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Jornalismo também ajuda na integridade do esporte. Caso City é um exemplo

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

da redação

23/02/2020 12h05

Seguinte. Primeiro, é sempre bom saudar o bom jornalismo. Jornalismo é boa apuração, boas perguntas, boas respostas, uma grande história. Jornalismo de verdade incomoda. Ele revela o que a maioria quer saber, mas alguns insistem em esconder.

Esse jornalismo também foi peça fundamental para a punição que o Manchester City sofreu da UEFA. O processo contra o clube inglês só veio à tona depois que a ótima revista alemã Der Spiegel teve acesso a e-mails e documentos que revelavam uma maquiagem nos balanços financeiros do clube, A reportagem foi publicada em novembro de 2018.

A vigilância da imprensa, a pressão da opinião pública e o movimento da sociedade em busca de transparência e ética estão levando o esporte para o caminho da integridade. As entidades esportivas estão sendo obrigadas a se proteger. E a mostrar que estão seguindo esse caminho. A autorregulação é uma ferramenta indispensável para isso.

O esporte se alicerça na sua autonomia. Ele cria as próprias regras de funcionamento, e participação. Não concorda, não participe da cadeia associativa do movimento. Daí a necessária autorregulação para obrigar entidades esportivas a trabalharem de acordo com a integridade. O Fair Play Financeiro é um exemplo dessa autorregulação. A CBF deve, enfim, apresentar um conjunto de regras financeiras por aqui ainda esse ano, que deve esperar mais um pouco para entrar em vigor.

O fato é: a vigilância aumentou. As entidades estão se criando regras mais duras. Todos vão ter que se adequar.

E o (bom) jornalismo, como o da Der Spiegel, tem papel importante nesse caminho que está transformando não só a gestão do esporte, mas pode mudar também o direito esportivo. O City está gastando uma fortuna para se defender, e promete ir a todas as instâncias, o que pode abalar a estrutura jurídica do movimento esportivo.

Vale ler a reflexão que traz Martinho Neves Miranda, procurador de Justiça e colunista do Lei em Campo.

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Na autobiografia "A História do Homem que Levou o Banco Barings à Falência" (1997), o ex-funcionário Nick Leeson conta como foi capaz de fazer com que a mais antiga e importante instituição financeira britânica chegasse à bancarrota em apenas dois anos.

Trabalhando como operador na bolsa de Singapura, Leeson fez o banco perder cerca de US$ 1,5 bilhão com altas especulações em contratos futuros na arriscada área de derivativos.

Ele encobriu as perdas na conta de erro n° 88888 e relata no livro como escondeu, durante dois anos, a situação financeira do Barings em Singapura, enganando auditores e a própria bolsa. Sua impressionante história acabou sendo retratada no filme "A Fraude" (1999).

Fraude é também o nome atribuído ao que teria sido feito pelo proprietário do Manchester City, Sheikh Mansour bin Zayed Al Nahyan, da família que governa Abu Dhabi, maquiando as contas da entidade.

Nos balanços, o Sheik teria informado que a patrocinadora Etihad injetara no clube 67,5 milhões de libras a título de patrocinio, quando na verdade o valor estaria em torno de 8 milhões. O restante? Financiado pela empresa de Mansour, o Abu Dhabi United Group, o que seria ilegal de acordo com as normas da UEFA.

A atitude do Sheik fez com que o Manchester City fosse suspenso pela UEFA da Liga dos Campeões nas próximas duas temporadas e multado em 30 milhões de euros.

A imprensa deu grande destaque ao comportamento do Sheik e à punição sofrida pelo clube. Passou-se inclusive a imagem de que a UEFA é uma entidade zelosa de seus preceitos e que aplicaria a lei doa a quem doer.

Mas não foi bem assim que as coisas se deram. A bem da verdade, o processo contra o Manchester City só veio à tona a partir de e-mails e documentos publicados pela revista alemã Der Spiegel em novembro de 2018, que revelaram a maquiagem dos balanços.

Apenas a partir daí é que a UEFA se mexeu. O City foi considerado culpado pelo Organismo de Controle Financeiro da entidade, que ultimou por punir o clube na forma acima mencionada.

Só que de controle esse organismo não tem nada. Se não fosse a Dier Spiegel, é provável que isso tivesse passado em branco. E órgãos de controle que se prestem não agem dessa maneira tão letárgica.

O Banco Barings que o diga. Nenhum dos seus auditores percebeu as apostas arriscadíssimas que um único funcionário inconsequente fez em nome da instituição financeira na bolsa de valores e que a levou à falência.

Hoje em dia fala-se muito em Compliance, que vem a ser um conjunto de medidas internas destinadas a prevenir ou reduzir os riscos de danos que alguém produza ao violar as regras da empresa.

O nome pomposo e divulgado pelos quatro cantos não é, entretanto, aplicado na prática, sendo os casos do Barings e da UEFA apenas mais duas gotas num oceano de negligência dos órgãos de controle, que vivem uma crise de credibilidade em todo o mundo. E não faz diferença se eles são públicos ou privados.

No âmbito público, repare-se o que vimos no Brasil. Os números estratosféricos de corrupção envolvendo por anos a fio as empreiteiras só vieram à tona com a operação lava-jato. Onde estavam as Controladorias, Tribunais de Contas e poderes legislativos da União e dos Estados que não viram nada disso esse tempo todo?

No setor privado não é diferente. Veja-se, por exemplo, o escândalo envolvendo Isabel dos Santos (com apenas 46 anos é a pessoa mais rica da África e detentora de uma fortuna avaliada em mais de US$ 3 bilhões), filha do ex-presidente de Angola que governou o país por longos 40 anos.

Ela é acusada de corrupção em virtude de inúmeros documentos recentemente vazados pela mesma fonte que vazou os dados do City. Ocorre que as operações de suas empresas foram auditadas pela festejada empresa PWC, que não detectou nada de irregular...

É igualmente curioso que a UEFA não tenha percebido uma diferença de quase 60 milhões de libras nos balanços do Manchester City. Aliás, a Dier Spiegel diz que a UEFA percebeu sim, mas afirma que o caso teria sido abafado pelo então presidente Platini e pelo ex-secretario geral da entidade e que hoje preside a FIFA...

O fato é que se não houver divisão de poderes na tomada de decisões, independência dos órgãos de controle, publicidade do trabalho que realizam e responsabilização dos agentes e de entidades de auditoria por negligência na realização de seus serviços, novas fraudes surgirão.

A "lição" de Leeson está aí para ser aprendida. O estrago que ele fez com sua atuação temerária provocou mudanças das auditorias nas análises de balanços de instituições financeiras. Algumas, inclusive, foram condenadas por não terem enxergado nos balanços as fraudes praticadas por Leeson.

É bom que UEFA, FIFA e demais federações possam aprender com o erro do Barings, pois se um simples funcionário conseguiu falir o maior banco britânico, pode-se imaginar que Sheiks, grandes grupos econômicos e etc são capazes de destruir algo que não tem preço:

O futebol.

Lei em Campo, por Andrei Kampff