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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Visão do Madridismo: No Real, o jeito de vencer importa mais que no Barça

Vinicius Jr. exibe o troféu na comemoração do título espanhol pelo Real Madrid - Isabel Infantes/Reuters
Vinicius Jr. exibe o troféu na comemoração do título espanhol pelo Real Madrid Imagem: Isabel Infantes/Reuters
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

03/05/2022 04h00

(O texto abaixo foi escrito pelo amigo Eduardo Álvarez. Madrilenho e madridista, casado com brasileira e atualmente vivendo em São Paulo, Edu é colaborador da BBC Radio e Football España, ex-ESPN FC. É um torcedor assumido do Real e permitiu que eu publicasse suas ideias aqui no UOL - o texto foi originalmente publicado em língua inglesa e teve grande repercussão lá fora. ATENÇÃO: Ele não expressa minha opinião. Falarei sobre o tema em um post futuro. É um ponto de vista do madridismo, que contrapõe o que ele chama de "narrativa" criada em Barcelona - a do estilo acima de tudo, inclusive das vitórias. A última parte do texto reflete bem o pensamento do Edu, que é meu companheiro de Lives na página do Futebol Sem Fronteiras junto com Joaquim Piera, representante do barcelonismo. "Ganhar não nos faz esquecer um mal desempenho. E isso parece acontecer com muita frequência em outros clubes que se gabam de o oposto". Vale muito a leitura, divirtam-se:

POR EDUARDO ÁLVAREZ

Antes de começar, vou me apresentar em termos futebolísticos: sou torcedor do Real Madrid desde criancinha, nascido em Madrid, de família madridista desde o meu avô Joaquín, que ia a pé ao Santiago Bernabéu, quando o estádio ainda estava rodeado por quilômetros de árvores e mato. Vi meu primeiro jogo ao vivo em 1982 (Real Madrid x Ujpest Dozsa, pela antiga Recopa) e, depois de frequentar muito o Bernabéu de forma avulsa ? pagava menos de seis euros pelo ingresso naquela época ?, virei sócio quando ganhei meu primeiro salário, em janeiro de 1995, na conhecida como Liga do Valdano. Nunca mais renunciei à minha carteirinha, mesmo vivendo fora.

O DNA barcelonista e o Madrid "sem estilo" - Mas vamos ao que interessa. A máquina de marketing que virou o FC Barcelona tem criado uma narrativa comprada pela maioria da mídia, dentro e fora da Espanha. A narrativa possui duas partes: primeiro, o Barcelona tem um DNA próprio, original, que não mudou desde a fundação do clube, e que para eles é até mais importante do que conquistar torneios, porque o Barcelona apenas ganha quando joga de forma fiel a esse DNA ou estilo de jogo. Segundo, o Real Madrid ? clube, torcedores, presidente, jogadores ? só quer saber de ganhar e tanto faz a forma de jogar (sempre que o time terminar vencendo).

Posso entender que os torcedores deles repitam este mantra até cansar, é quase uma forma de afirmar que a religião deles é a correta. Mas fico enormemente frustrado quando escuto fãs do Real Madrid falando estas bobagens que não têm a menor base, e o pior é que cada vez são mais ouvidas entre alguns dos próprios madridistas, que pedem para o Real Madrid adotar um estilo de jogo próprio.

Comecemos pelo Barcelona, embora não seja este o foco do artigo. O DNA do Barcelona não é mais que uma cópia do estilo de jogo do Ajax, trazida ao clube catalão quando Cruyff foi treinador lá no fim dos 80s e começo dos 90. O Barcelona já existia há mais de 90 anos antes de o holandês virar treinador, portanto eles jogam desta forma há apenas uns 30. Resumindo, o estilo de jogo nem é original, nem é próprio, e o Barcelona jogou muitos mais anos com outros estilos de jogo do que com o atual. Aliás, isso não quer dizer que eles não gostassem do futebol bem jogado antes do Cruyff, só que agora eles apenas entendem como correta uma única forma de jogar bola. Viraram talibãs.

Mais um ponto importantíssimo, que o meu querido Joaquim Piera sempre comenta nas nossas lives do futebol espanhol: nunca houve um treinador mais obcecado com ganhar do que Cruyff. Ele simplesmente detestava perder. Para vencer, ele renunciava ao DNA, ao terceiro jogador, ao jogo de posição e à própria mãe, se necessário.

Eu já vi o Guardiola perseguindo Butragueño ao redor do Bernabéu durante 90 minutos, numa marcação homem a homem que, pelo que me contam, é completamente proibida no livro de estilo do Barcelona. Naquele momento, Cruyff sabia que o time dele era inferior, e fez a equipe jogar como um clube pequeno para tentar conseguir um resultado positivo. E mais: muito frequentemente Cruyff reservava um substituto ? na época em que apenas dois eram permitidos! ? para colocar em campo o zagueiro Alexanco como centroavante nos últimos 15 minutos do jogo, se o resultado não fosse favorável. Mais uma vez, o holandês queria ganhar, isso era o mais importante. Vitórias primeiro, estilo depois.

Aliás, Cruyff só manteve o emprego no Barcelona ? e graças a isso o clube conseguiu ganhar quatro ligas seguidas e a primeira Champions ? porque ele conquistou a Copa do Rei, em 1990. Se vocês tiverem a paciência de assistir aquele jogo, é uma das demonstrações mais violentas de jogo defensivo que eu lembro por parte do Barcelona. Apenas um exemplo: Guillermo Amor bateu no Rafael Martín Vázquez, naquele momento o melhor jogador espanhol, de forma brutal o jogo inteiro. Apenas dois exemplos são suficientes se vocês quiserem dar uma olhada nos minutos 12:21 e 52:14 deste vídeo.

Essa final de Copa aconteceu no final do segundo ano de Johan no banco do Barcelona, e até aquele momento ele não tinha conquistado nenhum título. Antes do jogo, o presidente Núñez havia deixado bem claro que Cruyff não podia passar duas temporadas sem ganhar nada, apesar do bendito DNA, portanto essa vitória salvou o holandês de ser demitido. E o título chegou de uma forma bem diferente da balela do DNA que ouvimos hoje até cansar. De novo, Cruyff simplesmente fez o que achou melhor para ganhar aquele jogo, e não me lembro de nenhum barcelonista se queixando do estilo nem do Barcelona devolvendo a Copa por não ter jogado do jeito certo.

Depois de Cruyff, acredito que apenas Van Gaal, Pep Guardiola, Tito Vilanova e, agora, Xavi Hernández (apesar dos 250 cruzamentos por jogo) têm mantido certa identidade fiel àquele DNA. Martino, Luis Enrique, Valverde, Koeman ou até Setién fizeram as respetivas equipes jogarem de formas diferentes, não necessariamente piores ou menos eficientes em alguns casos. E todo aquele relato sobre jogar do jeito certo para que a vitória seja consequência fica bem complicado de justificar quando lembramos que Ernesto Valverde foi mandado embora depois de que o Barcelona jogasse um dos melhores jogos sob gestão dele, na derrota contra o Atlético na Supercopa espanhola. Eles mereciam ter feito sete gols, mas perderam o jogo. A performance não importou, o resultado, sim. E agora, com Xavi, a ideia geral está lá, mas vemos contra ataques rapidíssimos e cruzamentos sem parar que não são exatamente o que o relato do jogo de posição nos vende.

Resumindo, essa narrativa é superlegal até que você tenha que ganhar partidas de verdade. Neste momento, o blábláblá vai para o lixo e você usa a abordagem mais efetiva para que a equipe ganhe, seja ela manter a posse ou o jogo direto.

