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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Começou a Copinha: fábrica de talentos não pode ser fábrica de ilusões

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

04/01/2022 04h00

Andrei Kampff

Começou a Copinha. Uma "fábrica de talentos", mas que não pode ser também uma "fábrica de ilusão" sobre a realidade do futebol. Vencer no esporte é para poucos, já que os dados mostram que a imensa maioria ficará no meio do caminho. Por isso, formação tem que ter foco na educação, com o manda a lei.

Como destaca Euler Victor, especialista em gestão no esporte, "a realidade é que são mais de 3 mil atletas, desses, menos de 5% vão jogar profissionalmente em grandes equipes e 96% vão receber menos de R$5 mil durante a carreira. O foco tem que ser formar o homem e depois o atleta".

Portanto, esqueçam o mundo da fantasia que você consome diariamente pelas produtoras de conteúdo esportivo. A realidade do futebol não é a de Neymar, Gabigol, Messi e parceria.

Claro que a Copinha pode ser um caminho para um sonho improvável, mas possível. Mas depois de passar pela barreira do profissionalismo, um segundo grande desafio se apresenta: fazer com que o futebol seja um trampolim social.

Realidade é de dificuldade

A realidade é que o jogador de futebol no Brasil tem o mesmo perfil da maioria dos trabalhadores. Ele é pobre, trabalha muito, ganha pouco, e enfrenta dificuldades diariamente.

A média de salário de quem vive da bola é muito parecida com a do trabalhador brasileiro. 82% deles ganham um salário mínimo. 13% entre R$ 1.000,00 e R$ 5.000,00, e apenas 5% mais de R$ 5.000,00 reais por mês (levantamento de 2019 da Pluri Consultoria).

Para complicar, tem algo pouco lembrado, inclusive por aqueles que deveriam se preocupar com o atleta: diferentemente da maioria das pessoas que trabalham em outras áreas, a carreira no esporte é mais curta, e o trabalho sazonal é a regra. Portanto, a aposentadoria é algo distante até do horizonte.

O trabalhador da bola joga 10, 15 anos, desse tempo consegue contribuir para o INSS em 3, 4 anos no máximo. Ele para de jogar, e não tem absolutamente nada, nem o consolo da aposentadoria num horizonte possível.

Aos 30, 35, 40 anos, ele precisa começar do nada.

Por isso sempre repito nas conversas que tenho: jogador de futebol é a pior profissão que existe no Brasil.

E não dá para esquecer o óbvio: jogador é um trabalhador do esporte. A própria lei reconhece o óbvio, e obriga que o atleta tenha com o clube um Contrato Especial de Trabalho Desportivo.

Caminho necessário

Por isso, além de investir no talento (um negócio legítimo dos clubes formadores), é fundamental formar o cidadão, investindo também na educação dos jovens. Aliás, essa é uma obrigação legal dos clubes no Brasil.

A Constituição, no artigo 227, prevê, que é "dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o 'direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer....., além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão'.

A Lei Pelé, no artigo 29, determina que os clubes têm de garantir assistência educacional, médica e psicológica aos atletas das categorias de base.

Alguns clubes com Certificado de Clube Formador da CBF têm feito esse trabalho, mas a imensa maioria, não. E pior, não se tem controle sobre isso.

Entidades esportivas precisam agir

As entidades esportivas, como clubes e federações, precisam agir. O discurso de que a responsabilidade de combater esse tipo de crime é do Estado me parece mais um dos exemplos da falta de responsabilidade social de alguns de nossos dirigentes.

O esporte de formação pode até ser um negócio, mas ele não pode deixar de assumir compromissos necessários quando se lida com crianças e adolescentes.

O princípio da autonomia esportiva não pode jamais ser usado como escudo para se eximir de ações objetivas. Existem projetos importantes no Congresso que precisam ser levados adiante.

Eles tratam de questões fundamentais, como registro obrigatório de clubes e escolinhas em conselhos tutelares e exigência dos formadores de certidão negativa de antecedentes criminais daqueles profissionais que irão trabalhar com as crianças e adolescentes.

A CBF expede o "certificado de clube formador", o que já é um avanço. Mas dá para caminhar mais. Ela, com treinamentos e fiscalização, pode criar uma política eficiente sobre a responsabilidade de todos na formação do futuro do Brasil. Propondo debates, promovendo treinamentos e pedindo que seus filiados levantem essa bandeira.

Proteger as próximas gerações é proteger o futuro do país. E essa responsabilidade é do esporte e de todos nós. Podemos começar acabando com essa "fábrica de ilusões" sobre o futebol.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL