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Depois de apoio, entidades esportivas precisam agir contra preconceito

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

14/07/2020 10h00

O mundo do esporte se uniu de maneira rara para proteger algo que é da sua natureza: direitos humanos. Líderes do COI, da Fifa, e até da conservadora NFL se posicionaram declarando o que parece óbvio, mas não é: atletas que se manifestarem contra o preconceito não podem ser punidos. Mas o movimento esportivo precisa mais do que palavras, precisa de ações.

O preconceito é uma realidade presente e cruel na sociedade, e também dentro do movimento esportivo. E ele se apresenta não só em um grito, ou uma faixa estendida em uma arquibancada, mas também na falta de representatividade de minorias em posições de comando dentro do esporte.

Representatividade é um ponto fundamental, mas a mudança sistêmica passa também por outros compromissos.

Começando pelo COI. O Comitê insiste em manter a regra 50 da Carta Olímpica, que proíbe protesto político, religioso ou racial. Ela já foi usada para punir atletas que lutavam contra o racismo, contra a homofobia, e outros preconceitos. Com os jogos de Tóquio, e o movimento de atletas combatendo o racismo pelo mundo, esse artigo fatalmente será um problema.

E a FIFA também precisa agir de maneira mais objetiva. No futebol, a disparidade salarial entre homem e mulher aumentou no ano passado, apesar das jogadoras de futebol agirem em todo o mundo pela igualdade.

E quem se lembra de uma punição exemplar do futebol aos repetidos atos racistas que se tem notícia? O Estatuto da FIFA mudou, está mais firme no combate ao preconceito, mas na prática tudo segue do mesmo jeito.

O momento para atacar esses problemas é agora, oxigenado pela força dos atletas que estão enfrentando o problema do racismo e do preconceito em todo o planeta de maneira heroica.

A morte do negro George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos desencadeou uma série de protestos de atletas de todos os esportes, e em todos os cantos.

O movimento cresceu, ganhou apoio da opinião pública, clubes rivais se uniram, grandes patrocinadores entraram na campanha e o movimento esportivo precisava reagir.

O COI se manifestou.

Em um comunicado, ele se posicionou contra o racismo, lembrando que a não discriminação é um dos pilares do esporte, lembrando inclusive valores presentes na Carta Olímpica.

"O gozo dos direitos e liberdades estabelecidos nesta Carta Olímpica será assegurado sem discriminação de qualquer tipo, como raça, cor, sexo, orientação sexual, idioma, religião, opinião política ou outra, origem política ou outra, origem nacional ou social, propriedade, nascimento ou outro status".

E a mensagem lembrou Pierre de Coubertin, fundador do COI e o "pai" do olimpismo. Coubertin disse que "não teremos paz até que os preconceitos que agora separam as diferentes raças sejam sobrevividos. Para alcançar esse objetivo, que melhor meio existe do que reunir os jovens de todos os países periodicamente para testes amigáveis de força e agilidade muscular? "

Antes disso, a FIFA também havia se manifestado.

Ela orientou suas entidades filiadas a não punir atletas que se manifestarem contra o racismo, algo que começou com a volta do futebol na Alemanha, mas seguiu forte com a retomada do esporte em outros lugares.

As regras do jogo proíbem manifestações políticas em campo. Mas, nesse caso, a entidade faz uma leitura mais ampla da regra, entendendo que a proteção de Direitos Humanos vai além de qualquer bandeira ideológica. Inclusive, faz parte do Estatuto da entidade.

A NFL é uma Liga independente, mas ela também se curvou diante da necessidade de combater o absurdo da discriminação.

"Estávamos errados ao não ouvir os jogadores mais cedo e a encorajá-los a falar e protestarem pacificamente. Nós, NFL, acreditamos no 'Black Lives Matter'. Apoiamos os jogadores que fizerem ouvir a sua voz e tomarem atitudes", disse Roger Goodell, chefe da NFL, em vídeo publicado nas redes sociais depois da morte de Floyd, e de manifestações de atletas da Liga.

Claro que todos imediatamente lembraram de Colin Kaepernick, um atleta que por defender o combate a desigualdade racial ganhou a antipatia do presidente Donald Trump, e foi punido por isso.

NFL, FIFA e COI. Todos entendendo que proteger Direitos Humanos é da natureza do esporte, e precisa ser também de quem o pratica. O movimento de atletas ao redor do planeta combatendo o preconceito jamais pode ser punido, mas incentivado e aplaudido

Como bem diz o professor Wladimyr Camargos, colunista do Lei em Campo e pesquisador dessa relação entre Estado e esporte, "o respeito aos Direitos Humanos é elemento interno, não externo, da autonomia esportiva. É autolimite próprio da Lex Sportiva".

Mas quando dirigentes esquecem essa natureza, a pressão organizada e coletiva dos atletas faz com eles se lembrem.

A mudança precisa ir além dos aplausos e palavras. Precisa de diálogos que provoquem ações.

E precisam participar desses diálogos os líderes das entidades esportivas, atletas, mídia, minorias e todos aqueles que contribuem com o esporte.

Somente com essa participação, provocada pela pressão dos atletas e da opinião pública, a mudança sistêmica acontecerá.

E o esporte ajudará mais uma vez na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e igual. Como o mundo e o esporte devem ser.

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