GANHAR NÃO GARANTE O EMPREGO NO REAL MADRID - Mas vamos falar do Real Madrid. No caso dos madridistas, acho que somos o único clube que mandou embora dois treinadores dias depois de ganhar La Liga ? Fabio Capello e Vicente del Bosque ? e mais um que estava na liderança, Radomir Antic. O sérvio perdeu o emprego depois de derrotar o Tenerife no Bernabéu, algo realmente incrível. O clube liderava o campeonato com três pontos sobre o segundo classificado, mas o presidente naquela época, Ramón Mendoza, comentou que ele tinha gostado muito mais do jogo do Tenerife e que não dava mais para aturar a abordagem tediosa do Antic. O estilo era importante, até mais do que o resultado. Por sinal, o Real Madrid perdeu aquela liga.

E o Capello? No 28 de junho de 2007, Pedja Mijatovic, diretor técnico do clube, anunciou que Capello tinha sido mandado embora depois de ganhar um dos campeonatos mais memoráveis da história da Espanha. Depois de um começo horroroso, o italiano reorganizou a equipe no Natal e, num returno espetacular, o Real Madrid ultrapassou o Barcelona e ganhou o título. Segundo o relato barcelonista, isto deveria ser suficiente para o torcedor madridista, não? Apenas ganhar importa. Porém, Mijatovic não concordava:

?O público questionava todas as decisões de Capello. Eles pediram a cabeça dele sem parar. Não acreditamos que ele seja a pessoa certa para jogar do jeito que queremos jogar?. Mais uma vez, o estilo importou mais do que a vitória.

E, finalmente, Vicente del Bosque, mandado embora depois de ganhar o campeonato de 2003 porque Florentino queria um treinador mais moderno (?), e aquele título não era suficiente. O presidente teve até que lidar com uma revolta no vestiário, já que os jogadores queriam que Del Bosque ficasse. Mais uma vez, a forma de jogo foi mais importante que um título.

Se vocês conseguirem citar uma vez em que o Barcelona mandou embora um treinador vitorioso, ficarei bem surpreso. O caso de Valverde é bastante claro e mostra que, enquanto ele ganhou jogando bem, longe do que o DNA pedia, manteve a cadeira. Assim que ele parou de ganhar, foi para a rua.

E parece ridículo ter que falar isto, mas evidentemente ganhar é MUITO importante para qualquer equipe, como acontece em qualquer esporte competitivo. Caramba, é o objetivo de qualquer time, independentemente do tamanho. Por isso existem os placares. Se o resultado não fosse importante, não contaríamos os gols?

No caso do Real Madrid, ganhar também é fundamental, e nós, torcedores, queremos que o time faça o maior esforço possível para conseguir um resultado positivo. O canto ?Hasta el final, vamos Real? representa muito bem esta cabeça do torcedor madridista. O time pode até perder, mas tem que tentar até o último segundo do jogo, e acredito que essa atitude e essa mentalidade são chaves nos resultados da equipe.

Dito isto, é uma bobagem gigantesca pensar que o Bernabéu não se importa com a forma de ganhar. De novo, mandamos três treinadores bem-sucedidos embora porque não gostávamos de como o time jogava. Não conheço nenhum outro time de ponta no mundo que possa dizer algo igual.

ESTILO É MUITO MAIS QUE UMA FORMAÇÃO TÁTICA - Mas então, qual é esse estilo? Esta é a conversa mais relevante, e não é fácil de explicar em uma fase do futebol em que tudo ficou reduzido à tática. Hoje muitos torcedores assumem que o estilo é igual à formação tática, e para mim tem muitos mais elementos relevantes para definir o estilo de uma equipe.

O estilo inclui não apenas a tática ou tua visão sobre manter a posse de bola ou esperar ao contrário, senão também o perfil dentro e fora do gramado dos jogadores que você contrata; a intensidade da equipe em todos os jogos, independentemente do oponente; a obrigação de ter que fazer mais um gol mesmo que você já esteja ganhando o jogo; o lugar onde você coloca sua zaga... Isto é um jogo de equipe, e por isso mesmo ele demanda tanto trabalho qualitativo e de motivação quanto tático. As equipes são feitas de pessoas, não de robôs. E, para o Bernabéu, isso é quase mais importante do que a tática.

O BERNABÉU É QUEM DECIDE COMO JOGA A EQUIPE - Mas o que significa jogar bem para o Real Madrid? Bom, significa o futebol que o Bernabéu gosta de assistir, e, mesmo que isso possa parecer genérico, é incrivelmente específico. O estilo Madridista, guardado de forma fiel pelo estádio e os torcedores que o frequentam, passa de pais a filhos enquanto eles assistem às partidas no Bernabéu e, no seu ponto mais profundo, nasce de ter visto o Alfredo di Stéfano jogar.

O mais importante: você está no gramado para ganhar o jogo pela maior diferença de gols possível. Para isso, você precisa ter a bola e tentar fazer gol constantemente. Sei que pode soar pouco claro, mas já elimina várias abordagens táticas, perfis de jogador e, evidentemente, treinadores. Uma das performances mais tristes que eu lembro na minha vida aconteceu este ano, e não foi o 4-0 em casa contra o Barcelona, senão o 1-0 em Paris contra o PSG. O time nem tentou passar da metade do campo. Não consigo entender o Real Madrid jogar daquele jeito.

Bom, e o que achamos da abordagem focada na posse de bola? Jorge Valdano tem uma frase bem clara para isto. Segundo ele, os torcedores no Bernabeu não têm muita paciência para um futebol excessivamente elaborado. ?Eles querem o caminho mais curto até o gol?, o que é uma descrição excelente do que eu já vivi no estádio.

Por exemplo, durante os últimos anos temos sido privilegiados por desfrutar de um dos melhores trios de meio campo da história ? Casemiro, Kroos, Modric ? mas o perfil dos três não é de trocadores de passes. Eles sempre movimentam a bola com o gol na cabeça, tentando achar os atacantes em posições de vantagem e mantendo Benzema feliz com muito envolvimento dele no jogo. E agora que o relato do Barcelona está por todas as partes, vou usar jogadores deles para ilustrar este ponto: para o gosto do Bernabéu, Cesc Fabregàs teria encaixado muito melhor do que Xavi ou Iniesta, sendo estes dois jogadores autênticas lendas do futebol espanhol e mundial.

Sobre as formações táticas, e sei que isso parece heresia neste contexto de obsessão pela análise detalhada de cada lugar que ocupa um jogador no campo, sinceramente não estamos nem aí. Tudo o que eu falei anteriormente ? atitude, procura do gol, futebol rápido e direto ? é muito mais importante do que se a equipe usa 4-3-3 ou 4-2-3-1. Isto posto, é difícil para mim imaginar o Real jogando com cinco na zaga ? mas Del Bosque usou essa formação alguma vez na Champions e funcionou bem. De novo, movimentação rápida da bola e vontade de fazer gol são muito mais importantes que formações e teorias posicionais.

O estilo do Real Madrid deve ser vertical, rápido, não especulativo. O Bernabéu aprecia um time que joga a um toque só, e este é um ponto que qualquer treinador que chega aprende imediatamente. O primeiro gol no jogo contra o Chelsea em Londres é um exemplo excelente. Troca de passes rápidos, movimentação da bola de lado a lado, passe em vantagem para o ponta, cruzamento, gol. O Bernabéu tem visto esse tipo de jogo nos anos 50 com Di Stefano e companhia, nos 60 com os Ye-yes, nos 70 com os alemães, nos 80 com a Quinta do Buitre, nos 90 com Valdano, Heynckes e Hiddink, nos 2000scom Del Bosque e até Pellegrini, e nos últimos anos com Zidane e Ancelotti. Não queremos nada intensivo taticamente, nem passes para trás, nem a posse apenas para ter a bola. O Bernabéu exige ação.

