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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Briga entre técnico e médico do Caxias pode parar na Justiça Desportiva

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

24/09/2021 15h58

Por Gabriel Coccetrone

O ambiente interno do Caxias ferveu nos últimos meses, com as informações se tornando públicas apenas nas últimas semanas. Nesta quinta-feira (23), o médico do clube, Rafael Lessa, decidiu pedir demissão do cargo e emitiu uma nota à imprensa na qual diz ter sido impedido de trabalhar nos jogos depois de cobrar o técnico da equipe, Rafael Jacques, sobre a vacinação contra a Covid-19.

Além disso, o médico também cita no comunicado uma possível violação dos protocolos sanitários por parte do treinar, ao retornar do período de isolamento social, após contrair a Covid-19, antes do período determinado. Por conta disso, além da crise interna, o Caxias também poderá ter problemas na Justiça Desportiva.

"Acredito que seja caso de punição se for comprovado de fato a irregularidade. Trata-se de situação análoga à do Andreas Pereira, do Flamengo. Quem não cumpre os protocolos sanitários, não cumpre os requisitos de elegibilidade para participar da partida e sua presença é irregular. Portanto, a atuação do técnico do Caxias pode levar o clube à perda de pontos", avalia Gustavo Lopes, advogado especialista em direito desportivo e colunista do Lei em Campo.

A advogada Fernanda Soares explica que só pode haver punição se houver, de fato, um desrespeito aos protocolos sanitários.

"Se há a exigência da vacina no protocolo, pode haver punição. Mas se o protocolo se limita a exigir testes com certa frequência e o isolamento daqueles que apresentarem resultado positivo, não vejo fundamento para uma punição pela falta de imunização", explica a especialista em direito desportivo e colunista do Lei em Campo.

Gustavo Lopes ressalta que para o caso ir para a Justiça Desportiva, é preciso que a Procuradoria faça uma denúncia ou então que algum clube entre com Notícia de Infração.

No comunicado à imprensa, o médico diz que a proibição aos jogos foi uma solicitação do treinador e do dirigente do clube Ademir Bertoglio, que acabou sendo acatada pelo presidente do clube, Paulo César Santos. O Caixas rebateu as informações de Rafael e disse que o afastamento se deu por conta de uma publicação do médico nas redes sociais cobrando Jacques pela imunização contra o novo coronavírus.

"Fui comunicado pelo presidente e pelo vice-presidente do Departamento Médico da S.E.R. Caxias, que foi exigido pelo gerente de futebol e pelo técnico, Rafael Jacques, que eu não realizasse mais jogos pelo clube. Na verdade, nas palavras do Paulo César, a quem nutro respeito, carinho e amizade, foi dito: "Eles me chamaram no quarto do hotel, viram sua postagem com a cobrança e disseram que não querem mais que você faça os jogos", disse o médico.

Em agosto deste ano, Rafael Jacques, de 46 anos, contraiu a Covid-19 e precisou ficar cinco dias internado na capital gaúcha. Foi nessa época que veio a público que o técnico não havia se imunizado. Além disso, outro ponto de conflito entre os dois ocorreu após Lessa pedir pela extensão do tempo de quarentena de Jacques.

"A determinação, com base no documento e no perfil de sua internação, de que o treinador deveria ampliar o isolamento até completar 20 dias foi recebida como uma afronta ou um desejo de prejudicar a equipe", revelou o médico.

"Eu, Rafael Lessa, não tenho qualquer dúvida sobre a efetividade das vacinas para a proteção pessoal e da sociedade. Também posso afirmar que o departamento com quem trabalho possui o mesmo pensamento, independente da nossa ideologia política e partidária", completou.

Dias atrás, o treinador voltou a ser questionado sobre o tema e disse ao repórter Pedro Petruci, da Rádio Gaúcha Serra e jornal Pioneiro, que tomou a vacina contra a Covid-19.

"Não há consenso em relação à possibilidade de exigência de vacina, há quem entenda que é possível, já que o próprio STF já se posicionou nesse sentido. Além disso, seria dever do empregador garantir um ambiente de trabalho seguro já que o trabalhador não vacinado, de acordo com o entendimento científico majoritário, pode colocar os demais em risco. Por outro lado, há também quem entenda que não seria possível exigir a vacinação já que ninguém é obrigado a fazer algo que não seja definido por lei. Obrigar a vacinação seria ferir o direito de escolha das pessoas", completa Fernanda Soares.

Leia a íntegra da nota do Caxias:

"1º) O Departamento Médico da S.E.R. Caxias é comandado pelo Vice-Presidente Médico Dr. Aloir Neri de Oliveira;

2º) A não continuidade do Dr. Rafael Lessa Costa é uma decisão pessoal dele;

3º) A gestão do Departamento Médico da S.E.R. Caxias, comandada pelo Dr. Aloir Oliveira, tem ao longo de anos prestado inestimáveis serviços à S.E.R. Caxias, portanto, tem todo o respaldo da Direção na condução do Departamento Médico, seja em decisões clínicas, seja em decisões administrativas.

4º)As decisões tomadas pela S.E.R. Caxias sempre são priorizando os maiores e mais sagrados interesses da Instituição, acima de qualquer outro interesse de cunho pessoal, de quem quer que seja"

Confira o comunicado à imprensa do médico:

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL