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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Clubes e federações precisam proteger crianças de abusos sexuais

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

15/06/2021 04h00

Andrei Kampff

O abuso sexual contra menores é uma realidade no esporte e as entidades esportivas também têm responsabilidade nesses crimes, por isso precisam ajudar a combater o problema. Essa é a conclusão de uma investigação independente na Inglaterra, que apontou falhas de clubes e da própria federação em um dos maiores escândalos da história do futebol inglês.

A investigação conduzida pela empresa Clive Sheldon GQ responsabilizou a Federação Inglesa de Futebol (FA) por deixar que crianças jogassem futebol em clubes ingleses ao longo dos anos estando expostas a um grande risco de sofrerem abusos sexuais. Um longo trabalho de análise independente gerou um relatório que aponta para inúmeros abusos no futebol inglês entre 1970 e 2005.

O relatório de 710 páginas diz que após as condenações de abusadores sexuais de crianças desde o verão de 1995 até maio de 2000, a FA "poderia e deveria ter feito mais para manter as crianças seguras". E vai além, afirma que naquela época houve um atraso significativo da FA em implementar medidas de proteção infantil suficientes no futebol. Ou seja, ela "não fez o suficiente" para manter as crianças seguras e "a proteção da criança não foi considerada uma prioridade urgente". E, mais, o relatório diz que mesmo depois de maio de 2000, quando a FA lançou uma política e um programa abrangente de proteção à criança, "erros ainda eram cometidos".

"A FA agiu muito lentamente para introduzir medidas que garantissem a segurança das crianças. Houve falhas institucionais para as quais não há desculpas ", descreve o relatório.

Além da federação, clubes também erraram na proteção às crianças. Segundo o relatório, os funcionários e dirigentes dos clubes geralmente desconheciam as questões de proteção à criança e não foram treinados em questões de proteção infantil. Além disso, eles não identificaram ou responderam a sinais de abuso potencial; e se eles estavam cientes dos sinais, eles não os examinaram com curiosidade ou suspeita.

O relatório disse que a alta administração dos clubes envolvidos estava cientes das denúncias e rumores, e não estabeleceram padrões de comportamento compatíveis com a gravidade dos fatos. Por isso, também são responsáveis.

Como isso começou?

Em 16 de novembro de 2016, o ex-jogador de futebol Andy Woodward venceu o silêncio perturbador e renunciou ao seu direito ao anonimato para falar sobre como foi abusado sexualmente por Barry Bennell no Crewe Alexandra dos 11 aos 15 anos.

Depois dessa denúncia, várias outras pessoas entraram em contato com a polícia nos dias seguintes, antes que o ex-jogador da seleção inglesa e do Tottenham, Paul Stewart, dissesse que foi abusado quando criança por um técnico, Frank Roper. Gary Johnson, o ex-jogador do Chelsea, também denunciou abusos que sofreu na base.

Com as denúncias, a instituição de caridade infantil NSPCC criou uma linha direta com a FA, dedicada a jogadores de futebol que sofreram abuso sexual - mais de 860 ligações foram recebidas só na primeira semana!

Após o início das investigações envolvendo várias forças policiais, a FA anunciou que faria uma investigação independente sobre abuso sexual infantil não recente, realizada pela Sheldon.

A resposta dos clubes e da Federação

Em um comunicado, o presidente-executivo da FA, Mark Bullingham, ofereceu "um sincero pedido de desculpas" do órgão regulador do futebol inglês a todos os sobreviventes e acrescentou que "não há desculpa" para suas falhas.

Entre os clubes, o Newcastle expressou suas "sinceras desculpas e simpatia a todos os indivíduos afetados por abusos históricos no futebol e elogiou a bravura daqueles que se apresentaram e compartilharam suas histórias".

O Southampton admitiu "falhas consideráveis"e disse estar "profundamente arrependido" pelos jovens jogadores terem sido abusados dentro do clube.

Em março de 2019, o Manchester City estabeleceu um esquema de compensação milionários para vítimas de abusos sexuais infantis históricos cometidos por ex-técnicos. Aston Villa e Leicester também indenizaram 5 vítimas de abusos em 2020.