E ISTO DEMANDA UM PESSOAL (TREINADOR, JOGADORES) BEM ESPECÍFICO - Em um clube como o Real Madrid, você precisa de um treinador que saiba como motivar os jogadores e mantê-los com fome para ganhar cada partida, não um micromanager falando para um craque mundial que ele deve se mexer dois metros para a direita. Por isso, quando aparecem rumores sobre quem pode treinar o Real Madrid, prefiro treinadores menos intensos taticamente (Ancelotti ou Zidane) e que deem liberdade para os jogadores se expressarem no gramado. Perfis como os de Benítez ou Lopetegui não funcionam bem, e olha que sei bem que eles gostam de ganhar, mas não imagino um Real Madrid cheio de estrelas jogando como uma equipe de pebolim.

Sobre os jogadores, é evidente que devemos ter jogadores de perfil ganhador no time, mas eles têm de saber jogar bola. Alguns exemplos atuais: Modric e Kroos entenderam o clube até melhor que alguns madridistas antigos em relação à movimentação da bola e a vontade de fazer mais um gol, e o Vini Jr é 100% Real Madrid quando ele insiste, insiste e insiste sem ficar abalado quando erra.

Da mesma forma, não gostamos de jogador ou treinador chorão, esses encaixam melhor lá no estádio Spotify. Não reclamamos da altura do gramado, da chuva, do que grita a torcida contrária ou do dia da semana em que acontecem os jogos. José Mourinho me perdeu completamente quando se queixou do Sporting Gijón porque eles jogaram com o time B contra o Barcelona e usaram o melhor time deles contra o Real Madrid. Mou, pelo amor de Deus, é o Sporting Gijón. Você é o treinador do Real Madrid. Nem deveria mencionar assuntos deste tipo. Ganha o jogo e a vida segue, você está me fazendo sentir vergonha alheia.

E voltando a Di Stefano: não respeitamos jogadores talentosos que não se esforcem, e tratamos mal os jogadores perna de pau mesmo se eles se esforçarem muito. De fato, estamos procurando um novo Di Stefano em cada jogador que vemos, e aplicamos esse mesmo nível de exigência a cada jogador que se veste de branco. Por isso somos exigentes, chatos e difíceis de convencer.

NÃO FICOU CLARO? PRESTE ATENÇÃO NO PÚBLICO DO BERNABÉU - Se tudo isto parece absurdo no contexto atual, em que a mídia e alguns torcedores madridistas compraram a balela do ?ganhar de qualquer jeito?, prestem atenção ao que acontece na arquibancada do Bernabéu até nos jogos mais tensos. Mesmo quando o time joga bem, se algum jogador parar uma jogada que parecia promissora com um passe atrás, ou controla mal um passe bom em situação de vantagem, ou não participa do jogo tanto quanto deveria, ele vai ouvir o Bernabéu. São as famosas vaias.

O Bernabéu é conhecido por elas, e você pode muito bem achar absurdo, mas são uma ferramenta excelente para que o treinador entenda que o time tem que jogar rápido, que ele não pode ficar feliz com um 1-0 e para que os jogadores não percam intensidade ou joguem de forma tímida. Com muitíssima frequência as vaias acontecem independentemente do resultado, ou até com placares folgados a favor da equipe. Já vi uma quantidade absurda de vaias depois do jogo acabar com vitória do Real Madrid, é a forma do torcedor mostrar rejeição por um mal jogo e de corrigir quem não jogou como se esperava. É a nossa maneira de manter o estilo do qual gostamos, e é absurdamente eficaz. Nenhum jogador pode dizer que não sabia, que não foi avisado: o estádio inteiro falou para ele que não estava cumprindo sua parte.

Concluindo, é isto mesmo: os 60 mil sócios de um clube com torcedores no mundo inteiro determinam a forma em que o time joga em muito maior medida que o treinador, os jogadores ou o presidente. E eles sabem muito bem o que, para eles de forma bem subjetiva, é jogar bem.

Todos os clubes gostariam de vencer cada partida. Nem todos os torcedores demandam que isso aconteça com intensidade, velocidade e categoria. Esse é o estilo do Real Madrid.

Para fechar: ganhar não nos faz esquecer um mal desempenho. E isso parece acontecer com muita frequência em outros clubes que se gabam de o oposto.