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Marília Ruiz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marisa Alija: Toda mulher é meio Leila Diniz (ou Pereira)

Divulgação
Imagem: Divulgação
Marília Ruiz

Tenho 20 anos de jornalismo esportivo: 5 Copas do Mundo, 4 Olimpíadas, muitos Brasileiros, alguns Mundiais e várias Copinhas. Neste blog seguirei fazendo isso: escrevendo sobre futebol. Sem frescura. Sem mimimi. Para versões oficiais dos clubes e atletas, recomendo procurar as assessorias de imprensa.

08/03/2021 04h00

"Toda mulher quer ser amada/ Toda mulher quer ser feliz/ Toda mulher se faz de coitada/ Toda mulher é meio Leila Diniz."

A genial Rita Lee não erra.

Marisa Alija, advogada e empresária, não entrou no futebol para passar despercebida.

Da conturbada, contestada e frustrada volta de Robinho ao Santos no ano passado ao recente retorno do atacante Hulk ao Brasil, Marisa tem ocupado posto de destaque em ambiente ainda recheado prioritariamente por homens.

"Por homens machistas", ressaltou em entrevista que deu ao blog.

Aos 46 anos, dois filhos, não quer ser exemplo para outras mulheres que almejam uma vaga no restrito mundo dos agentes de jogadores de futebol - ela acaba de protagonizar uma das negociações mais pesadas da temporada: a volta do atacante Hulk ao futebol brasileiro.

"Trabalhei para chegar até essa posição. São o trabalho e a experiência que me capacitam. Ser mulher me ajuda a ter uma relação mais fraternal com os atletas. É um dom. A gente se importa mais. Eu me importo com a vida deles depois da transação, depois de receber os 10% que me cabem. E isso ajuda. Mas a verdade é que eu era mais dócil e ingênua antes de entrar para o futebol em 2003. O trabalho me deixou mais contundente, fechada, firme. Tenho mais conhecimento acadêmico do que os meus colegas. É isso que eles têm dificuldade de aceitar. Uma mulher forte é sempre taxada disso e daquilo", afirmou sem falsa modéstia.

Se não quer ser exemplo, Marisa tem sim as suas inspirações. Citou as jogadoras do futebol feminino que não pestanejaram ao irem atrás dos seus sonhos no fim da década de 90 e começo dos anos 2000. Citou também a empresária Leila Pereira, dona da Crefisa, patrocinadora do Palmeiras e favorita a assumir a presidência do clube na próxima eleição.

"Quem me inspira nesta luta são as mulheres que foram jogar bola apesar de todo preconceito que existia, que era coisa de 'sapatão' e tal. Elas peitaram o mundo! Quem me inspira é a Leila (Pereira), que é protagonista em um clube de futebol, espaço que é altamente machista. Eu sei o quanto é machista. Em muitos clubes sou recebida por dirigentes que se incomodam com a minha presença. Já teve quem não quisesse lidar comigo porque sou mulher. Mas não me intimido", disse.

Não é só no tom da "não intimidação" que Marisa se aproxima de Leila, figura já nacionalmente reconhecida. A empresária palmeirense parece se alimentar da popularidade alcançada junto aos seus muitos "sobrinhos", a quem responde com afagos o apelido de "tia Leila", com a mesma naturalidade que atropela a concorrência. Ambas trabalham com marido, mas não se apoiam neles. Sem eufemismo, ambas se amam e defendem o seu.

E o "seu" da Marisa inclui muitas promessas da base, estrelas e ex-jogadores como Robinho, motivo de seu début definitivo na grande mídia. Se não se importa em ser exemplo, Marisa também afirma não se importar em ser vidraça.

"Não me importam o que falam. Nem, no caso, as mulheres que me julgaram. Represento o Robinho desde 2005, acredito no que ele diz, conheço o processo e não ia deixa-lo agora. Seria muito fácil para mim, sairia como exemplo, feminista, mas iria contra a minha índole. Não fiz pelo dinheiro, não ia ser nesse contrato simbólico com o Santos que eu ia ganhar nada. Fiz porque não seria justo acompanhá-lo até aqui e agora abandoná-lo. Seria cômodo, mas não seria eu."

Essa colunista tem opinião clara e manifesta sobre o tema. Opinião, inclusive, que foi compartilhada com a entrevistada. Mas o objeto do post é ela, Marisa Alija, advogada e agente, 46 anos, que quer ser amada pelos seus, que quer romper com o sistema, que quer ver seu nome em neon.

Quando homens têm a mesma postura, personalidade e autoconfiança, tudo isso não é um problema. Nunca foi.

Pois. Toda mulher é meio Leila Diniz...
Aceitem, repensem, melhorem.

Ainda é necessário que exista um Dia Internacional da Mulher - e não é exatamente um dia de festa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL