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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacinação da Conmebol ataca equilíbrio esportivo, mas protege atletas

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

10/05/2021 07h49

Por Gabriel Coccetrone

Na última quinta-feira (6), a Conmebol deu início a sua campanha de vacinação contra a Covid-19 em clubes participantes de suas competições. O Atlético-GO se tornou a primeira equipe brasileira a receber a imunização da confederação, juntamente com as associações de futebol do Paraguai e do Uruguai. A ação gerou discussão e dividiu opiniões, uma vez que o equilíbrio competitivo foi um dos argumentos utilizados por quem ficou de fora da iniciativa. Para falar sobre isso, o Lei em Campo ouviu especialistas.

"Ronald Dworkin nos ensina que o conflito entre princípios deve ser solucionado de acordo com as particularidades de cada caso concreto, até porque a aplicação de um princípio pode resultar na exclusão momentânea do outro. No particular à vacinação de alguns times brasileiros, participantes das competições continentais da Conmebol, em detrimento de outros limitados às competições nacionais ou estaduais, teríamos, em teses dois princípios a serem sopesados: saúde e equilíbrio competitivo. E a saúde deve prevalecer", afirma Victor Targino, advogado especializado em direito desportivo.

"Eu não entendo que, nesse caso, seja possível apontar o equilíbrio competitivo como justificativa para a não vacinação dos atletas. A saúde de todos aqueles que fazem o futebol deve ser preservada sempre que possível. Idealmente todos os clubes seriam vacinados no mesmo período, mas temos que entender que não vivemos no mundo ideal. Sendo assim, os protocolos devem continuar sendo seguidos, inclusive por aqueles clubes que forem vacinados, mas não vejo como razoável a tentativa de impedir que clubes que tenham acesso à vacina protejam seus atletas", avalia Vinicius Loureiro, advogado especialista em direito desportivo e colunista do Lei em Campo.

"Não é porque os times que não tiveram seus atletas vacinados estarão sujeitos a protocolos rígidos, ao risco de contaminação e à possibilidade de ter atletas afastados por COVID-19 em meio à competição, que devemos obstar ou desestimular a vacinação de equipes que tiveram o privilégio de ter acesso à vacina oferecida pela Conmebol. Muito ao contrário, a vida dos atletas e empregados dos clubes deve ser prestigiada, ainda que isso possa acarretar temporária diferenciação nos protocolos e na competitividade entre as equipes", completa Targino.

As vacinas, cerca de 50 mil, foram doadas à Conmebol pelo laboratório chinês Sinovac e disponibilizadas aos clubes e confederações dos 10 países (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) que participam das competições da entidade. A confederação afirmou que o foco da vacinação serão os principais times de futebol da América do Sul que disputam os torneios masculino e feminino, além de árbitros, comissão técnica, e demais profissionais envolvidos nos campeonatos, visando a realização da Copa América, prevista para iniciar em 13 de junho.

No entanto, as equipes brasileiras que desejarem vacinar seus profissionais terão que fazer isso fora do Brasil, uma vez que os imunizantes doados que entrarem ao país serão automaticamente repassados ao Sistema Único de Saúde (SUS), conforme determina a atual legislação para utilização no Programa Nacional de Imunização (PNI). O Lei em Campo explicou isso.

Como não há impedimento para que os atletas sejam vacinados fora do Brasil, o Atlético-GO aproveitou a ida até o Paraguai, país onde fica localizada a sede da Conmebol, para enfrentar o Libertad, pela Sul-Americana, e foi até o prédio da entidade com sua delegação antes de sua viagem de volta.

O presidente do Dragão, Adson Batista, usou suas redes sociais para postar um vídeo registrando o momento. De acordo com ele, 44 integrantes da delegação foram imunizados. "Agradeço imensamente à Conmebol por terem dado todo o apoio ao clube para vacinação de todos. Seremos eternamente gratos!".

A iniciativa da Conmebol dividiu opiniões. Outros clubes brasileiros já se manifestaram publicamente contrários a campanha de imunização da entidade, são eles: Fluminense, Grêmio e Santos. O principal argumento é a questão ética, uma vez que países da América do Sul sofrem com o ritmo lento de vacinação.

Nos Estados Unidos, um dos países mais avançados na imunização de sua população, atletas da NBA, NFL e MLB já receberam ao menos uma dose do imunizante, resultando em um 'afrouxamento' do protocolo contra a Covid-19 sem que o esporte seja interrompido.

"Há de se mencionar, por exemplo, que nos EUA alguns estados se encontram em fase de vacinação mais adiantada do que outros; os times da MLB que têm mais de 85% dos atletas e staff vacinados já estão dispensados do uso de máscaras e seguindo protocolo mais flexível, então a competição segue em regime 'híbrido'. Algo similar ocorrerá por aqui enquanto a vacinação caminha, sem que se tenha de paralisar toda atividade desportiva", finaliza Targino.

A Copa América será disputada entre os dias 13 de junho e 10 de julho na Argentina e Colômbia. A estreia da seleção brasileira será contra a Venezuela, dia 14, no Estádio Atanasio Girardot.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL