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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Grande problema do Brasil é que Tite não tem mais um time

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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

07/10/2021 22h24

Não é um problema vencer de forma apertada a Venezuela e nem seria um problema empatar, como quase aconteceu. O Brasil já está classificado para a Copa e este resultado da quinta-feira não significa nada. Para os desavisados, a Venezuela já deixou faz tempo de ser a baba de outrora. Tem jogadores espalhados pela Europa. É claro que é fraca no cenário sul-americano, mas é melhor do que um monte de seleção que acaba jogando a Copa. Essencialmente, compete - coisa que não fazia no passado.

O problema do Brasil é outro: é que Tite não tem mais um time. Em 2018, tinha. De 1 a 11. Agora, não tem.

A seleção não tem problemas no gol - qualquer um é acima da média. A seleção não tem problemas na dupla de zaga. Daí para frente, são dois titulares certos: Casemiro e Neymar, que não jogaram na Venezuela. É meio time. E o outro meio time? Pois é.

Conforme o tempo foi passando, alguns jogadores indiscutíveis ou que eram titulares nos planos de Tite foram perdendo espaço em seus clubes ou perdendo rendimento. Exemplos claros: Arthur, Firmino, Philippe Coutinho. Outros jogadores que não estavam nos planos foram ganhando terreno: Paquetá, Gabigol, Vinícius Jr, por exemplo. Garotos como Anthony, Raphinha, que entraram bem. Só que esses caras não tiveram muito tempo de trabalho com Tite e o encaixe em um time pré-montado não está sendo óbvio.

Jogar na seleção não é facil. Vejam como Arana, que está voando no Brasileiro, fez uma partida tímida. Vejam como Gabigol, que finalmente meteu um gol, o da virada, nem mesmo se lembrou de comemorar como o "Superman", como faz no Flamengo. É que a pressão é outra, os caras se preocupam com muitas outras coisas, não só jogar bola.

Então não é simples assim, bota esse, bota aquele. Uns crescem, outros se acanham, a química entre jogadores não surge do nada, tudo isso tem de ser construído. Com jogos, treinos, relacionamento, etc.

Este não é um desafio só de Tite, é de qualquer treinador de seleções. Mas o que aconteceu com o Brasil neste ciclo pandêmico de Copa do Mundo foi o fenômeno da dissipação do que era certo.

A seleção tem matéria-prima farta, mas de nível muito parecido. E este nível é bom, mas não extraordinário. Então é difícil fugir do "tem que jogar quem está melhor". E isso é algo que varia muito ao longo de um ano. A cada teste feito, as dúvidas de Tite só aumentam, não diminuem.

Vocês conseguiriam escalar a seleção que entraria em campo se a Copa começasse hoje? Eu até arriscaria, tentando pensar com a cabeça do Tite. E ainda assim erraria uns dois nomes. Ele não tem nomes certos para as laterais, para o segundo homem de meio de campo, para o comando de ataque. Não sabe bem a melhor maneira de usar Gabriel Jesus. Não sabe se joga com pontas agudos, como funcionou no segundo tempo contra a Venezuela, ou com meias armadores. A construção de jogo, o fluxo de saída de bola e os automatismos estão muito comprometidos.

Tite tem problemas. Não são os resultados. É o pouco tempo para construir um time sólido para a Copa do Mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL