Luís Rosa

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Opinião

Como vi de perto a festa do primeiro título da Libertadores do Palmeiras

Poucos minutos antes de iniciar a disputa por pênaltis, naquela que seria a maior vitória que eu vi do Palmeiras desde que me conheço por gente, olhei para a minha esquerda. Ao meu lado, Mauro Beting, amigo jornalista e na época colunista e companheiro do hoje extinto Agora São Paulo, esboçou um semblante de que "fique calmo, Rosa, vai dar tudo certo, merecemos e seremos campeões da Libertadores".

Era a noite de 16 de junho de 1999. Estávamos na sala de imprensa do antigo Palestra Itália, sofrendo calados ao longo de uma partida no melhor estilo do que é a Copa Libertadores da América: brigada, catimbada, pouca técnica e eletrizante.

Hoje podemos dizer, "final não se joga, final se ganha". Como pitada adicional neste roteiro inesquecível, aprendemos o que é o estilo Luiz Felipe Scolari, o Felipão, que fez o que pôde para que os seus jogadores vencessem no tempo regulamentar, mas não deu.

Depois de um primeiro tempo arrastado, com uma torcida que não parou em nenhum minuto de incentivar, no segundo tempo o Palmeiras abriu o placar na cobrança de pênalti de Evair, mas Júnior Baiano (esse é um dos grandes personagens desta coluna) foi infantil na jogada e cometeu a penalidade. Zapata, que depois se tornaria para sempre um ídolo palmeirense, empatou.

No estilo Felipão, o Palmeiras foi para cima, ficou na frente com gol de Oséas, mas não conseguiu o terceiro que daria o título no saldo de gols.

Passados 25 anos, eu sei que é fácil escrever, mas não fiquei abalado quando Zinho abriu as cobranças e desperdiçou. Logo ele, um jogador frio e acostumado a decisões. Tudo bem, pensei, o título era questão de tempo.

Nem lembro se olhei para o Mauro Beting, mas acredito que ele, como eu, sabia que em pouco tempo iríamos nos abraçar e comemorar o título. Esse abraço não aconteceu, mas sempre que nos encontramos o abraço faz parte do ritual de amigos que somos.

E a sequência que todo palmeirense sabe de cor foi a seguinte: Júnior Baiano, Roque Júnior, Rogério e Euller bateram e fizeram. Nas três primeiras cobranças, os colombianos marcaram com o goleiro Dudamel, Gaviria e Yepes.

O "São Marcos", que surgiu graças a atuações incríveis e foi eleito o melhor jogador desta Libertadores, muito em função das exibições soberbas nos jogos contra o Corinthians nas quartas de final e no primeiro jogo diante do River Plate na Argentina, viu Bedoya carimbar a sua trave esquerda.

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Pausa dramática.

Na décima cobrança, o jogador mais talentoso do Deportivo Cali, que tinha empatado a partida no tempo regulamentar, mandou para fora. Viva, Zapata! (foi esse o título da capa do Vencer, caderno de esportes da edição de 17 de junho do Agora São Paulo, obra do mestre Fernando Santos, que muito me ensinou a "titular" matérias).

Explosão indescritível no Palestra Itália, mas como jornalista não deu nem para pensar em comemoração, aliás você não está ali para isso, você está para trabalhar e o que não faltou naquele dia foi trabalho.

Logo que saí da sala de imprensa para tentar cobrir a comemoração no título no gramado, a primeira tarefa inesperada.

Em um dos camarotes ao lado, o então ministro da Saúde, José Serra, estava deixando o local. Uma repórter da Vejinha o abordou e perguntou sobre o título. Sisudo, ele primeiro quis saber quem éramos e balbuciou algumas coisas, que confesso nem me lembro nem sei se usamos na edição.

Ao longo daquele semestre, Serra havia criticado o futebol do time treinado por Felipão, que devolveu, no seu estilo bateu, levou, com uma alfinetada: "A saúde está boa, né ministro!!!".

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Na época, em uma cobertura raiz de jornalismo, todo mundo teve acesso ao gramado, ficamos lá até o último jogador descer para o vestiário. Insano correr atrás de tantos personagens importantes.

Churrasco na madrugada

Eu tinha duas missões: descobrir onde seria a festa de comemoração do título e marcar ao menos uma boa entrevista com um personagem relevante, tudo para a edição da sexta-feira, dia 18 de junho.

Lembro que cercamos vários jogadores, felizmente, com o devido respeito, não existia tanto a figura do assessor de imprensa. Assim ficou mais fácil negociar.

