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Como o carnaval, esporte também precisa conexão com mundo real

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

25/02/2020 04h00

Não é de hoje, o carnaval costuma sempre levar para ruas e passarelas do samba uma crítica social oportuna. Neste ano já teve alegoria a Marielle Franco, crítica à violência da polícia, e até menina de azul e menino de rosa. Com originalidade, bons enredos, brilho e pé no chão, nossa cultura popular não esquece de falar do que importa mesmo na festa. O esporte também tem essa vocação.

Sempre vou repetir por aqui que o esporte também é um catalisador de transformações sociais. No Brasil ele ajudou na luta contra o racismo, contra a discriminação aos mais pobres, até na abertura democrática durante os anos da ditadura.

Devido à força que o esporte tem como instrumento de transformações, não podem existir fronteiras entre ele e causas importantes para a sociedade.

O esporte não se separa da vida. Eles caminham juntos, nem sempre por terrenos tranquilos. Popular que é, ele foi - e é - usado como vínculo de identidade de nações em vários lugares do mundo. Com histórias fantásticas, e outras tristes.

Se na Itália campeã mundial de 1934 e 1938 os jogadores italianos tinham que saudar o fascista Mussolini, a nazista Alemanha não tolerou a "vergonha" da sua seleção ser derrotada por um time ucraniano. Os jogadores do Dínamo de Kiev foram avisados de que morreriam se vencessem a partida que aconteceu em 1942, durante a ocupação na Segunda Guerra. Honraram chuteiras, a dignidade e a pátria, venceram a partida e morreram fuzilados com a camisa do time. Um monumento na Ucrânia conta essa essa história

O poder soviético também trouxe vítimas para o esporte. Kubala, Puskas, Kocsis jogaram por times do exílio húngaro e foram punidos pela poderosa FIFA. Na Guerra da Independência contra contra a França, a Argélia montou uma seleção de futebol que vestiu a camisa do país pela primeira vez, com argelinos que ganhavam a vida jogando no país colonizador. Só Marrocos topou enfrentar um time que representava o sentimento de uma nação. Foi desfiliado. Os jogadores argelinos não mais jogaram profissionalmente.

Na Espanha até hoje o jogo está envolvido com uma questão histórica.

O ditador Ferdinando Franco - de 1938 a 1973 - também usava o futebol para faturar politicamente. O poderoso Real Madri, que reinou no mundo entre 1956 e 1960, era um cartão de visita da ditadura. O Barcelona era a resistência. O presidente do clube morreu pelas balas franquistas. O time catalão se tronou peregrino, assim como Eusaki. Os dois eram símbolos da resistência democrática para o mundo. E isso traz reflexos até hoje, com o El Clássico tendo sido suspenso no ano passado em função de protestos políticos em toda Catalunha.

Hoje o esporte vive uma luta contra todo tipo de preconceito. Combater o racismo, a misoginia, a homofobia passou a ser uma causa do movimento esportivo. E a participação de todos é importante.

No mundo, muitos são os exemplos de atletas que entenderam que sua força vai muito além de uma pista ou quadra ou campo, e que eles podem ser agentes importantes na construção de uma sociedade melhor, menos excludente e mais humana.

E o primeiro passo para atacar o problema é se posicionar. O carnaval traz sempre bons exemplos.

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