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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Felipão volta a acreditar no impossível e resgata Pablo no Athletico

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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

10/06/2022 04h00

Vinte anos atrás, Luiz Felipe Scolari apostava em Ronaldo. Agora, é a vez de Pablo. Entre um e outro, há um abismo dos maiores. Ao longo deste tempo, houve também muitas outras apostas por parte do treinador. Umas deram errado, a maioria deu certo.

Ronaldo era o resgate impossível por causa das lesões. Para muitos, estava acabado para o futebol. Nem Ronaldo nem Felipão sabiam o que aconteceria com aquela tentativa, no maior dos palcos, o maior dos torneios. A aposta deu certo.

Pablo é o resgate impossível por causa da confiança. Para muitos, estava acabado. Eram mais de três anos de decepções. A passagem pelo São Paulo e o reinício no Athletico eram dignos de descrença mesmo. Mas, com Felipão, ele já meteu seis gols e deu duas assistências nos últimos oito jogos. Jogou mal as primeiras partidas. Ganhou carinho. Ganhou minutos. Ganhou o apoio do chefe com elogios públicos. E voltou.

Olho no Athletico. Em um piscar de olhos, está em terceiro lugar no Brasileiro. Fugiu dos bicho papões nos sorteios de Libertadores e Copa do Brasil, pode ir longe em ambos. O Furacão é um clube para ficar atento no segundo semestre.

Scolari não é o técnico predileto da maioria. Com ele, nunca teve o papo de filosofia, jogar bonito, se impor sobre o adversário. A história de Felipão sempre foi obter resultados. É um resultadista convicto e orgulhoso. Tem problema? Claro que não. Ele entrega o que o torcedor mais quer. O caminho para chegar lá? Ele é quase sempre parecido. Passa por ter um 9. E passa por criar grupo dentro do vestiário.

Foi assim em 2002, quando Felipão levou a seleção brasileira ao pentacampeonato. Formou uma "família", usou os recursos que sempre usa para gerar aquele sentimento de "contra tudo e contra todos" e, como havia perdido a confiança no melhor 9 do país naquele momento, Romário, apostou no melhor 9 que o país deveria ter e que não havia tido por questões físicas: Ronaldo.

No Futebol Sem Fronteiras #53, comigo, Jamil Chade e dois convidados que viveram dentro da seleção brasileira naquela Copa, Décio Lopes e Diogo Kotscho (vídeo acima, link aqui), falamos muito sobre como Felipão lidava com o grupo, fazia questão de gerar em todos o sentimento de valorização e relevância - até mesmo nos vídeos motivacionais - e entendia que Ronaldo era especial, mas tinha de fazer parte de um contexto coletivo.

Pablo não é Ronaldo. É um jogador que se destacou desde a base, que faz várias funções em campo - não é um 9 puro - e que também teve a carreira consideravelmente atrapalhada por lesões. Como qualquer atacante, precisa de confiança. Sem ela, muitos de nós sofremos (em qualquer profissão). A confiança é ainda mais importante nas competições esportivas e para atletas que têm o seu desempenho analisado muito mais por lances específicos (fez gol, não fez gol) do que pelo contexto geral.

No São Paulo, Pablo sucumbiu. Fez poucos gols, foi mal em alguns momentos cruciais, sofreu com o peso do valor de transferência. Fora do campo, a liderança exercida em momentos de negociação financeira dura - em que defender os companheiros acaba se tornando um ônus perante a diretoria - gerou mal-estar. Era insustentável seguir.

Pablo voltou a mostrar a personalidade forte que tem ao criticar os torcedores do próprio Athletico que se envolveram em brigas do lado de fora do estádio em Caxias do Sul, na última quarta. Assim, nenhum torcedor do Furacão, nem os briguentos nem os não briguentos, puderam ver e apoiar o time na vitória sobre o Juventude.

"Espero que as torcidas tenham um pouco de consciência. Vá apoiar sua equipe, vá torcer, vá acompanhar um bom espetáculo. Nosso futebol é bom com as torcidas, mas temos que parar com as brigas, parar de ir para o estádio para brigar. Isso acontece há muito tempo. E é lamentável, porque ficamos dois anos sem torcedor no estádio, sentíamos muita falta. O clima quando você joga na sua casa, a pressão fora de casa, tudo isso faz parte, é gostoso. É muito bom pro futebol. As pessoas precisam ter mais amor ao próximo, amor à vida", falou Pablo após a partida.

Depois de fazer um grande jogo em Caxias, ele poderia se preocupar em "calar os críticos", exaltar a própria atuação. Mas preferiu passar o recado, que deveria ser repetido e repetido e repetido por todos os atores do futebol - na real, o esporte e a sociedade normalizam esse tipo de coisa dia sim, dia também.

Bem, as recuperações de Ronaldo, em 2002, e Pablo, em 2022, pareciam impossíveis, mas Felipão acreditou neles. A volta de Scolari aos holofotes do futebol brasileiro também parecida impossível, mas ele está aí. Que tenhamos uma sociedade menos agressiva e que o futebol deixe de ser uma arena tão violenta parecem também sonhos impossíveis. Mas vai que...