PUBLICIDADE
Topo

Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Seleções europeias são fortes, mas não há abismo algum para o Brasil

Conteúdo exclusivo para assinantes
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/10/2021 04h00

Poucas horas separaram um grupo de jogos de seleções e fizeram muita gente saltar a conclusões que, digo eu, são precipitadas e não condizentes com a realidade. Itália 1 x 2 Espanha e Bélgica 2 x 3 França, pelas semifinais da Nations League da Uefa, foram senhores jogos de futebol. Na noite de quinta, as eliminatórias sul-americanas para a Copa tiveram dois jogos sem gols (Uruguai x Colômbia e Paraguai x Argentina) e uma tenebrosa atuação do Brasil contra a Venezuela, principalmente no primeiro tempo.

Conclusão? Há um abismo insuperável entre as seleções europeias e as sul-americanas, o Brasil não tem a menor chance de ganhar a Copa do Mundo.

Não posso discordar mais. O abismo que existe, sim, no universo dos clubes e Ligas nacionais de futebol, não tem nada a ver com o que ocorre no futebol de seleções. O futebol de clubes na Europa concentra os melhores jogadores do mundo, de vários escalões e procedências. No futebol de seleções, pelo motivo óbvio (nacionalidade), estes caras estão todos dispersos.

As seleções europeias são piores que os principais clubes dos países europeus, que transformaram-se em seleções globais. Já as seleções sul-americanas são melhores do que os clubes de seus países. Deem uma olhada, por exemplo, na escalação do Uruguai na partida de ontem, contra a Colômbia. É um time de muito respeito, com jogadores importantes de clubes protagonistas da Champions League.

Comparem, por exemplo, o Uruguai com a Itália, campeã da Europa. Ou a Colômbia com a Dinamarca, que faz campanha perfeita nas eliminatórias europeias. Não precisamos nem ficar no campo da teoria. Vamos à prática.

Na Copa de 2018, o Uruguai eliminou Portugal, então campeão da Europa. A Colômbia jogou melhor que a Inglaterra e foi eliminada nos pênaltis. A Argentina foi a adversária mais dura da França na caminhada rumo ao título, teve chances de vencer. E o Brasil fez um jogo mais do que parelho e respeitável contra a Bélgica, líder do ranking da Fifa há três anos. E se voltarmos a 2014 encontraremos uma final de Copa em que a Argentina jogou mais que a Alemanha.

Enfim, não faltarão exemplos. Perguntei a Deschamps se ele acha que só os rivais europeus estarão no caminho da França em 2022. Perguntem para a Alemanha o que eles acharam das partidas contra México e Coreia do Sul em 2018.

Ver a partida épica entre França e Bélgica assusta? Pode assustar. Mas, se a Bélgica ou França enfrentassem a Venezuela, não teriam a atuação que tiveram. Se o Brasil enfrentasse a Bélgica ou a França, não teria feito esse jogo que fez. A "comparação" entre os níveis é inútil. Contextos são contextos. Cada jogo é um jogo. Ação e reação.

O alto nível eleva o outro time ao alto nível. O baixo nível tem o mesmo efeito. Isso é muito comum em qualquer esporte. Sem contar elementos como a tensão (um jogo era decisivo, o outro não valia nada), a qualidade do gramado, etc.

Antes de virar a partida de ontem de forma incrível, a França havia empatado com Bósnia e Ucrânia, em setembro. Será que a Venezuela é pior que a Bósnia? Não acho. Níveis parecidos. As grandes seleções europeias fazem vários jogos burocráticos em suas caminhadas de eliminatórias e Nations League.

A falta de tempo para treinar e a dificuldade para encontrar um modo de jogador que encaixe com os jogadores chamados é um problema para todas as seleções, não só o Brasil. Olhem o mal que joga Portugal, com a quantidade de jogadores bons que tem. A própria França, campeã do mundo e claramente a melhor seleção de todas, nome a nome, acaba de ser eliminada da Eurocopa pela Suíça. Quando o Brasil empatou com a Suíça na Copa do Mundo, foi um terremoto.

É claro que há mais seleções europeias boas do que sul-americanas. É uma questão óbvia, de quantidade. É claro que estamos todos (europeus incluídos) no escuro com essa coisa de as seleções dos dois continentes não se cruzarem mais. Mas não há abismo nenhum.

França, Bélgica, Itália, Espanha, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Dinamarca, são todas seleções muito boas. Mas qualquer uma delas pode perder para Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia e até outras da América do Sul e outros continentes.

O abismo está no futebol de clubes, repito. E é aí que não podemos cair na armadilha (histórica) de ficar pedindo para Tite convocar e dar espaço para jogadores que se destaquem aqui no futebol brasileiro. Outro dia, havia lobby por Marinho na seleção. Marinho! Agora, Hulk, Bruno Henrique, etc. Qualquer um que brilha em um domingão por aqui já vira "jogador de seleção".

O ritmo do jogo jogado aqui não tem nada a ver com o que será visto na Copa do Mundo. Se Tite achar que o entrosamento e o fator surpresa são a coisa mais importante e ficar louco, OK, mande o Flamengo para a Copa do Mundo com a camisa da seleção. Tenho certeza que Neymar no lugar de Arrascaeta e Casemiro no lugar de Arão vão melhorar o que já é bom, e a defesa pode ser trocada. Mas ele não vai fazer isso, né? Ainda bem.

É preciso encontrar logo um time, e este time vai ser formado por quem joga na Europa, com os melhores, contra os melhores, adaptados ao ritmo, intensidade e arbitragens do futebol atual. Quanto mais Tite usa jogadores daqui, mas se confunde. Porque os caras são bons, as eliminatórias sul-americanas são competitivas, mas a Copa do Mundo está alguns degraus acima. A falta de entrosamento já é inerente ao futebol de seleções, é preciso encontrar logo a base e tocar com ela, como foi feito no curto ciclo de 2018.

Os jogos desta semana não me assustam. O Brasil continua forte e é candidato a ganhar a Copa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL