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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Demissão de Tite a um ano da Copa seria absurda

Tite consola Neymar após derrota da seleção brasileira para a Argentina na final da Copa América - Alexandre Schneider/Getty Images
Tite consola Neymar após derrota da seleção brasileira para a Argentina na final da Copa América Imagem: Alexandre Schneider/Getty Images
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

12/07/2021 04h00

Fã do futebol dos times de Tite, nunca fui. De Tite, sempre gostei. Nestes cinco anos de Tite na seleção brasileira, creio que o treinador evoluiu no aspecto futebolístico. E derrapou no extra-campo.

Mas é quase impossível não derrapar sendo técnico da seleção brasileira. Além de ser o emprego mais contestado do planeta, o país não viveu exatamente uma calmaria neste período todo. É a era dos posicionamentos. Mas posicionar-se significa ser apoiado por metade do país, odiado pela outra metade.

Tite deixa muitas coisas evidentes nas entrelinhas, mas ainda assim exige-se dele que seja explícito, claríssimo, firme em suas posições. Oras bolas. É pedir demais, creio.

Em termos de futebol, acho que as críticas ao ciclo de cinco anos da seleção brasileira são para lá de exageradas. O Brasil perdeu a Copa? Sim. O Brasil perdeu 10 das últimas 12 Copas que jogou. Perdeu em 2018 jogando bem, para uma equipe tão boa quanto ou melhor. Nas eliminatórias, domina o continente como se estivéssemos nos anos 60. Ganhou uma Copa América, perdeu outra. Perdeu da Argentina, não perdeu de Honduras.

Todas as derrotas de Tite na seleção foram aceitáveis. Mas o brasileiro, aquele que acha que só se joga futebol aqui, segue considerando inaceitável qualquer derrota.

Aliás, esse negócio de troca de técnico sempre foi uma loucura no Brasil, mas nos últimos meses descontrolou de vez. E a imprensa tem parte da culpa, sim. A cada derrota, de time ou seleção, "tem que trocar". Como se jogassem contra ninguém do outro lado. Isso está funcionando assim no universo dos clubes, e na seleção ocorre da mesma maneira.

É um absurdo, a meu ver, pensar em demissão de Tite. O processo está aí. O Brasil melhorou muito em termos de futebol de 2016 a 2018. Depois da Copa, caiu. Mas os resultados voltaram. O jogo jogado é tão bom ou tão ruim quanto o de qualquer seleção, basta olhar para a Eurocopa. A intensidade é um ajuste fácil de fazer. Não consigo entender direito que tipo de futebol querem que a seleção jogue, um grupo que se reúne a cada X meses e nem tempo para treinar tem.

E tenho a nítida impressão que Tite usou a Copa América para testar muita gente. Foi um torneio esquisito, no meio de uma pandemia, com a bizarra troca de sede e a politização que tomou conta do processo. O Brasil nunca pareceu estar "dentro" do torneio, e isso, na minha opinião, fala bem de Tite, não o contrário.

No fim, foi um torneio de observação. Para saber com quem contar, quem pode jogar onde e por aí vai. Não tem cabimento algum mudar o técnico a um ano da Copa do Mundo. O Brasil chegará forte ao Catar com Tite. Sem ele, também será forte, mas menos.

A não ser que me tragam Guardiola, não vejo outra pessoa melhor do que Tite para seguir até 2022. Depois da Copa, ganhando ou perdendo, é outro ciclo. É outra história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL