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Lei em Campo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cruzeiro, Botafogo e quem mais quiser: não acredite em mágica no futebol

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

29/12/2021 04h00

Andrei Kampff

Ronaldo já deixou bem claro nos primeiros dias de Cruzeiro quem tem a caneta no futebol. Para o bem e para o mal, assumiu a responsabilidade que precisa ter como gestor de uma empresa. E o primeiro recado é esse: vai trabalhar de acordo com que o cofre permite. E não adianta gritar agora! O Cruzeiro tem um dono, como todos aqueles clubes no Brasil e no mundo que se tornaram empresa.

Antes de continuar: curioso é que já tem gente achando um absurdo o clube (empresa) trabalhar de acordo com o orçamento que tem. Sim, tem. E não são poucos. Futebol não é para os fracos.

Por isso, trago aqui o recado do meu amigo Cesar Grafietti, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte, "o futebol vive um período peculiar, que mescla euforia, oportunidade, desespero e oportunismo. No lugar de pragmatismo e ações organizadas, é sempre mais fácil partir para soluções mágicas, que resolvem o problema hoje, mas deixam buracos que durarão uma eternidade"

Já escrevi algumas (na verdade, várias) vezes que quando surge esse assunto é sempre fundamental lembrar o óbvio: a transformação de associação para empresa não é pó de pir-lim-pim-pim! Independentemente de natureza jurídica, a principal mudança tem que ser de gestão, apostando no profissionalismo, responsabilidade, governança e integridade.

E isso pode acontecer via associação (apesar dos freios políticos) ou através de um clube que se transforma em empresa.

Apesar de clube-empresa não ser uma novidade no Brasil (olha o Red Bull), o negócio envolvendo Ronaldo, Cruzeiro e XP é inovador, pois foi a primeira aquisição de grande porte ocorrida após a aprovação da Lei das SAF.

A empresa terá seis anos para pagar 60% da sua dívida. Se conseguir, terá mais quatro anos para pagar o restante. O débito acumulado será equacionado com o recebimento de 20% da receita mensal da SAF e 50% do lucro que a mesma tiver no período.

Ronaldo comprou 90% das ações da SAF criada pelo Cruzeiro. O investimento realizado pelo ex-atacante será de cerca de R$ 400 milhões.

Agora, um detalhe que fez toda a diferença.

O anúncio da compra só aconteceu depois de uma mudança definida em Assembleia Geral (como manda o Estatuto). Ao invés de um limite de 49% como era a ideia inicial, os investidores poderiam comprar até 90% da SAF.

O Botafogo segue o mesmo caminho, mas com a compra e 90% das ações da SAF criada pelo clube por um grupo internacional.

Ou seja, mais um recado está dado: nenhum investidor quer colocar dinheiro em um negócio que não vai bem se ele não tiver o poder da caneta.

Nem poderia ser diferente. Como colocar dinheiro em um negócio que vai mal e deixaria por lá os mesmos gestores? Ele coloca dinheiro, compra um projeto e vai colocar suas ideias em prática.

A transformação em SAF pode trazer vantagens, como investidores que coloquem dinheiro para captação de talentos e para o saneamento financeiro. Outra, a repactuação de dívidas, como a cível e trabalhista, que já estão parceladas com o comprometimento de 20% das receitas, previstas pela Lei.

E, mais. O mercado entendendo que o trabalho está sendo bem-feito, existe a possibilidade de repactuação de dívidas com deságio, o que diminuirá consideravelmente o passivo das entidades esportivas.

Agora, importante. Em casos em que o trabalho for mal conduzido, o clube será cobrado de maneira mais rigorosa. O tratamento dado será o mesmo das outras atividades econômicas, portanto, o clube estará sujeito aos efeitos da falência. Clube-empresa não tem a mesmo lastro que clube-associativo.

Ou seja, um clube-empresa pode "quebrar" e acabar.

Por isso, tire da cabeça a ideia de que com a migração para empresa os "seus problemas acabaram", tal qual o slogan da organização Tabajara do Casseta e Planeta.

Independentemente da natureza jurídica, seja empresa ou associação, a principal mudança no futebol tem que ser de gestão, que precisa ser profissional, séria e eficiente. Portanto, torcedor, não acredite em mágica, mas cobre sempre trabalho sério e responsável.

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