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Grêmio dá aula de gestão e postura mesmo na crise, e de graça

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

22/05/2020 21h40

Romildo Bolzan Júnior tem duas características indispensáveis para um gestor responsável: transparência e postura. O presidente do Grêmio se posiciona de maneira clara sobre assuntos relevantes, e precisa ser sempre ouvido. Nesse momento de crise, ainda mais. O recado dele sobre o futuro dos clubes pós-pandemia é uma aula de gestão: "o campeão de 2020 será aquele time que chegar sólido em 2021".

O presidente do Grêmio conversou comigo e com o advogado Wladimyr Camargos no programa Preleção de Ideias do Lei em Campo no YouTube. Falando sobre a pandemia deixou claro que o Grêmio negociou com atletas, fornecedores, funcionários, sempre provocando o necessário diálogo, e que o clube está preparado para aguentar essa situação extrema até "julho ou agosto". Mas não descarta negociar algum jogador, como Éverton Cebolinha, que deve receber proposta do Nápoli: "temos que pensar na eternidade da instituição. E ter responsabilidade. Se tivermos que vender um ou outro jogador, venderemos. Já autorizamos o Nápoli a negociar com Éverton, mas ainda não nos chegou nenhuma proposta".

Nesse momento de crise, o Grêmio agiu rápido. Além da negociação coletiva com atletas e funcionários (como tem que ser e determina a legislação), e conversas com patrocinadores, o clube implementou outras medidas para manter receitas, como com o sócio torcedor, que traz uma receita anual de 75 milhões para o clube. Com ações objetivas, o tricolor perdeu até agora apenas 5 mil sócios. Oitenta e cinco mil se mantêm adimplentes, garantindo uma receita importante.

No balanço financeiro do primeiro trimestre de 2020, de janeiro a março, o Grêmio apresentou um superávit de R$ 11,8 milhões. O levantamento pegou apenas o início da pandemia, mas dá fôlego para o clube enfrentar a crise.

Com a crise, o futebol está encolhendo.

Segundo especialistas, o mercado global de patrocínio no esporte deve ter uma retração de mais de 30%. A Transfermarket, empresa especializada em mercado do futebol, já publicou que o valor dos atletas caiu cerca de 20%. O presidente da La Liga, Javier Tebas, já disse que os clubes espanhóis terão que diminuir os salários dos atletas, e que a Liga cobrará responsabilidade.

Romildo está atento. Ele disse que é preciso esperar para ver até onde a crise atingirá o esporte, mas se diminuir significativamente a receita com patrocínio, direitos de transmissão, estratégias de marketing e com sócios, "será necessário investir menos no futebol, pagando menos aos atletas. Esse seria o único caminho responsável".

É assim que Romildo age. Com os pés no chão, e os olhos no cofre do clube.

Ele assumiu o Grêmio em 2015., e recolocou o tricolor no protagonismo do futebol brasileiro depois de um longo jejum de títulos. Vieram títulos importantes, como o da Copa do Brasil e o da Libertadores. Resultados alimentados por uma gestão responsável, que sempre honrou compromissos, e só gastou e investiu no futebol aquilo que tinha. Mesmo com folha salarial menor do que muitos concorrentes (como o rival Internacional), o time está sempre na briga por grandes títulos. Além disso, o Grêmio se tornou também referência de gestão no Brasil.

Além da responsabilidade, Romildo se posiciona de maneira clara em temas necessários. Ele, por exemplo, é contra o Projeto de Lei 2125, do deputado Artur Maia (DEM-BA), que garante uma carência de doze meses aos clubes nas parcelas do Profut (sem contraprestação), e que também retira direitos de atletas, como corta pela metade a cláusula compensatória e permite o não recolhimento do FGTS do atleta no momento de crise. "Sou contra PL do Profut, que retira direitos dos atletas. Em um momento de crise, sem diálogo profundo com os atletas. Isso não pode nem ser pensado". E, nessa hora, até o óbvio precisa ser dito.

Necessidade do diálogo, proteção de direitos nesse momento de crise. Parece óbvio, mas não é o que se tem visto. Muita gente tem aproveitado a crise para tentar mudar regras, ganhar benefícios sem assumir responsabilidades, e dispensando o debate necessário com todo o movimento esportivo, inclusive com os atletas.

O futebol não pode mais permitir isso. Nem tem permitido.

Cada vez mais o campo ajuda a mostrar que uma gestão responsável, transparente e profissional, também ajuda um time a levantar taças.

Uma lembrança marcante? "O título da Copa do Brasil de 2016, ele nos devolveu o orgulho de ser gremista", disse Romildo. E de uma maneira exemplar.

A lição está dada. E de graça.

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Lei em Campo, por Andrei Kampff