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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

1936: a história de como o Brasil mandou duas delegações para as Olimpíadas

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

20/07/2021 04h00

Andrei Kampff

Nesse momento de cisão do futebol, com a CBF passando por uma série crise institucional, vale lembrar do risco que isso representa. Foi a partir de uma ruptura do movimento esportivo na década de 30 que o Governo Vargas se apropriou do esporte, isso porque anos antes o Brasil chegava às Olimpíadas de Berlim com duas delegações rivais.

Isso mesmo, na Olimpíada de Berlim, em 1936, o Brasil mandou duas delegações, e o fato, como não poderia ser diferente, repercutiu muito mal externamente e internamente.

Isso aconteceu em função de uma disputa que ficou conhecida como "dissidio esportivo" ou "cisão esportiva".

Nos anos de 1930, Arnaldo Guinle, (dirigente do Flumninense) e Rivadávia Meyer (dirigente do Botafogo) travaram uma disputa pela organização do futebol. De um lado, a defesa do futebol entre profissionalistas (FBF - Guinle); do outro, os amadoristas (CBD -Rivadávia). Essa desorganização interna do futebol acabou gerando repercussão no próprio Movimento Olímpico Brasileiro.

A história é contada no ótimo livro Constituição e Esporte, de Wladimyr Camargos. Aqui, um trecho importante desse momento:

"Guinle passa a ter o controle do campo que reúne os mais representativos setores do esporte, porém sem poder se vincular ao sistema FIFA, e Rivadávia determina os rumos da CBD, filiada à FIFA, mas pouco representativa. O problema de legitimidade interna da CBD passa a ser resolvido com sua proximidade com Luiz Aranha e a liderança do governo Vargas."

Assim, o caminho para a desorganização e o vexame histórico estava desenhado.

A confusão causada se apresenta ao mundo nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, quando duas delegações distintas de atletas e entidades brasileiros chegam à Alemanha.

Em 1935, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) é reorganizado pelo grupo de Guinle e manda uma delegação. Do mesmo modo, a CBD de Rivadávia envia outra equipe.

Como lembra Wladimyr, "os jogos de Hitler assistiram a um verdadeiro pandemônio por parte dos brasileiros, e o representante oficial do governo Vargas no evento era nada mais nada menos que Lourival Fontes, chefe do Departamento Nacional de Propaganda (DNP), que viria a se tornar o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)"

Um observação sempre necessária: Lourival era um notório fascista

Isso teria sido a gota d'água para a decisão já estudada por Getúlio Vargas de intervir no esporte.

O esporte é extremamente popular, e o total distanciamento do Estado é quase inimaginável. Getúlio Vargas foi o primeiro governante brasileiro a entender esse papel do esporte - e tratou de tutelá-lo

Um movimento natural à época, até pela natureza do Estado Novo, que tinha grande preocupação social, mas também era populista, autoritário e extremamente nacionalista.

Em 1941, Getúlio edita o Decreto Lei 3199, uma espécie de primeira Lei Geral do Esporte no Brasil, tutelando o esporte. Ou seja, o governo se apropriando do esporte como instrumento político devidamente legalizado.

Mas o Brasil já tinha pagado o mico de 1936.

Cuidar do esporte internamente é desafio permanente do movimento esportivo. O Brasil chega em Tóquio para a cerimônia de abertura na próxima sexta (23) com uma delegação olímpica e coesa; mas o futebol passa por um racha histórico, com consequências ainda imprevisíveis, mas que a história contará.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL