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Um ano depois, Talibã derruba esperança das atletas e esporte precisa agir

Andrei Kampff

16/08/2022 04h00

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Há um ano o Talibã voltou a controlar o Afeganistão. O que todos apostavam acabou se confirmando. A proteção de direitos humanos tem sido a principal vítima do regime, em especial contra as mulheres. Elas foram obrigadas a deixar empregos, salas de aula e o ambiente esportivo. Nesse cenário, o esporte também tem uma missão a cumprir.

O esporte tem um papel social importante, reconhecido inclusive pela Organização das Nações Unidas. Nessa hora em que direitos universais não são respeitados, o movimento esportivo precisa se posicionar de maneira firme.

Com a volta do Talibã, as atletas do país estão perdendo também a esperança. Depois que o grupo assumiu o controle do Afeganistão em agosto do ano passado, o ministro do Esporte proibiu as mulheres de praticarem qualquer tipo de esporte que exponha seus corpos.

No futebol, no vôlei em todos os esportes

"Eu sabia que se ficasse, o Talibã iria me encontrar, me bater e me queimar vivo. Então, pensei que se eu fosse morta por uma bala ou fosse esmagada no aeroporto enquanto esperava para escapar do país, seria mais fácil morte."

Esse é o devastador relato do Nilofar à revista alemã DW. O crime dela, jogar futebol e incentivar outras garotas a praticar o esporte. Por causa disso, foi perseguida pelo novo governo afegão.

"Todo ser humano deve ser capaz de realizar essas atividades", disse Nilofar à DW. "É um direito humano, mas o Talibã não aceita as mulheres como seres humanos.

Nilofar teva a sorte que muitas não tiveram. Conseguiu fugir junto com 8 meninas do time local de futebol, com a ajuda de um soldado norte-americano que acabou morto.

Assim como ela, jovens atletas afegãs estão espalhadas por todo o mundo, ainda com muito medo de sequer pensar em praticar esportes novamente e constantemente preocupadas com suas famílias que continuam ameaçadas no Afeganistão, simplesmente porque suas filhas participaram de uma atividade esportiva nos últimos 20 anos. As que ficaram no país, abandonaram o esporte. Não existe saída.

"Agora as meninas se odeiam por fazer parte de um time de futebol e ter sido jogadora de futebol. Elas se culpam pela miséria que suas famílias estão sofrendo agora."

A jogadora de vôlei Muzhgan Sadat também divide uma história de dor. Ela já havia sido forçada a deixar seu país de origem em 2019 devido a ameaças do Talibã por seu papel como capitã da seleção nacional de vôlei.

Observando as cenas em Cabul se desenrolando em agosto passado no Cazaquistão, onde ela frequentava a universidade, Sadat viu anos de progresso desaparecerem da noite para o dia.

"Perdemos nossos 20 anos de conquistas e esforços no Afeganistão para construir nossa equipe", disse ela à DW. "Trabalhamos muito para isso, reunindo participantes do sexo feminino, incentivando famílias e meninas a participar da comunidade esportiva no Afeganistão."

Muitas atletas ainda estão presas e temendo por suas vidas no país.

"Ainda há 130 atletas que precisam ser evacuados. Se forem encontrados pelo Talibã, isso significa 100 chicotadas ou até mesmo a morte", disse a ex-judoca afegã Friba Rezayee à RFI.

Rezayee, que deixou o país, é a primeira atleta olímpica do Afeganistão e está constantemente em contato com mulheres atletas que ainda estão escondidas no país. Muitas mudaram de identidade porque temem ser espancadas, apedrejadas ou mortas a tiros pelo regime talibã.

O Talibã roubou vidas, sonhos e a esperança dessas atletas.

ONU, esporte e direitos humanos

O esporte como instrumento de paz e desenvolvimento já tem o reconhecimento da ONU há algum tempo. Em 2003 foi publicada a Resolução 58/5, intitulada "Esporte como um meio para promover educação, saúde, desenvolvimento e paz".

Em 2005, a Resolução A/60/L.1, seguia essa mesma linha e reconhecia o esporte como promotor de paz e desenvolvimento. Diz a resolução que:

7. Acreditamos que hoje, mais do que nunca, vivemos num mundo global e interdependente. Nenhum Estado pode existir numa situação de total isolamento. Reconhecemos que a segurança coletiva depende de uma cooperação eficaz na luta contra ameaças transnacionais, em conformidade com o direito internacional."

Os chefes de Estado, através da ONU, reafirmam seu compromisso na construção e manutenção da paz e do respeito aos Direitos Humanos.

Ou seja, o principal órgão mundial de política internacional reconhece a importância do esporte como meio eficaz na busca não somente da consecução dos "Objetivos do Milênio", mas reforçam o esporte como instrumento da valorização da cultura de paz e a observância dos Direitos Humanos.

Dessa forma, a Resolução da ONU traz o esporte como uma das mais valorizadas medidas a serem promovidas pelos países membros das Nações Unidas:

145. Salientamos que o desporto pode ajudar a promover a paz e o desenvolvimento e contribuir para um clima de tolerância e compreensão, e incentivamos o debate de propostas a utilização do termo "desporto" em vez de "esporte", o que sobressai nesse ponto 145 da norma da ONU é (1) a importância do esporte na promoção da paz e do desenvolvimento e (2) sua relevância na promoção dos direitos humanos, por meio da construção de um clima de tolerância e compreensão.

Ou seja, não existe esporte longe dos Direitos Humanos.

Papel do esporte no Afeganistão

O pedido de socorro de mulheres - e das mulheres do esporte - no Afeganistão ecoa pelo mundo. Atletas do futebol já pediram ajuda à FIFA, que inclusive participou de uma ação que retirou centenas de jogadoras do país. Em outras modalidades, atletas têm contato com um auxílio do Comitê Olímpico Internacional.

Claro que a religião e a soberania precisam ser sempre defendidas. Agora, elas jamais podem ser usadas como pretexto para uma política de violação a direitos humanos e agressão à igualdade. Nessa hora, todos precisam fazer a sua parte.

É fundamental que a ONU, coletivos globais de direitos humanos e o próprio movimento esportivo exerçam mecanismos de pressão internacional dando atenção especial a vigência, eficiência e vinculação dos direitos da pessoa humana não somente na proteção de Direitos Humanos, como também de Direitos Fundamentais.

Banir o país de competições internacionais é um caminho já tomado em outras situações como contra a África do Sul à época do regime segregacionista do Apartheid.

Ser diferente nem sempre é uma escolha, é uma necessidade. E ela precisa ser protegida. Ajudar mulheres e minorias para que o regime do Talibã respeite a liberdade e o simples direito de escolha - como praticar e viver do esporte - é dever de todos nós.

E quando dirigentes esquecem de fazer a parte deles - e esquecem de banir de seus quadros entidades esportivas de países que violam direitos humanos -, é a pressão organizada de atletas, patrocinadores, opinião pública e coletivos globais que precisa fazer com que eles se lembrem.

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