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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por onde andaram Martine, Kahena e Thiago nos últimos 5 anos?

Martine Grael e Kahena Kunze comemoram bicampeonato olímpico na Baía de Enoshima - Clive Mason/Getty Images
Martine Grael e Kahena Kunze comemoram bicampeonato olímpico na Baía de Enoshima Imagem: Clive Mason/Getty Images
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

03/08/2021 14h00

Martine, Kahena e Thiago. Dois nomes incomuns, um bastante comum. Três nomes de Ouro. Quando o Brasil recebeu "sua" Olimpíada, cinco anos atrás, Kahena e Martine, no mar não tão azul da Baía da Guanabara, e Thiago, na pista bem azul do Engenhão, emocionaram o país.

Eram desconhecidos do grande público e ganharam provas apertadas, decididas no suspiro final. Ganharam duas das sete medalhas de ouro do Brasil na Olimpíada mais vitoriosa da nação. Hoje, voltaram a brilhar. Martine e Kahena deram um show de frieza e estratégia na regata da medalha, agora em águas japonesas. Outro ouro para elas. Thiago não foi campeão, mas subiu ao pódio de novo, com o bronze, depois de um ciclo olímpico que não indicava muitas chances de medalha. Um bronze que vale ouro.

Hoje, já sabíamos quem eram Kahena, Martine e Thiago. Não eram nomes novos. Já tínhamos ouvido falar delas e dele. Mas o que sabemos sobre os cinco anos entre as duas magníficas conquistas? O que sabemos sobre a jornada deles? Nada.

Isso mesmo. Nada. "Ah Julio, fale por você! Você é quem não sabia! Bastava procurar!".

Claro que bastava procurar. Hoje, encontra-se qualquer coisa com alguns cliques e uma boa busca. Sim, haverá uma notícia aqui e ali sobre as trocas de técnico de Thiago, sobre vitórias de Martine e Kahena. Mas quantas vezes elas e ele apareceram no Jornal Nacional? Ou na capa deste UOL? Ou pingaram no teu grupo de WhatsApp? Ou viraram trending topics do Twitter? Ou te foram recomendados pelo Facebook?

Agora pense no time de futebol olímpico do Brasil. Que hoje também mandou muito bem, vencendo nos pênaltis e chegando à terceira final consecutiva. Pensem nos jogadores deste time, que, convenhamos, exceto Daniel Alves, nem têm carreiras tão consolidadas assim. Pensem neles e pensem em quantas vezes você ouviu falar dos caras nos últimos cinco anos. Em quantos programas de televisão ou "lives" no YouTube você assistiu em que eles foram citados, analisados, dissecados, até. Pense em quanto já se conversou sobre o técnico do time de futebol e quanto se conversou sobre os técnicos do salto com vara. E pense em quem tem mais relevância para cada um do esportes.

Culpa de quem?

Por que sabemos tanto sobre Alisson e Santos, mas nada sabíamos sobre Alisson dos Santos? Por que sabemos tanto sobre Antony e Arana e Richarlison e nada sobre Kahena e Martine e Thiago?

No fim, há a indiscutível verdade: as pessoas gostam é de futebol. Não há problema que o futebol seja mais falado e consumido e analisado. O meu problema é com o completo descaso com o restante das modalidades - ou quase todas elas.

Por que isso acontece? É um conjunto da obra. O esporte nunca fez parte de política de Estado. Nunca foi priorizado por governo algum do jeito que tem que ser. Aliás, recentemente bradaram nas ruas pelo fim de um ministério para o esporte e pelo fim de leis de incentivo fiscal. Torram dinheiro público, é o que dizem.

E olhe que nem estou falando de falta de atenção ao alto rendimento. Estou falando de base, de esporte conectado à educação, da criação de cultura esportiva.

Para falar disso e fazer o gancho com a mídia - esta entidade disforme da qual faço parte -, quero comparar a cobertura olímpica que vejo no Brasil desde que desembarquei aqui, domingo à noite, com a cobertura que vi na primeira metade dos Jogos em Portugal, onde estava.

É muito melhor aqui. Mas assim... MUITO melhor. OK, Portugal é um país pequeno, não ganha tantas medalhas e é natural que a cobertura seja diferente. Mas eu já vivi os Jogos de 2004 na Europa também e posso dizer, com segurança, que, de forma geral, nossa cobertura televisiva e jornalística é realmente top. Contamos mais histórias, acompanhamos mais de perto os fatos olímpicos, transmitimos mais coisas, damos mais emoção.

Só que em Portugal existe uma TV pública passando os jogos. Aqui, não temos TV pública. E TVs públicas, que existem na Europa toda (a BBC é a mais famosa dela), podem tranquilamente transmitir esportes que não dão audiência. Elas têm, inclusive, a obrigação de fazê-lo. No domingo à tarde, vamos transmitir um jogo de handebol? Ou uma competição de vela? Ou um jogo de tênis, daqueles de quatro horas, ferrando a grade? Vamos passar um meeting de atletismo? Ou uma etapa de uma prova de ciclismo? Sim, vamos.

E o fato de outros esportes estarem nas TVs públicas ajuda a fomentar a cultura esportiva de um país. Ajuda a inspirar crianças, a mostrar para jovens que existe um mundo inteiro de coisas fora do futebol. Sem a ditadura da audiência.

Ditadura esta, diga-se, que só existe porque a mídia precisa de dinheiro de publicidade. E aí chegamos a outro problema. Por que tão poucas empresas privadas investem no esporte? Por que não há programas estatais que deem, sei lá, incentivos fiscais? Por que não há quase parcerias entre escolas e empresas para a construção de infraestrutura? Por que deixamos os clubes esportivos falirem e há tão poucos, hoje, que conseguem fazer alguma coisa com outras modalidades? Por que não conseguimos identificar talentos? Por que não estabelecemos um papel de consumidores em que priorizamos produtos de empresas que invistam no esporte?

Será que temos a noção do quão acidental é a maravilhosa ginasta Rebeca ter conquistado ouro e prata numa Olimpíada? Temos a exata noção de que bastava um diálogo a menos ou um desencontro a mais entre a tia e a professora de ginástica para que o fenômeno Rebeca nunca tivesse ocorrido? Temos ideia de quantas Rebecas ficam pelo caminho em nosso país a cada ano, a cada dia?

Programas estatais. O fomento do esporte como política pública. Prefeituras que invistam no esporte. Uma mídia menos escravizada pela audiência e mais atenta a sua missão social, especialmente as televisões (que são concessões, lembremos). Um jornalismo que fique com menos fala-fala sobre futebol e dê mais espaço para o resto das modalidades. Empresas mais antenadas com as causas e necessidades da sociedade.

Precisamos mudar essa lógica.

Senão daqui a três anos, quando Rebeca brilhar de novo em Paris, eu farei a mesma pergunta que fiz sobre Martine, Kahena e Thiago. "Por onde andaram?". E a resposta, tristemente, será a mesma. "Não sei".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL