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EUA iniciam teste de doping a distância. Especialistas pedem cuidados

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

16/04/2020 10h29

A crise provocada pelo coronavírus no esporte obriga a todos do movimento esportivo a encontrar novas soluções. Seja em questões contratuais, de regulamentos, ou doping. A Agência Antidopagem dos Estados Unidos (USADA) está mudando a forma de testar atletas, e começando a aplicar método sem precisar ir ao encontro deles.

A pandemia do coronavírus parou o esporte, e tornou quase inviável o trabalho antidoping. Nesse controle, os profissionais aparecem sem aviso prévio para coletar amostras de sangue e urina dos atletas para verificação de uso ou não de medicamentos que melhoram desempenho esportivo.

A Agência Antidopagem dos Estados Unidos geralmente envia testadores em momentos aleatórios para coletar amostras de atletas. Mas com o distanciamento social sendo obrigatório na maioria dos lugares, a agência agora conta com um programa piloto que usa chamadas de vídeo para verificar o processo de teste. Como sempre, os atletas devem fornecer à USADA uma janela de uma hora todos os dias do ano. Durante essa janela, um testador pode entrar em contato com o atleta para o teste. Antes das ordens de distanciamento social, isso significava uma batida na porta. Agora, significa uma vídeo chamada.

Especialistas antidopagem americanos já estavam discutindo ideias sobre testar atletas sem ter que bater na porta da casa deles.

Travis Tygard, executivo-chefe da USADA, disse em entrevista ao New York Times: "estamos conversando sobre isso e estabelecendo as bases há vários meses. A COVIC-19 fez com que colocássemos isso em pratica mais rapidamente".

Segundo especialistas, a ideia pode ser boa, mas traz alguns problemas.

A biomédica Lara Santi faz testes de doping pelo mundo para a Agência Mundial Antidopagem (WADA). Ela mora na suiça e trabalhou na USADA. Lara destaca que "a medida tem prós e contras. O primeiro problema é se perder o elemento surpresa do teste. Outro fator, é que o risco de fraude é maior nesse sistema".

Flávia Zanini, advogada especializada em direito esportivo e que trabalha com doping, faz dois alertas importantes: "existem cursos para as pessoas que fazem a coleta, e não é qualquer pessoa que pode realizar. Além disso, fere a cadeia de custódia, que é o acompanhamento do coletador até o local de entrega do exame - o laboratório. Nesse caso, o atleta perde toda a segurança com relação ao material que será avaliado."

Sobre a coleta, a biomédica Lara Santi reforça "que é preciso treinar os atletas sobre a coleta, Mas nesse teste da USADA, a técnica é outra, que a gente chama de DBS, não envolve agulha, é coleta por capilaridade." Acontece que essa técnica ainda não está 100% aprovada para o esporte, e é usada para passaporte biológico. Hoje, nem todo laboratório tem tecnologia para usar esse exame. Os Estados Unidos estão mais preparados que a maioria dos países para usar essa técnica.

Já Paulo Schmitt, procurador-geral da Justiça Desportiva Antidopagem, elogia a iniciativa, mas também reforça a necessidade de observação dos procedimentos : "a coleta e controle à distância cercada de protocolos de segurança e inteligência para impedir violações que prejudiquem as amostras e testes, que é o que me parece que a USADA está fazendo, é altamente recomendável, principalmente nesse período de parada obrigatória." . Paulo também destaca a importância de manter a integridade esportiva nessa hora, já que "essa pandemia vai contribuir para igualar os desiguais, beneficiar os punidos. Espero sinceramente que a WADA possa validar essa iniciativa da USADA. Esse momento de pandemia merece uma abordagem que minimize ao máximo riscos para atletas e oficiais de controle. E se der certo, poderá ser uma importante alternativa de controle não presencial, até mesmo rotineiramente para atletas do chamado grupo alvo de testes por exemplo podem ser submetidos a essa nova metodologia de videoconferência e imagens a distância."

Nesse momento de crise, Lara lembra que não há como exigir que atleta seja obrigado "a abrir a porta para ninguém, já que há risco de saúde. Essa dificuldade de coleta também pesou na hora de se adiar a Olimpíada de Tóquio, uma vez que não haveria mais condições de garantir a integridade dos jogos". Em função disso, a biomédica considera "boa a iniciativa da USADA, apesar das dificuldades. Pensar em solução é fundamental nessa hora, já que o o problema existe e é real. Dessa forma o atleta também fica sabendo que as entidades estão de olho."

Não há nenhuma chance desse procedimento ser aplicado no Brasil a curto prazo. Por aqui, os atletas seguem sendo testados presencialmente, algo que não tem acontecido em função da pandemia.

Veja como será o procedimento:

1. O atleta recebe um kit de teste pelo correio.

2. Em qualquer dia, durante essa janela de uma hora, um atleta recebe uma vídeo chamada de um testador.

3. Os documentos de verificação, que já foram preenchidos e assinados pessoalmente, agora são feitos pela videochamada.

4. O atleta faz ao testador um tour de vídeo em seu banheiro para verificar se não há outras pessoas presentes.

5. Fora da câmera, o atleta entrega uma amostra de urina em um recipiente fornecido.

7. Esse recipiente é então fechado com uma tampa inviolável.6. Na câmera, uma faixa de temperatura é mergulhada na amostra, fornecendo algumas evidências de que é uma amostra nova.

8. Na câmera, o atleta pressiona um pequeno dispositivo em seu braço próximo ao bíceps, que coletará uma amostra de sangue.

9. Essa amostra de sangue também é selada na câmera.

10. As amostras de urina e sangue são enviadas de volta à USADA.

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Lei em Campo, por Andrei Kampff