrizes, "regulam" as guerras e proíbem, por exemplo, que se mate ou fira soldado que não tenha condições de se defender.

No futebol, a regra é: jogue e não reclame. Jogue e arrecade. Jogue.

A justificativa de que a "culpa" de não ter jogador para colocar em campo é do River é bizarra.

Quem abraça cegamente o argumento de que o River deveria ter inscrito 50 jogadores e agora que sofra as consequências é amoral, é gélido, está muito distante do que se espera do FAIR PLAY, do espírito esportivo, do que era para ser um jogo de futebol.

Estamos há 14 meses cobrando de dirigentes do futebol que repensem datas, regras e planos por causa da pandemia. Agora, porque o afetado é um time argentino (sempre favorito, sempre "favorecido"), vocês da imprensa querem porque querem que seja aplicada a letra fria do regulamento.

Espero, de verdade, que o efeito moral dessa anestesia moral seja passageiro.

A pandemia tem efeitos colaterais tenebrosos...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL