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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vítima do verdadeiro clubismo, Vini Jr já virou melhor brasileiro na Europa

Vinicius Junior, do Real Madrid, beija o troféu após a conquista da Liga dos Campeões  - JAVIER SORIANO / AFP
Vinicius Junior, do Real Madrid, beija o troféu após a conquista da Liga dos Campeões Imagem: JAVIER SORIANO / AFP
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

29/05/2022 04h00

Nas redes sociais, já me acostumei a ser chamado de "clubista". Creio que, para os clubistas de verdade, esta talvez seja a maior das ofensas. Porque é isso: somente o verdadeiro clubista pode abrir um computador ou um celular e perder tempo da vida xingando um jornalista que falou algo que ele não gostou. O clubismo é algo muito simples: é ter somente um ponto de vista, defender o próprio clube de coração de maneira cega e inconsequente. Nem todo torcedor é um clubista. Mas o que vai lá te xingar na rede social e te acusa de "clubismo", sempre é.

A maior vítima do clubismo de verdade nos últimos anos chama-se Vinícius José Paixão de Oliveira Júnior, nasceu em São Gonçalo, há 21 anos, e tornou-se profissional de futebol oriundo das categorias de base do Flamengo.

Este é seu maior "crime", para muitos ativistas de redes sociais. E olha que ele nem é daqueles que só fala no Flamengo, até o Vidal faz mais isso do que Vinícius Jr.

Ao longo dos últimos quatro anos, Vinícius passou de promessa contratada a peso de ouro pelo Real Madrid (45 milhões de euros quando nem profissional era ainda) a jogador titular do maior clube de futebol do mundo, autor do gol do título europeu, visto por bilhões de pessoas mundo afora. Hoje, indiscutivelmente o melhor jogador brasileiro em atividade.

Este processo foi naturalmente duro. Muitos ficam pelo caminho, alguns outros tantos não atingem o que se esperava deles. Algumas críticas a Vinícius Jr eram pertinentes em relação à evolução dele como jogador. Apesar das ressalvas ("tem só 18 anos", "tem só 19 anos", "tem só 20 anos", etc), era natural haver a dúvida se ele estaria ou não à altura do clube e do que dele se exigia.

O problema é que o grosso das críticas nada tinha a ver com isso. As pauladas que Vini Jr tomava e segue tomando deve-se a um fato, apenas um: ter saído do Flamengo. É o ódio pelo Flamengo, clube mais popular do Brasil - e recentemente muito ganhador, portanto, simultaneamente clube mais impopular do Brasil -, que gera a crítica. Isso não é chute, é fato. Basta olhar os perfis de quem mais dá porrada em Vini Jr. Aliás, muitas das pedradas com conotação racista.

O garoto sofreu quieto por anos e a razão é uma só: clubismo. O verdadeiro clubismo. A incapacidade de dissociar a imagem de Vinícius Jr da imagem do Flamengo. Eu confesso que não me lembro de algo parecido com isso.

Acho até que Gabriel Jesus seja vítima também, em menor escala, por ter sido cria do Palmeiras. Aliás, está claro que, no mundo irreal das redes sociais, Vini Jr e Jesus viraram "vítimas parceiras" em função da crescente rivalidade entre Flamengo e Palmeiras.

Se voltarmos no tempo, nos lembraremos de algumas demonstrações bairristas históricas no Maracanã - vaias a Julinho Botelho, Raí, Cafu... Sempre existiu certo bairrismo, certo clubismo por parte de alguns torcedores quando o tema era seleção brasileira e as escolhas da vez. Mas algo tão duradouro e agressivo como o que vemos com Vini Jr?

Hoje, o garoto é um dos cinco jogadores mais caros do planeta (nem é mensurável, pois o Real Madrid não venderia nem por decreto), termina a temporada com 22 gols e 20 assistências, foi o parceiro ideal do futuro Bola de Ouro (Benzema), é campeão europeu, é campeão espanhol e, o principal, mostra uma atitude incrível em campo.

Para elogiar Vinícius, contarei uma pequena história. Em 2018, depois da Copa do Mundo da Rússia, passei um tempo em Portugal. No aeroporto, voltando ao Brasil, cruzei com Roberto Carlos - ele estava envolvido em algo lá na eleição do Sporting. Conversamos sobre Vinícius e eu expressei minha opinião: achava que o Real Madrid deveria deixá-lo mais tempo no Flamengo, para adquirir experiência, vitórias, derrotas, elogios, críticas, saber lidar com tudo o que envolve um clube gigante. Roberto fez uma careta e me disse: "Muito mais importante formá-lo desde cedo lá no Madrid". Para Roberto, seria melhor para o clube tê-lo jogando a segunda divisão no Real Castilla do que o Brasileirão.

Nossa sociedade tem a cultura de passar a mão na cabeça de ídolos e celebridades, somos muito mimados e pouco profissionais quando o assunto é futebol. Eu estava errado. Será que a mentalidade de Vinícius - ultraprofissional, um cara que erra e segue tentando, persistente, perseverante, humilde - não seria outra e o ótimo perfil atual não teria sido arruinado se ele tivesse passado dois ou três anos a mais por aqui?

Basta ver o que foi a carreira do outro Júnior, Neymar, para tentar imaginar uma resposta. Aliás, em uma entrevista à TNT Sports, veiculada no intervalo da final da Champions, Neymar escolheu Vinícius como melhor do mundo na temporada. É óbvio que foi uma patriotada e ele não acredita nisso. E tampouco deve acreditar que Vini Jr seja o melhor jogador brasileiro da atualidade. Mas é. Tomem essa, haters.