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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ídolo do esporte chinês ganha mais uma chance de participar das Olimpíadas

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

13/04/2021 04h00

Andrei Kampff

Um dos maiores nomes da história do esporte chinês vive dias de angustiante espera. O nadador Sun Yang, cuja suspensão de oito anos por doping foi anulada em dezembro pela justiça suíça, terá um nova audiência no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) entre os dias 24 a 28 de maio.

Por causa da pandemia, o TAS informou que a audiência será realizada por videoconferência.

Sun Yang é o maior nome da natação chinesa. Em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, ele se tornou o primeiro nadador chinês a ganhar uma medalha de ouro olímpica. Ele foi também o primeiro nadador na história a ganhar medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos e no Campeonato Mundial em todas as distâncias de estilo livre entre 200 e 1500 metros.

Três vezes medalhista de ouro olímpico e onze vezes campeão mundial, ele é o nadador chinês mais condecorado da história.

Mas em fevereiro de 2020, o ídolo chinês sofreu um grande revés.

O TAS suspendeu o nadador por oito anos depois dele ter destruído com golpes de martelo uma amostra obtida em um teste antidoping surpresa, em setembro de 2018.

No entanto, o Tribunal Federal Suíço, última instância dentro da cadeia jurídica do esporte, anulou a suspensão em dezembro passado por entender ter havido "parcialidade de um árbitro do TAS".

O Tribunal determinou um novo julgamento na corte arbitral.

Entenda o caso

Após o episódio da destruição do teste antidoping, o caso foi parar no Painel de Doping da FINA (Federação Internacional de Natação), que concluiu que o Padrão Internacional para Testes e Investigações (ISTI), protocolo adotado pela Agência Mundial Antidopagem (WADA) para a condução dos controles antidoping, não foi seguido corretamente e que a coleta teria que ser invalidada.

Portanto, o Painel entendeu que o atleta não havia cometido nenhuma violação a regra. Ele invalidou a coleta de amostras e determinou que o atleta não havia cometido violação de nenhuma regra antidopagem.

A Agência Mundial Antidopagem (WADA) recorreu dessa decisão ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS). A Agência alegou que Sun se recusou a participar da coleta de amostras, uma obrigação do atleta. Ela pedia uma suspensão de 2 a 8 anos.

O TAS formou um painel com 3 árbitros. Um deles, o italiano Franco Frattini. Cito aqui porque ele vai se tornar decisivo no andamento do caso.

Sun Yang alegou que o protocolo de coleta não estava em conformidade com as regras da WADA.

Esse painel considerou que o nadador não tinha uma justificativa convincente para destruir as amostras e que ele, ao quebrar os frascos, adulterou o processo antidoping, violando o artigo 2.5 da FINA.

O TAS decidiu, de acordo com o artigo 10.7.1 da Federação Internacional de Natação , suspender o atleta por 8 anos das competições.

O Atleta recorreu ao Tribunal Federal Suiço, uma espécie de STF da cadeia jurídica do esporte.

A principal alegação da defesa é que o chefe do painel que julga os casos da Corte Arbitral do Esporte teria feito comentários anti-chineses em suas redes sociais.

Os advogados da Sun apelaram depois de coletar o que eles disseram ser comentários públicos de Frattini que incluíam sentimentos xenófobos. Reportagens mostrando prints de comentários do árbitro italiano foram anexados ao processo.

O Tribunal Suíço concordou com os argumentos, entendendo que Fratinni não tinha a imparcialidade necessária para analisar o caso, e determinou que o TAS montasse um novo painel.

Importante entender que a Justiça Federal não julgou o mérito da causa, apenas devolveu o processo ao TAS.

Doping é tratado com rigor no esporte.

A suspensão de oito anos contra Sun Yang foi uma das decisões mais espetaculares do TAS por sua dureza e pela importância do atleta, que é uma grande estrela na China.

Ë fácil de entender por que doping é tratado com rigor no esporte. Um dos motivos é que ele ataca um dos princípios mais caros ao esporte, o da paridade de armas. Um dos competidores busca de maneira ilegal vantagem dobre o adversário.

A trapaça fere também o espírito do "jogo limpo".

Pierre de Coubertin, o "pai" dos jogos olímpicos modernos, escreveu em suas Memórias olímpicas que o olimpismo é uma "escola de nobreza e de pureza moral, bem como de resistência e energia física - mas só se (?) a honestidade e a abnegação do esportista forem desenvolvidas de forma tão acentuada quanto a força dos músculos"

O Código Mundial Antidoping reforça a ideia do jogo-limpo ao determinar que visa "proteger o direito fundamental dos atletas de participar de atividades esportivas isentas de doping, promover a saúde e garantir assim aos atletas do mundo inteiro a eqüidade e a igualdade no esporte"

No final de maio, o TAS volta a se pronunciar sobre o caso. A decisão pode acabar com o sofrimento desse ídolo chinês e levá-lo as Olimpíadas atrás de mais marcas espetaculares. Ou, pode ser mais um triste caso de um grande personagem do esporte que vê sua carreira interrompida em função do doping.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL