PUBLICIDADE
Topo

Drogas proibidas para atletas são testadas no tratamento da Covid-19

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

07/07/2020 04h00

Por Ivana Negrão


A novidade está no uso de eritropoetina sintética, mais conhecida como EPO, para tratamento de casos graves da doença. As pesquisas são do Instituto Max Planck de Medicina Experimental em Göttingen, na Alemanha. Por provocar o aumento da capacidade de oxigenação dos músculos, devido a maior produção de células vermelhas no sangue, a droga é muito utilizada em pacientes com insuficiência renal ou com anemia profunda. "Fora isso, o grande uso é para doping", informa o infectologista Celso Ramos.

O caso mais famoso de doping por EPO é o do ciclista Lance Armstrong. Lenda do ciclismo por ter vencido a Volta da França sete vezes (de 1999 a 2005), o atleta teve todos seus títulos cassados. Mas o que levou os cientistas a cogitarem a EPO para o benefício de pessoas infectadas com a Covid-19?

Um paciente internado em estado grave da doença e com valores sanguíneos ruins, em um hospital iraniano, no final de março, melhorou após prescrição da droga. Outra indicação vem exatamente aqui da América do Sul. Casos críticos são mais raros em áreas de grande altitude, onde as pessoas produzem naturalmente mais EPO no organismo e estão mais adaptadas às deficiências de oxigênio.

"Sou a favor da ciência. Então, qualquer medicamento que for utilizado, precisa da comprovação de eficácia antes. Desconheço a ação de eritropoetina sobre o vírus ou sobre o sistema imunológico. Precisa fazer experimentação e ter comprovação científica", defende Celso Ramos.

Outra preocupação é que com uma nova utilidade clínica para esta droga, os casos de doping possam aumentar, ou mesmo que o uso de EPO para o combate ao coronavírus vire uma desculpa", alerta a biomédica, Lara Santi, especialista em antidoping.

É importante que os atletas saibam que não estão isentos de serem pegos no antidoping se fizerem uso de EPO. Até porque é preciso haver uma liberação prévia ou posterior para uso terapêutico de qualquer substância, que é concedida com base em laudos médicos. Profissionais que tratam atletas de alto rendimento precisam ficar atentos.

A mesma regra vale para o corticoide. Diferentemente da EPO, já existe a comprovação de eficácia do uso de doses moderadas de dexametasona em pacientes crônicos da Covid-19. "Não é para uso preventivo ou para pacientes com formas leves ou moderadas da doença", ressalta o infectologista Celso Ramos.

Em meio à pandemia não há uma liberação para uso de substâncias proibidas. Os códigos permanecem em vigor e os testes continuam normalmente, mesmo que mais limitados em locais com isolamento social ou que registrem picos de contágio do coronavírus. "A sensação é de que o mundo parou, mas a regra continua a mesma. A Olimpíada vai acontecer e é preciso dar continuidade ao trabalho", esclarece Lara Santi.

Os testes com EPO também continuam. "A Covid-19 pode ter consequências tão graves para a saúde que precisamos examinar todas as evidências do efeito protetor que a EPO pode ter. Afinal, atualmente não há vacina ou medicamento disponível. É por isso que estamos preparando um ensaio clínico, o chamado estudo de prova de conceito", explica Hannelore Ehrenreich, cientista do Instituto Max Planck de Medicina Experimental. Nestes testes, pacientes da Covid-19 em estado crítico receberão quantidades adicionais de EPO.