PUBLICIDADE
Topo

Lei em Campo

Novo código antidoping quer educar atletas que usam drogas recreativas

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

07/12/2020 04h03

Por Thiago Braga

Uma mudança significativa passa a vigorar no código antidoping da Agência Mundial Antidopagem (WADA, na sigla em inglês) no ano que vem: os atletas que forem pegos sob uso de drogas sociais, ou recreativas, que não lhes dê vantagem esportiva, desde que o consumo seja fora de competições, poderá pegar pena de três meses, com possibilidade de redução para um mês. Para isso, o atleta terá de cumprir um programa de reabilitação. Antes, a suspensão variava de dois a quatro anos sem poder competir.

"A importância é grande no sentido de tentar tratar casos de eventual abuso de uso de substâncias de forma diferenciada. Um avanço, tratar quem é dependente químico de uma forma correta. Não criando uma piora no quadro dele, com uma punição severa considerando o caso como dopagem por si só", pondera Thomaz Mattos de Paiva, advogado especialista em direito esportivo e doping.

Um grupo especializado criado pela Wada será responsável por elaborar, anualmente, uma lista das drogas sociais. Para este primeiro ano, as drogas contempladas são maconha, cocaína, heroína e ecstasy, que são as substâncias onde há mais abuso.

Na esteira do novo código da WADA, ficou estipulado que as instituições ligadas ao controle antidopagem, sejam elas ligadas a governos ou entidades privadas, serão obrigadas a desenvolver programas educacionais para falar sobre o abuso de substâncias recreativas. decisão da WADA vem em equilíbrio como essa questão da educação.

"A ideia é abordar atletas jovens com programas educativos fortes e, ao mesmo tempo, tratar a adição em drogas como ela deve ser abordada, não é só punir. Porque isso não vai fazer a pessoa não usar. Esse tipo de abordagem é positiva porque o esporte tem função social. Temos que aprender a investir em soluções de longo prazo. Tem que ter punições, mas tem também que saber identificar quando o atleta tem uma doença, nesse caso, um vício em drogas. Você pode até banir um atleta do esporte e ele vai continuar usando. Vai perder diversos talentos e vidas", resume Lara Santi, biomédica e especialista em biotecnologia, drogas no esporte pelo COI e oficial de controle de dopagem.

Um dos exemplos mais claros sobre como drogas recreativas atrapalham a carreira esportiva foi o de Diego Armando Maradona. O craque argentino, morto há duas semanas, lidou com o vício em cocaína na maior parte da sua vida.

Diego dizia que experimentou a droga pela primeira vez aos 23 anos, em uma boate em Barcelona, na Espanha, enquanto se recuperava de uma cirurgia para reparar o tornozelo quebrado por um adversário. Já na Itália, enquanto defendeu o Napoli, o camisa 10 viu o uso esporádico se transformar em vício, muito pela proximidade da Camorra, organização criminosa que controlava o tráfico de cocaína na Europa, com o futebol.

Em 1991, após o jogo do Napoli contra o Bari, o exame de urina de Diego apresentou traços de cocaína, o que lhe rendeu uma suspensão de 15 meses longe dos gramados, Confirmando a total ausência de efeito educacional na pena imposta, Maradona foi preso na Argentina por posse de cocaína no mesmo ano.

Para comprovar a inocência do atleta, a defesa poderá usar, por exemplo, alegações, provas testemunhais, prescrição médica (maconha de uso medicinal, por exemplo), internações e tratamentos, dentre outros, para alegar que ele não deve ser punido.

"É importante salientar que se a pessoa utilizar no dia da competição, vai ter uma dificuldade muito grande em seguir essa linha de raciocínio. Porque se usa no dia da competição, você está buscando um benefício. Por mais que haja um vício. Então tem que provar que foi fora de um ambiente de competição, e comprovar que é uma pessoa propensa ao vício. Para que isso não vire um subterfúgio para que atletas utilizem essa regra para burlar o uso de drogas de aumento de performance", explica o advogado Thomaz Mattos de Paiva.

Para Lara Santi, porém, é preciso ir além e olhar outras substâncias que alteram o estado de consciência mental. Entre elas, inclusive as que são permanentemente permitidas.

"Temos muitos atletas com problemas no abuso de álcool, sinalizados no perfil de passaporte biológico alterado, e não tem muito o que fazer porque o álcool é uma substância permitida. Mais grave, porque essas substâncias que eu falei, vão continuar proibidas em competição. O álcool não entrou na lista, mas eu me preocupo porque a gente tem sim o álcool como porta de entrada para outras drogas. Parece um clichê, mas é verdade. O vício como doença existe, pode evoluir para outros caminhos, e um deles é a adição de outras substâncias. O alto rendimento chega a não ser saudável em algumas situações, porque tem pressão psicológica, pressão social, pressão pessoal que o atleta coloca em si, muita coisa está em jogo. Sei que há culturas onde bebe-se mais, mas aí entra o contexto. Uma coisa é beber demais em uma festa, outra coisa é beber demais para aguentar a pressão do dia a dia. A questão é a intenção com qual você bebe, que você usa a cannabis. Está usando por que está em uma festa com os amigos ou por que está sentindo falta de uma válvula de escape por conta da pressão no dia a dia?", finaliza a biomédica especialista em controle antidopagem.


Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo