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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Cuca faz bem em criar calendário próprio e escapar dos Estaduais

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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

30/12/2021 04h00

Cuca sempre encontra um jeito de não estar nos Estaduais. Não estou, com isso, dizendo que ele tenha inventado problemas pessoais para deixar o Atlético Mineiro e, antes, Santos, São Paulo, Palmeiras. Mas há problemas pessoais ou opções de vida com as quais podemos lidar de uma forma em uma situação, de outra forma em outra situação.

Em uma temporada normal de futebol, há um ciclo natural. Início, meio e fim. No Brasil, não. Há dois inícios, três meios e mais de um fim. E Cuca sabe disso. O primeiro semestre é uma desgraça para treinadores de futebol. O segundo funciona de uma maneira menos anormal, brutal, criminosa, até, para a classe.

O ciclo aqui geralmente é assim: o cara começa o ano carregando um passado recente bom, aí se desgasta nos Estaduais e cai no começo ou antes do começo do Brasileiro. Ou então começa um trabalho no começo do ano, se desgasta, "mas ainda é início", e depois vai cair no meio do Brasileiro ou vai ficar até o fim, pois os resultados agradaram. Este último caso foi o de Cuca em 2021. Geralmente só acontece com um ou dois.

No primeiro semestre, há pouco a ganhar e muito a perder. Há mais tempo de trabalho, margem de manobra, é verdade. Mas este tempo de trabalho não serve para rigorosamente nada, ele não irá ser compensado mais adiante. No segundo semestre, os times sofrem muitas mudanças de elenco e o calendário insano faz com que os jogos importantes fiquem encavalados. É muito desgastante, mas pelo menos é um desgaste que tem razão de ser, tem objetivo, tem o "muito a ganhar", não só a perder.

Todos devemos cuidar bem de nossa saúde - na medida do possível. A física e a mental. Se for para se jogar de corpo e alma no trabalho, é óbvio que um técnico de futebol prefere um semestre como são nossos segundos do que a primeira metade do ano.

Cuca pode escolher e escolhe. Depois de ganhar Brasileiro e Copa do Brasil com o Galo, o que sobra para ele em 2022? Desgaste. Sofrimento. Tempo longe da família. Corpo e mente sendo "queimados". A troco de quê? Pouco, bem pouco.

Foi o mesmo cálculo ao deixar o Santos, depois de uma improvável final de Libertadores. O mesmo cálculo ao deixar o Palmeiras, depois do título brasileiro - a temporada seguinte foi horrível e ele deve ter colocado na balança para tomar a decisão de deixar o Galo. O mesmo cálculo ao nem andar em frente com um São Paulo que não tinha muito para onde ir, na avaliação dele.

Cuca não adota tal discurso, mas suas atitudes, de alguma forma, jogam luz sobre o principal problema que faz o futebol brasileiro ter um nível abaixo do que deveria: o calendário.

Um calendário que não serve nem para clubes grandes nem médios bem pequenos. Que não serve para jogadores. Que não serve para treinadores competentes.

Logo mais, Cuca vai aparecer em algum lugar. Em 2022 no próprio Galo ou em 2023 em qualquer lugar. Para jogar o que importa. Para o Atlético, não é o pior dos mundos. Quem chegar (Jorge Jesus?), vai pegar a melhor situação que um técnico poderia pegar na história do clube. Time pronto, elenco bom, sem o fardo de ganhar o que passou cinco décadas sem ganhar, bem posicionado para ter mais uma temporada de glórias.

E Cuca passa, a partir de daqui a pouco, a ser o técnico mais desejado e cobiçado do país. Para começar um novo ciclo. E terminá-lo quando perceber que há muito mais a perder do que a ganhar.