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The English Game é aula para dirigentes atuais em tempos de coronavírus

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

07/04/2020 04h05

A série The English Game, do Netflix, se passa no final do século XIX, e tem o futebol como fio condutor de uma história muito mais sobre luta de classes e tensão social. E, mesmo assim, traz uma lição importante a todos os dirigentes da atualidade: entendam o momento, ou os fatos te derrotarão.

Para essas linhas, o personagem principal e elemento que ensina algo fundamental para todo dirigente é Arthur Kinnaird. Um craque da seleção inglesa à época, e um dos líderes da associação que controlava o jogo e as regras do futebol.

O futebol era um esporte dominado e praticado pela elite inglesa. E, de maneira inteligente, para manter o controle do esporte, o profissionalismo era proibido. O futebol crescia em popularidade entre os operários e pessoas das classes mais baixas.

Para quem (ainda) não viu, a série conta a chegada de Fergus Sutter e Jimmy Love, os primeiros jogadores considerados profissionais no futebol. Eles saíram da Escócia para jogar em um time de operários, e recebendo salário para jogar, o que contrariava as regras do jogo. Mas muito mais grave do que isso: tornando forte um time de operários, o que ameaçava o domínio da elite do esporte.

Agora, um porém indispensável.

Esta não é uma série para se ver bola rolando, mas para entender como o futebol acompanhou movimentos sociais decisivos para a história da sociedade moderna e do próprio jogo.

Então, não busque precisão histórica, típica dos documentários. A série tem o objetivo de entreter, buscando fastos reais para conduzir a narrativa. Para isso, ela contou com a supervisão de Andy Mitchel, um dos grandes pesquisadores do esporte no século XIX. Mesmo assim, ela não é fiel a datas, sequer a clubes e títulos. Ela aproveita vários momentos, para resumir uma história importante.

Alerta: spoiler na sequencia. Mas como a série é sobre uma história importante, qualquer pesquisa já mostra o que aconteceu.

O fato é que com os operários recebendo salários como atletas, e com eles se dedicando para o jogo, as equipes das fábricas ficaram mais fortes. Assustada, a elite se reúne e ameaça desclassificar o time de Fergus Sutter e Jimmy Love, na série o Blackburn. Mais do que perder o título, o Old Etonians estava assustado em perder o controle do jogo.

Kinnaird, o principal líder do time e da associação entendeu que não havia mais jeito. O futebol já fazia parte também da cultura popular. A propaganda, a venda de ingressos, e os jogadores assalariados seriam caminhos tomados, com ou sem o aval dos líderes.

Então, com a ameaça de uma grande ruptura na associação e a possibilidade de uma nova entidade ser organizada, ele consegue mudar os votos dos colegas de associação, e aceita as mudanças no futebol.

O Blackburn confirma a força que tinha e é campeão no último capítulo da série (na história o primeiro campeão foi o Blackburn Olympic, e não o Rovers de Sutter, numa final assistida por mais de oito mil pessoas). O time vence o Old Etonians de Kinnaird em 1883.

Com esse título, o jogo mudou também taticamente, mas não só isso. Dois anos depois, em 1885, o pagamento de salários passou a ser permitido, o futebol começou a se tornar um grande negócio e sabe quem ficou comandando toda essa transformação?

Arthur Kinnaird. O membro da aristocracia britânica foi o presidente da nova Federação Inglesa, a FA, de 1890 até 1923, por 33 anos.

Sábio, entendeu o momento. Cedeu, compôs e se tornou o líder de uma das maiores revoluções do futebol, mesmo sem mudar de lado.

Em tempos de coronavírus em que o futebol também passará por uma grande transformação, entender o cenário é fundamental para os nossos dirigentes.

A aula de Kinnaird está à disposição.

Lei em Campo, por Andrei Kampff