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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Os fatores que podem fazer a seleção vencer (ou perder) a Copa-22

Tite e Neymar durante jogo da seleção brasileira contra o Equador - Lucas Figueiredo/CBF
Tite e Neymar durante jogo da seleção brasileira contra o Equador Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

01/01/2022 10h30

Começa um novo ano e é um ano especial para quem gosta de futebol. É ano de Copa do Mundo! Uma Copa diferente, jogada no Oriente Médio pela primeira vez e marcada para o fim do ano, por causa do calor. O Mundial será realizado no fim da temporada sul-americana, mas no meio da europeia. Isso será uma vantagem - e não uma desvantagem - para o torneio. A Copa em fim de temporada encontra muito mais jogadores lesionados ou desgastados, enquanto um Mundial no fim do ano deve ter menos desfalques e mais atletas bem fisicamente. A maioria dos caras joga na Europa, portanto, boa notícia.

E a seleção brasileira? Pode trazer o hexa?

Depois das três finais seguidas entre 94 e 2002, com tetra e penta, o Brasil foi eliminado quatro vezes consecutivas por europeus. Três nas quartas de final (França-06, Holanda-10 e Bélgica-18) e uma na semifinal (Alemanha-14). As derrotas nas quartas foram todas apertadas, jogos que poderiam ter ido para um lado ou para o outro. A derrota para a Alemanha dispensa comentários. O time de 2014 era o pior destes todos, apesar de ter chegado mais longe.

A realidade do futebol de seleções é de total equilíbrio. Foi-se o tempo em que três ou quatro países tinham real superioridade sobre os outros. A Itália, campeã da Europa há apenas seis meses, está enfiada em uma repescagem difícil e talvez nem mesmo se classifique para a Copa. Há um grupo de umas dez seleções que têm essencialmente o mesmo nível e outras dez que, em jogo único, podem tranquilamente ganhar também.

A França, que claramente pertence ao primeiro grupo e é apontada por muitos como a melhor seleção do mundo (é, de fato, a mais forte, mas não tão na frente assim), foi eliminada na Eurocopa pela Suíça, uma típica seleção do segundo grupo.

Como a seleção brasileira chega a 2022? O Brasil está inserido no primeiro grupo. Está entre as melhores seleções do mundo, pode ganhar de qualquer uma ali, mas também pode perder de qualquer uma do grupo que está abaixo. Esta é a realidade. Já faz tempo que o Brasil não é o melhor do mundo, é por isso que o nível de exigência de parte da mídia e torcedores é completamente desproporcional à realidade. É um nível de exigência baseado em história, não no presente.

A seleção chega com uma vantagem em relação a parte da concorrência: ter o mesmo técnico. Entendo as críticas a Tite, mas é importante no futebol ter continuidade e conhecimento mútuo entre treinador e comandados. Tite terá mais facilidade que alguns outros técnicos para a tomada de decisões.

Vejo dois grandes problemas que precisam ser superados para que o Brasil chegue ao hexa. Um é com Tite. Ele é muito bom, é um grande conhecedor do jogo, é um cara antenado. O que vejo Tite fazer pouco é pensar fora da caixa. Quando chega uma Copa do Mundo, um torneio tão curto, muitas vezes é necessário abandonar algumas ideias e assumir outras. Arriscar. Fulano jogou todo o ciclo com Tite, mas na hora H está mal? Paciência. Beltrano nunca foi nem convocado, mas explodiu entre agosto e outubro, já na temporada 22-23, mostrando qualidade em alto nível? Tem que levar e possivelmente jogar. O jogo pede um sistema de três zagueiros? Então tem que ir nessa.

Encontrar a mescla entre estabilidade e novidade, o que está posto e o risco. Este é o segredo. É nesse aspecto que tenho menos confiança em Tite. Porque de resto - convocar bem, analisar todos que precisam ser analisados, formar grupo, contar com bons profissionais em volta - dá para confiar plenamente. Com a recente convocação de Raphinha, do Leeds, Tite sinaliza que está disposto a tentar coisas novas e inesperadas.

O segundo problema que precisa ser superado é mais complexo. É fazer os jogadores encontrarem o ponto exato de tensão. Sinto, em Copas do Mundo, que a seleção brasileira é a que chega mais pressionada sempre. É importante ter a adrenalina da busca pela vitória, é importante lutar até o fim, focar no objetivo, tudo isso. O problema é quando passa do ponto. A tensão vira medo de perder. Jogadores sabem que perder uma Copa do Mundo pode marcar uma carreira, uma vida.

Aí, volto ao ponto anterior deste texto. Há uma pressão desproporcional por parte de muita gente, não só na mídia, mas até mesmo em torno dos jogadores (familiares, amigos, etc). É gente que não entende que a realidade do futebol mudou e só olha para cinco estrelas. Os atletas precisam tentar deixar isso de lado. E precisam adotar discurso e atitude diferentes. É necessário abandonar o "complexo de pitbull" do Brasil em Copas do Mundo, achando que a seleção, pela história, tem a "obrigação" de ganhar sempre e que os outros estão todos abaixo.

É preciso se colocar como uma seleção forte, que pode ganhar, mas sem considerar o fim dos tempos uma eventual derrota. É preciso competir, isso sim. Como eu disse, encontrar o ponto certo em que o desejo da vitória seja mais relevante do que o medo da derrota.

Estes dois pontos são fundamentais para o Brasil voltar a ganhar. E, lógico, tem toda a parte técnica e tática. O time tem alguns buracos, especialmente nas laterais. Mas tem também muito, muito talento.

Tem alguns dos melhores goleiros e zagueiros do mundo, o primeiro volante mais dominante da última década, um armador-finalizador com o tamanho de Neymar. Vários jogadores de lado de campo crescendo, como Vinícius Jr, Raphinha e Anthony, caras de frente capazes de desempenhar na grande liga de clubes do mundo. Enfim, tem material humano para montar uma seleção bastante competitiva e talentosa.

Neymar é um capítulo à parte. A questão de não absorver todo o peso, toda a pressão do mundo, vale principalmente para ele. O choro naquele jogo contra a Costa Rica, em 2018, é o melhor exemplo disso. Neymar tem um entorno, comandado por seu pai, que atrapalhou bastante a carreira dele. Essa coisa de um monte de bajuladores que o convenceram de que ele era o melhor do mundo, etc e tal. São pessoas que, no afã de ajudar, atrapalham.

Se Neymar conseguir se desvencilhar disso e jogar uma Copa do Mundo do jeito que ele jogou pelo Barcelona e joga pelo PSG - ou seja, com a responsabilidade profissional de desempenhar bem, mas sem o fardo de levar tudo nas costas e ser o grande centro do mundo -, ele irá conseguir ter um rendimento bem superior ao que teve em 2014 e 2018.

Eu acredito que o Brasil tenha totais condições de ganhar a Copa. Mas sabemos qual o caminho para isso. Precisa ganhar confiança na fase de grupos, vai acabar passando pelas oitavas e aí serão três jogos. É importante não mudar tanto de rota por causa de uma ou outra coisa que não agrade nos jogos iniciais. Pode dar uma sorte ou outra nos cruzamentos, mas serão essencialmente três jogos (a partir das quartas) contra as seleções ou do primeiro grupo (de favoritas) ou do segundo (aquele segundo escalão europeu e sul-americano, sempre competitivo).

Dá para acreditar. Mas com pés no chão.