O goleiro Marcos, o meia Zinho aceitaram falar, mas nada de exclusividade. Ufa, menos pior. Pelo que aconteceu a seguir durante a quinta-feira, não fui eu que encarei a missão durante a tarde.

Acompanhem que vocês vão entender o motivo.

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E a festa?

Demoramos a descobrir. Achamos melhor a colaboração em conjunto, até que soubemos que seria em uma casa de shows na zona norte de São Paulo.

A minha pauta: ficar na festa até que o último jogador deixasse o local.

Na porta do local, os últimos a ficar de "plantão" foram eu e os repórteres Cosme Rímoli (Jornal da Tarde) e Aurelio Nunes (Diário Popular).

A relação da imprensa com o elenco palmeirense não foi fácil nos primeiros anos da primeira era Luiz Felipe Scolari, com rusgas principalmente com o técnico gaúcho. Eu esperava um ambiente hostil, mas eis que o destino abriu um portal inimaginável.

Até hoje não sei de quem foi a ideia nem que horas eram exatamente, mas fomos convidados a entrar na casa de show e ficar em um local reservado.

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Depois, o zagueiro Agnaldo Liz apareceu e nos ofereceu porções de carnes de churrasco. À medida que a casa foi se esvaziando, tivemos acesso irrestrito.

Pena que não tinha como fotografar, mas uma cena que jamais vou me esquecer.

Em um corredor estreito, pouco iluminado, uma pequena churrasqueira, dessas facilmente encontradas nas redondezas dos estádios, ardia em brasa e ao lado um isopor ainda cheio de cervejas e refrigerantes.

Gente, o time acabara de ganhar o título histórico da Libertadores e um "churrasco raiz" na comemoração. Aliás, eles contaram que foi tudo improvisado na hora, que não pensaram em organizar uma festa do título.

Sabe aquela coisa, "dá azar contar com algo que você nem sabe que irá acontecer", disseram. Ou "vai que vaza" e isso dá mais motivação para o adversário.

Nas conversas, o mais falante foi o zagueiro Júnior Baiano. Conhecido pelo estilo viril em campo e cheio de polêmicas na carreira, o defensor abriu o jogo em muitas questões.

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Artilheiro do Palmeiras na campanha do título com cinco gols, Júnior Baiano temeu ficar marcado pelo pênalti, admitiu ter sido infantil na jogada que originou o empate do Deportivo Cali.

Júnior Baiano nos contou que Felipão teve muito trabalho além de armar a equipe, principalmente com jogadores que se esbaldavam na vida noturna, por isso era comum o período maior de concentração.

Segundo ele, Felipão, isso foi muito noticiado na época, blindou os jogadores com a pressão da "turma do amendoim".

O que espantou é que Júnior Baiano foi enfático e negou, sem que nós perguntássemos, qual era os valores da premiação pela conquista do título. Ele disse que foi uma negociação muito complicada com o presidente Mustafá Contursi e que o valor, que demoraria para cair na conta, era bem menor do que o que alguns jornalistas publicaram.

É óbvio que perguntamos qual era o valor exato, mas ele não quis se comprometer.

Depois, ouvi de pessoas ligadas à diretoria do Palmeiras, que Júnior Baiano estava correto. Digamos que, para o dinheiro de hoje, com a correção da inflação, os atletas que mais atuaram ganharam cerca de R$ 200 mil.

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Façam as suas contas.

Com o sol dando as caras naquela manhã deixei a casa de show. Não estava nem um pouco cansado.

Foi o encerramento da cobertura da minha primeira e vitoriosa Copa Libertadores, competição que teve jogos épicos contra o Vasco da Gama (que era o atual campeão) nas oitavas de final, o Dérbi contra o Corinthians nas quartas de final (Marcos pegou até pensamento e foi decisivo nas cobranças de pênaltis) e a virada sobre o River Plate na semifinal.

Acompanhei in loco todos os jogos do Palmeiras em São Paulo, no Palestra Itália e no Morumbi.

Na verdade, essa Libertadores representou como se eu passasse pela prova definitiva de avaliação se eu seria ou não um bom jornalista. Eu comecei no jornalismo esportivo em novembro de 1996 e, em menos de três anos, participei de coberturas importantíssimas.

Se estou aqui até hoje, acredito que passei no teste com louvor.

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Das grandes coberturas, com total segurança, eu posso afirmar que essa Libertadores foi a melhor de todas, por tudo que aconteceu, que terminou com esse inesquecível churrasco raiz.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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