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Assédio no Esporte: a natação brasileira precisa falar disso

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

22/10/2020 09h04

Por Ivana Negrão

"Abusos na Natação" é uma série documental da CNN que trouxe relatos sobre crimes sexuais e denúncias de assédio cometidos por treinadores renomados nos Estados Unidos, com desdobramentos no Brasil. São décadas de traumas e investigações mal conduzidas que afetam atletas menores de idade com o sonho olímpico.

O tamanho desse escândalo em uma das maiores potências da natação mundial nos obriga a voltar o olhar e observar como o tema é tratado no Brasil.

O país tem quase 25 mil atletas filiados às federações de esportes aquáticos. Mas há apenas uma denúncia de abuso sexual registrada pelo Comitê de Ética da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), criado em 2018.

"Será que o canal oficial chega e dialoga com esses atletas? Eu entendo que a reação seja fora da estrutura, porque muito do que os atletas sofrem são de conhecimento das pessoas que estão a sua volta e nada fazem. Então, tem mais a ver com um lugar de pertencimento", avalia advogada Mônica Sapucaia Machado, especialista em compliance de gênero.

O presidente do Comitê de Ética da CBDA reconhece que o canal de denúncias está "subutilizado". Por isso, trabalha por uma melhor divulgação e estruturação "para que as pessoas façam as denúncias, se abram e se manifestem. Só assim vamos reverter essa situação", ressalta Eduardo Fischer.

Desde o dia 29 de setembro, a entidade criou um e-mail exclusivo para os relatos de assédio ou abuso sexual. Apenas Mariana Brochado, ex-atleta olímpica e vice-presidente do Comitê de Ética tem acesso à caixa de mensagens do endereço assedio@cbda.org.br. O sigilo é garantido.

"Os casos serão tratados com carinho e seriedade. A gente não vai deixar de lado, não vai virar estatística. A gente realmente vai levar adiante, tomar as medidas cabíveis para que realmente veja o que é melhor fazer junto ao denunciante", esclarece Mariana.

O direito à defesa do denunciado também é garantido. E "se existir o indício de desvio de conduta ética do profissional ou do colega, este será enquadrado nas penalidades existentes no Código de Ética que vão desde advertência até banimento do esporte", pondera Eduardo Fischer.

"O que é importante saber é se a vice-presidente do Comitê terá poder de mando sobre os casos, porque sem poder de mando não se muda a estrutura. Se for simplesmente alguém para temporizar ela nada fará e aí a gente vai continuar a ver essa demanda reprimida sair por fontes não oficiais", explica Mônica Sapucaia Machado.

É o que acontece hoje no perfil "Comitê Feminino da Natação Brasileira" no Instagram. Criado para o desenvolvimento da modalidade, da base ao alto rendimento, a página possui o quadro "Assédio no Esporte" com um link onde é possível fazer denúncias 100% anônimas.

Os relatos depois são contados em forma de post para conscientização. "Queremos mostrar que abuso e assédio sexual existem dentro do esporte. São recorrentes e têm que parar. Desde o dia 9 de setembro deste ano, quando publicamos o primeiro post sobre assédio, recebemos 44 relatos. Um mais assustador que o outro", compartilhou a ex-nadadora Sofia Sigrist, responsável pela conta do grupo na rede social.

"O falar sobre é muito importante", lembra Mônica Sapucaia. Mesmo que doa tanto, como sempre expõe a ex-nadadora Joanna Maranhão, símbolo da luta contra o abuso sexual de crianças e adolescentes no esporte depois de tornar público o trauma que viveu quando criança.

Joanna hoje faz mestrado na Europa para se aprofundar nessa temática, como relatou em sua conta pessoal no Instagram. "O maior desafio tem sido absorver conteúdos sobre assédio no esporte e buscar manter equilíbrio emocional." Ela já esteve à frente do Comitê de Ética e deixou um projeto de educação sexual por meio de cartilha e palestras para as categorias de base, que Mariana Brochado pretende retomar.

A reestruturação do Comitê de Ética com o canal de comunicação exclusivo para denúncias de assédio sexual faz parte de uma série de ações de governança e transparência para manter os esportes aquáticos dentro do "Olimpismo".

A CBDA vive grave crise financeira após anos de má administração. Sem patrocínio, muitos processos por cobrança trabalhista e prestação de serviços e com a verba da Lei Agnelo Piva administrada pelo Comitê Olímpico Brasileiro, a entidade busca retomar a autonomia e credibilidade com boa gestão e transparência.

"O COB tem um sistema que avalia a gestão das entidades filiadas em relação aos métodos de governança corporativa. Pulamos de uma nota 2.53 e para 7.87, sendo 10 a nota máxima. Tivemos uma evolução muito grande. Tudo que nos é pedido tentamos fazer o mais rápido possível", destaca Eduardo Fischer.

"O Programa Gestão Ética e Transparência lançado pelo COB em 2017 se propõe a ser mais do que uma simples medição periódica da situação das entidades do sistema olímpico. Alçado à condição de 12º critério a ser considerado para a distribuição dos recursos, se tornou um importante estímulo financeiro à melhoria constante da gestão olímpica nacional", contextualiza Ana Paula Terra, advogada e consultora em direito esportivo, compliance e políticas públicas.

Mas é importante lembrar que o trabalho de correção e ajustes feito na CBDA precisa passar também pela reestruturação de meios tradicionalmente masculinos, como reforça Sofia Sigrist, que participa do Comitê Feminino da Natação Brasileira e também é colaboradora da entidade.

"Eu acredito que um grande problema dentro do esporte como um todo é a dinâmica de poder que existe nesse ambiente e não permite com que a vítima de assédio ou abuso denuncie."

"A violência é tão estrutural que os meios são masculinos. Então, a possibilidade de fazer uma denúncia para 'suas pares' é muito mais acolhedor do que direto em um canal institucional masculino. E isso é, inclusive, um grande debate sobre política pública para as mulheres", reforça Mônica Sapucaia.

Por isso, Mariana está a frente do canal oficial da CBDA para as denúncias. "A gente sabe que é um assunto delicado e que vem ganhando força nos últimos anos. Queremos ressaltar que as vítimas não precisam ter medo de denunciar. Sejam elas homens ou mulheres".

O email para denúncias à CBDA é: assedio@cbda.org.br.

O perfil do Comitê Feminino da Natação Brasileira no Instagram é: @comitefemininonatacao

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL