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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Valência dá exemplo no combate ao racismo: mais do que falar,é preciso agir

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

06/04/2021 04h00

Andrei Kampff

Mais do que palavras, atitudes são decisivas no combate ao preconceito, na vida e no futebol. O esporte tem sofrido repetidas agressões, mas tem reagido de maneira diferente. Dessa vez, o exemplo vem da Espanha.

O árbitro espanhol David Medié Jimenez relatou na súmula do jogo entre Valência e Cádiz, no domingo 4 de abril, uma ofensa racial.

De acordo com o documento, o zagueiro Juan Cala, do Cádiz, teria chamado o também defensor Mouctar Diakhaby, do Valência, de "negro de m?".

Poderia ser mais um triste caso de injúria racial no esporte, mas esse foi diferente. O jogo ficou marcado pelo abandono de campo do jogador francês, que teve a solidariedade de seus colegas de time. Eles também abandonaram o campo.

Após 24 minutos, o time voltou a campo, mas sem Diakhaby, que foi substituído. O Valência decidiu voltar por medo de ser punido, mesmo com a orientação da FIFA de não punir clubes que sofrerem atos discriminatórios, além de falar também em suspensão do jogo no caso de episódios dessa natureza.

A atitude dos jogadores repercutiu, com vários atletas e clubes de diferentes partes do mundo (como o Vasco) também se posicionando e combatendo o preconceito.

As pessoas têm dificuldade em enxergar preconceito - lógico que aqui me refiro as pessoas que não são atingidas por ele. Por isso existe uma grande tendência das pessoas de diminuir, contemporizar, colocar na conta da "brincadeira'. Uma lição básica: preconceito existe quando atinge alguém que sofre com um determinado comportamento, que sente - e sofre - com a força de uma postura carregada de preconceito.

No ano passado, duas situações parecidas também chamaram a atenção, mostrando uma nova postura dos atletas no combate ao preconceito.

O jogo entre o Paris Saint Germain e o Istambul pela Champions League foi suspenso devido a um ato racista do quarto árbitro contra o Pierre Webo, membro da comissão técnica da equipe turca. Antes disso, em um jogo numa liga norte americana, o time do San Diego Loyal abandonou o campo em forma de protesto na partida contra o Phoenix Rising, após um jogador adversário proferir comentários homofóbicos ao meio-campista Collin Martin.

Essas posturas contrariam um histórico de passividade do esporte.

O futebol até endureceu a política de combate ao preconceito

Em julho de 2019, a Fifa anunciou um Novo Código Disciplinar, cujo texto dá ênfase ao combate ao racismo. O presidente da entidade, Gianni Infantino, já falou sobre sua insatisfação com o racismo que se apresenta no futebol.

"O racismo se combate com educação, condenando, falando nele. Não se pode ter racismo na sociedade e no futebol. Na Itália, a situação não melhorou, isso é grave. Precisamos identificar os autores e expulsá-los dos estádios. Não devemos ter medo de condenar os racistas, devemos combatê-los até o fim", falou.

Mas o futebol não tem dado o exemplo de um combate efetivo ao problema do racismo. São muitos os casos de racismo em gramados pelo mundo, e poucos os exemplos de punição do esporte.

A história mostra que penas financeiras não têm ajudado a diminuir os crimes de injúria racial. É preciso ser mais rigoroso, e punir o clube também esportivamente.

O Grêmio ainda é o único dos grandes clubes brasileiros que sofreu uma punição mais dura da Justiça Desportiva brasileira no caso do goleiro Aranha. O time foi eliminado da Copa do Brasil de 2014 por conta de manifestações racistas dos torcedores.

Poderia ser uma nova régua para o esporte brasileiro; não foi. O Art 243-G mostrou o caminho.

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) "fez história" ao excluir o Grêmio da Copa do Brasil por injúria racial de grande parte da torcida.

A artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), traz - entre outras possibilidades - as tipificações por ato discriminatório, em função de raça. Elas são as mesmas constantes no artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal, que trata da injúria, sendo as penas diferentes de uma legislação para a outra, por motivos claros.

O § 1º determina que a "infração prevista neste artigo seja praticada simultaneamente por considerável número de pessoas vinculadas a uma mesma entidade de prática desportiva, esta também será punida com a perda do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente, e, na reincidência, com a perda do dobro do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente; caso não haja atribuição de pontos pelo regulamento da competição, a entidade de prática desportiva será excluída da competição, torneio ou equivalente. "

Mas até agora, a punição ao Grêmio, lá em 2014, não funcionou como marco, mas como exceção.

Movimento esportivo tem papel de destaque na defesa de causas sociais

O apoio à diversidade tem sido uma batalha de vários movimentos ao redor do planeta. Influenciadores, artistas e atletas se manifestaram de diversas maneiras sobre a importância do respeito às diferenças e da necessidade de inclusão.

O movimento de combate ao preconceito racial ganhou força depois do assassinato do negro #GeorgeFloyd, e a mobilização que começou nos Estados Unidos e tomou conta do mundo também repercutiu no esporte. Patrocinadores, coletivos internacionais e atletas se posicionaram de maneira rara, combatendo preconceito e cobrando mudanças.

Esse movimento mostrou a força que os atletas têm, e desconhecem ter. Eles fazem parte da cadeia associativa do esporte. E, por isso, precisam ter voz nas discussões, inclusive sobre regras.

O esporte sempre foi um catalisador de transformações sociais pelo mundo. Ele ajudou na luta contra o racismo, contra a discriminação aos mais pobres, até na abertura democrática brasileira durante os anos da ditadura.

No mundo, muitos são os exemplos de atletas que entenderam que sua força vai muito além de uma pista ou quadra ou campo, e que eles podem ser agentes importantes na construção de uma sociedade melhor, menos excludente e mais humana.

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de usar a Lei do Racismo para punir crimes contra a homofobia, com o novo Código Disciplinar da Fifa e o próprio CBJD , a Justica desportiva tem caminhos para punir o absurdo por aqui. Pelo mundo, também existem caminhos.

Mas é sempre necessário entender que mais importante do que punir é conscientizar. E os personagens do esporte têm papel fundamental nesse momento.

O silêncio compactua com o absurdo. O exemplo dos jogadores do Valéncia, e antes do San Diego Loyal e do PSG, são gritos contra o absurdo.

E, dessa vez, o mundo está escutando.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL