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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fernandinho e Lucas ajudarão no campo, mas mais ainda fora dele

Lucas Leiva posa na Arena do Grêmio após assinar contrato com o clube até 2023 - LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
Lucas Leiva posa na Arena do Grêmio após assinar contrato com o clube até 2023 Imagem: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

28/06/2022 11h03

Fernandinho e Lucas Leiva foram apresentados no mesmo dia. Um volta ao Athletico-PR depois de 17 anos e de ter passado somente por dois clubes. O outro chega no Grêmio 15 anos depois, também após jogar por só dois times no intervalo.

Estas informações parecem bobas, mas são muito relevantes. Fernandinho atuou oito temporadas no Shakhtar Donetsk, depois outras nove no Manchester City. Lucas passou dez anos vestindo a camisa do Liverpool antes de jogar mais cinco pela Lazio. É claro que a lista de títulos de Fernandinho é maior, já que os clubes em que ele jogou eram dominantes localmente. Isso, sim, é irrelevante.

Técnicos e mais técnicos, jogadores e mais jogadores e até diferentes donos/presidentes/diretores passaram por Shakhtar, City, Liverpool e Lazio. E lá estavam Fernandinho e Lucas Leiva. Dois caras que podem não ser os melhores meio-campistas que já vimos jogar, mas que primam pelo profissionalismo, o bom relacionamento e a honestidade no que fazem. Eles nunca prometeram entregar mais do que entregaram. E eles entregaram mais do que era prometido. Ninguém encontra um técnico sequer que fale mal desses caras.

As histórias deles se cruzam ali pelos anos 2011, 2012, antes de estarem juntos na Premier League. Na seleção brasileira de Mano Menezes, Lucas Leiva era titular e capitão. Quando José Maria Marin resolve demitir Mano e chamar Luiz Felipe Scolari de volta, Lucas perde espaço - nunca mais foi convocado desde 2013. E quem vira titular no meio? Fernandinho. Que acabaria sendo um dos "vilões" do 7 a 1, na Copa de 2014.

É claro que a dupla Felipão-Fernandinho tem a ver com o episódio triste do Mineirão. As decisões táticas de Scolari explodiram, essencialmente, em Fernandinho. É banal especular se algo teria sido diferente com Lucas. Tudo teria sido diferente se Marin não tivesse passado pela CBF, de qualquer forma.

A dupla Felipão-Fernandinho tem muito mais glórias do que tristezas no futebol. O "arroz com feijão" de Scolari segue sendo eficiente e vitorioso, à prova do tempo - basta ver a transformação do Athletico nas últimas semanas. Fernandinho, mesmo aos 37 anos, pode jogar na posição que quiser - Guardiola sabe bem disso. Volante, zagueiro, lateral, pode até jogar de camisa 10, se tiver vontade.

Lucas não estará com Mano (que, ironicamente, hoje comanda o Inter). Vai jogar com Roger, que tem muito de Mano e tem muito de Felipão. O desafio é menos complicado, é apenas fazer o Grêmio passar logo pela Série B e voltar ao seu lugar. Por ser um ano e meio mais novo do que Fernandinho, dá para imaginar Lucas jogando também a Série A ano que vem.

São caras "estilo Zé Roberto", que se cuidaram a vida inteira e podem ser longevos no futebol brasileiro. Eles vão ajudar seus times em campo. Mas a importância deles está muito mais fora do que dentro e seria importante que torcedores e crítica entendessem isso desde já.

Não é possível exigir que Fernandinho e Lucas resolvam jogos e campeonatos. Eles não são o Hulk nem o Cebolinha. Eles são caras que vão trazer suporte para o trabalho dos dois treinadores, Scolari e Roger. Que trarão experiência e equilíbrio para o vestiário, conversando, aconselhando e dando exemplo para os mais jovens. E que, se ouvidos, podem ajudar até mesmo na gestão de Athletico e Grêmio pensando nos anos que vêm pela frente.

São caras que fizeram história lá fora e voltam para enriquecer os times e, principalmente, o combalido ambiente do futebol brasileiro.