Quais são as recomendações de revisão?

Entre as recomendações da empresa que fez o relatório está a introdução do treinamento de proteção em vários níveis do jogo, incluindo todos os jogadores e jovens, bem como a diretoria da FA e a equipe de gerenciamento sênior.

Ela também recomenda que haja oficiais de proteção de menores empregados por todos os clubes da Premier League e da English Football League (EFL).

A Premier League disse que aceita as "descobertas e percepções que ele fornece" do relatório, e acrescentou que as recomendações "irão fortalecer ainda mais os arranjos de salvaguarda durante o jogo", já que "não há espaço para complacência".

The Offside Trust, a organização criada por sobreviventes de abuso sexual infantil no esporte, disse que as recomendações eram "cegamente óbvias para qualquer pessoa" depois que o escândalo estourou em 2016.

E os infratores?

Alguns dos infratores já responderam a processo criminal e foram condenados.

Barry Bennell - o ex- técnico do Crewe Alexandra e do Manchester City - está cumprindo uma sentença de 34 anos de prisão depois de ser condenado por abuso sexual infantil cinco vezes. Ele foi condenado por abuso sexual contra 22 meninos no total, embora se acredite que mais de 100 vítimas se manifestaram para dizer que foram abusadas por Bennell.

Já George Ormond - o ex-técnico do Newcastle - foi preso em 2002 por seis anos depois de ser considerado culpado de abusar de sete meninos com menos de 16 anos entre 1975 e 1999. Posteriormente, outras vítimas se apresentaram e ele foi condenado a mais 20 anos de prisão por 36 acusações de abuso contra 18 crianças entre 1973 e 1998.

Problema na Inglaterra e no Brasil

A impunidade ainda é uma realidade no Brasil quando o assunto é crime sexual contra menores. A cada uma hora, 3 crianças são vítimas de abuso no país e apenas cerca de 10% dos casos são denunciados.

Esse é um problema que acontece em casa, nas ruas, nas escolas, e dentro das entidades esportivas. Por isso, a responsabilidade é de todos.

As entidades esportivas também precisam proteger os menores. Não só porque o esporte tem o compromisso legal de ajudar na formação das crianças, mas também porque vários crimes de abusos contra menores acontecem dentro das entidades esportivas. Temos casos na natação, na ginástica, no futebol, recentemente na canoagem e por aí vai.

A realidade é triste, e condenável: a maioria das entidades esportivas que trabalham com crianças e adolescentes no Brasil não tem um programa específico de atendimento e aconselhamento para atletas de base, que ajude na conscientização, denúncia e combate a crimes de assédio e violência sexual.

Mesmo sabendo que a prevenção é sempre o melhor caminho, existem dispositivos legais para se punir esse tipo de crime. A Lei Joanna Maranhão e a Lei Pelé avançaram nessa questão.

O discurso de que a responsabilidade de combater esse tipo de crime é do Estado me parece mais um dos exemplos da falta de responsabilidade social de alguns de nossos dirigentes. O esporte de formação pode até ser um negócio, mas ele não pode deixar de assumir compromissos necessários quando se lida com crianças e adolescentes.

Existem projetos importantes no Congresso que precisam ser levados adiante. Eles tratam de questões fundamentais, como registro obrigatório de clubes e escolinhas em conselhos tutelares e exigência dos formadores de certidão negativa de antecedentes criminais daqueles profissionais que irão trabalhar com as crianças e adolescentes.

A CBF expede o "certificado de clube formador", o que já é um avanço. Mas dá para caminhar mais. Ela, com treinamentos e fiscalização, pode criar uma política de combate ao assédio e efetiva assistência ao menor. Propondo debates, criando canais de denúncia, promovendo treinamentos e pedindo que seus filiados levantem essa bandeira.

O esporte é exemplo. Ele jamais pode abrir mão da proteção de crianças e jovens.

O relatório Sheldon não é só para inglês ver.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL