PUBLICIDADE
Topo

Lei em Campo, por Andrei Kampff


Ao permitir substituição temporária, Futebol começa a atacar problema grave

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

03/03/2020 04h00

Foi em Belfast, na Irlanda do Norte, que veio uma notícia importante para o futebol. No encontro anual da International Board (IFAB), órgão que cuida das regras do futebol, foi aprovado que a Fifa avance nos estudos e testes de substituições temporárias em casos de casos de concussão.

Com isso, a Fifa deverá testar a substituição temporária já nos Jogos Olímpicos de Tóquio, tanto na competição masculina como na feminina.

O futebol tem um protocolo ineficiente de verificação de choques de cabeça, e está muito atrás de outros esportes na prevenção do problema. A decisão é corajosa e ataca um problema sério.

Concussão é um problema sério no esporte

A decisão de Belfast é um passo no combate a algo perigoso em todos os esportes de contato: o choque de cabeça, que pode gerar uma concussão.

A concussão cerebral é a perda de consciência num intervalo curto de tempo, e acontece logo após um traumatismo craniano.

De difícil diagnóstico, ela caracteriza-se por microlesões, que não são visíveis, mas que apresentam sintomas característicos. E como o diagnóstico é complicado, muitos atletas que sofrem concussão voltam ao jogo, o que é um problema sério.

São vários os exemplos no futebol. Álvaro Pereira na Copa de 2014, o goleiro Karius, do Liverpool, na final da Liga dos Campeões de 2018? e a lista é longa de jogadores que não poderiam voltar a campo se fosse colocado em prática um protocolo eficaz de combate à concussão.

Em função do risco de repetidas microlesões provocarem uma lesão cerebral grave, vários esportes criaram protocolos obrigatórios para concussão visando proteger a saúde do atleta.

Concussões entre atletas profissionais dominaram as manchetes esportivas nos últimos anos. Na NFL, na NHL, no futebol.

As duas primeiras ligas adotaram protocolos de concussão nos últimos anos.

A NHL introduziu novas regras em 2011 que exigem que os jogadores deixem o banco e se dirijam a uma sala silenciosa para serem avaliados por um médico após receber um golpe na cabeça. A NFL deu um passo adiante em 2013, exigindo que um jogador com uma suposta concussão recebesse autorização do médico da equipe e de um neurologista independente antes de voltar a jogar.

Pesquisa mostra que futebol afeta saúde de atletas

Um artigo publicado pela revista New England Journal of Medicine, uma das publicações científicas mais prestigiadas da área da medicina, trouxe levantamentos importantes, e surpreendentes. A repercussão foi gigante, uma vez que foi o primeiro estudo feito com uma grande amostragem de ex- atletas de futebol. Foram 7676 ex-atletas e 23000 controles.

O trabalho comparou a taxa de mortalidade entre ex-atletas de futebol na Escócia com a população em geral, num trabalho retrospectivo, feito de trás para frente.

Neste estudo, os pesquisadores concluíram que: nos atletas o risco de morte por doenças degenerativas é 3,5 vezes maior do que no não atleta para Esclerose Lateral Amiotrófica 4 vezes; para causas diretamente relacionadas a Alzheimer foi 5 vezes maior;

O único dado positivo para o atleta é que a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares é 20% menor do que a da população geral.

Os dados da pesquisa trazem números muito parecidos com as pesquisas feitas nos Estados Unidos com os ex-jogadores de futebol americano. Por conta da concussão, a NFL perdeu um processo bilionário que garantiu indenização a jogadores vítimas de uma doença gerada por choques de cabeça, a ETC (encefalopatia traumática crônica). Depois disso, ela criou um protocolo eficiente para diminuir riscos de lesões.

O que se está debatendo no Brasil

Além de estudar e defender a ideia da substituição temporária no futebol - ou ainda de uma quarta substituição em caso de um médico neutro comprovar a concussão no teste de campo - a CBF estuda aplicar uma recomendação aos clubes e escolinhas : crianças menores de 12 anos não treinem mais o cabeceio.

Eu conversei com o Dr Jorge Pagura, presidente do Comitê Médico da entidade e pesquisador na área, sobre o assunto. Ele disse que ainda não há um protocolo definido para essa recomendação. Mas o importante é: o futebol está se movimentando.

A discussão ainda está dentro da Comissão Médica da entidade. "Ainda não temos data definida. É uma tendência essa recomendação. Estamos discutindo muito o assunto, levantando evidências científicas, ouvindo outros especialistas, e criando um juízo de valor para liberar uma orientação desse tipo, até para evitarmos pânico desnecessário, nem discussões estéreis sem base científica", explica Pagura.

A Federação Escocesa de Futebol está na mesma linha, deve anunciar em breve a proibição do cabeceio para menores de 12 anos que praticam futebol no país. Por uma questão de saúde, o jogo mudaria.

Já existe uma proibição semelhante nos EUA desde 2015, mas a Escócia se tornaria o primeiro país europeu a impor uma restrição ao contato com a cabeça.

Como é no futebol

Hoje o futebol brasileiro segue o protocolo da FIFA. E ele não ataca de maneira efetiva o problema.

Depois dos repetidos casos de choque na Copa de 2014, a FIFA passou uma orientação sobre o que fazer em lances como esse. Aqui é importante destacar: é uma diretriz, não é um protocolo obrigatório como nos esportes americanos.

Ela diz que o médico da equipe é que vai determinar a continuidade do atleta, mas do lado de fora do campo. São três minutos de atendimento dentro do gramado, e o jogador precisa ser levado para fora de campo. O prejuízo técnico - jogar com um menos - também acelera o atendimento e não ajuda numa avaliação mais correta.

Ele tem um tempo muito curto para diagnosticar a perda de consciência, o andar desnorteado do atleta e fazer as perguntas-chave. Depois de analisar tudo isso, o médico precisa decidir se o atleta tem condição ou não de continuar. Se o médico constatar algo anormal, no vestiário um novo exame deve ser feito, e dura cerca de 10 minutos.

A conclusão é de que a determinação do futebol ainda deixa jogadores em risco, e segundo especialistas, precisa ser aprimorada.

A FifPro, sindicato dos atletas profissionais, já pede desde 2018 a substituição temporária. Além disso, o sindicato pede um médico independente nas partidas para ajudar a decidir se um jogador com suspeita de concussão deveria continuar em campo, em vez de deixar a decisão para os médicos dos times. A entidade mostra preocupação porque, embora tais procedimentos sejam empregados com sucesso em diversos esportes, ainda não foram adotados pelo futebol profissional.

Outra entidade que mostra preocupação é a Federação Americana de Futebol, que apresentou um pedido para que a NWSL (a liga feminina de futebol) conduza um programa-piloto pelo qual sejam permitidas as substituições temporárias por conta de concussão. O argumento da Fifa para não deixar um time substituir um jogador que bateu a cabeça é a tática: um técnico poderia levar vantagem com a medida.

Esporte vive em constante evolução

O esporte muda a partir de provocações. A provocação pode aparecer como forma de aprimorar o jogo, ou de melhorar a segurança de quem joga. E ela pode aparecer a partir de processos judiciais, de tragédias, mas também do entendimento científico e humano de que o esporte precisa proteger a saúde de quem pratica. Esse entendimento é fundamental para o jogo, e para o Direito Esportivo.

Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo

Lei em Campo, por Andrei Kampff