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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com despedida do monstro Gasol, Espanha encerra ciclo surreal no basquete

Pau Gasol e Marc Gasol durante jogo da Espanha contra os Estados Unidos nas Olimpíadas de Tóquio - Xinhua/Pan Yulong
Pau Gasol e Marc Gasol durante jogo da Espanha contra os Estados Unidos nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: Xinhua/Pan Yulong
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

03/08/2021 12h26

A Espanha não era exatamente uma zero à esquerda no basquete. País de Real Madrid, de Barcelona, de uma cultura interessante de basquete, de uma liga forte. Mas a Espanha dos últimos 20 anos foi outra coisa. E foi outra coisa por causa de um certo Pau Gasol. Que não fez nada sozinho, obviamente. Ninguém faz. Nem nos esportes individuais, menos ainda nos coletivos. Mas há líderes. Há inspiradores. Há gente que faz os outros acreditarem. Há homens e mulheres que mudam o patamar de um time ou um país.

Pau Gasol se aposentou. Seu irmão, Marc, também anunciou que não jogará mais pela seleção. Nesta terça, chegou oficialmente ao final o ciclo dos sonhos do basquete espanhol. Veio com uma derrota honrosa para os Estados Unidos, que ainda chamamos de "Dream Team", mas que, convenhamos, já são bastante humanos. São os mais fortes do basquete e sempre serão, então perder para os americanos na bola ao cesto sempre será uma saída honrosa.

Vamos aos números.

Até o fim do século passado, a Espanha tinha no basquete masculino: uma prata em Olimpíadas (1984, quando houve o boicote das seleções do bloco comunista); em Mundiais, uma quarta colocação (1982); nos Eurobaskets, quatro pratas e um bronze em 31 edições.

Mas 20 anos atrás um certo Pau Gasol começou a jogar pela seleção e foi parar na NBA. Desde então, a Espanha conseguiu: duas pratas e um bronze olímpicos (2008, 2012 e 2016, sempre perdendo para os EUA); em Mundiais, foram dois títulos (2006 e 2019); nos Eurobaskets, três títulos, dois vice-campeonatos e três bronzes, ou seja oito pódios em nove edições.

A Espanha passou de uma seleção coadjuvante para uma protagonista no esporte, que é um dos mais populares do mundo e um dos mais competitivos do mundo. Uma jornada surreal. Americanos à parte, há um equilíbrio bizarro, com muitas forças europeias e ainda as seleções das Américas e da Oceania. O basquete não é como o vôlei. O basquete é visto e jogado no mundo todo, uma escala bem mais ampla.

No meio de toda essa epopeia com a seleção espanhola, Pau Gasol foi também campeão da NBA. E era um jogador fundamental ao lado de um tal Kobe Bryant, em uma parceria histórica para os Lakers. Abriu portas na liga americana para vários compatriotas e outros jogadores europeus.

Aos 41 anos, ele não sabe ainda se continuará jogando pelo Barcelona ou se vai se aposentar de vez do esporte. Mas o anúncio de hoje, de não jogar mais pela seleção espanhola, dá a sensação de carreira encerrada. Marc, por sua vez, continuará na NBA.

A Espanha será mais fraca nas próximas competições e terá de lidar com uma mudança de ciclo complicada, assim como aconteceu no futebol após seus anos mais vitoriosos. É um país que viveu glórias, que virou uma potência e que agora terá de olhar para frente sem a presença em quadra de seu maior jogador.

Pau Gasol foi um monstro. E, quando monstros chegam ao fim de sua jornada, só nos resta aplaudir. E agradecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL