PUBLICIDADE
Topo

Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que vou torcer pela Argentina na final da Copa América

Messi sorri durante treinamento da Argentina na Copa América - Gustavo Pagano/Getty Images
Messi sorri durante treinamento da Argentina na Copa América Imagem: Gustavo Pagano/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

09/07/2021 05h32

Eu não costumo torcer nem a favor nem contra a seleção brasileira. É uma relação profissional que tenho, do ponto de vista do jornalista, e que se moldou involuntariamente desde que comecei a trabalhar com isso, em 1998. Quatro anos antes, chorei como nunca quando a seleção ganhou o tetra. Eu tinha 15 e era meu primeiro título no futebol, já que meu time não ganhava nada - e segue sem ganhar. Depois disso, minha relação com a amarelinha mudou.

Já torci muito a favor, quando vejo a seleção jogando bem ou tenho boa relação com técnico, jogadores, etc. E também já fiquei indiferente a derrotas. Acho muito difícil dissociar a seleção do que é e representa a CBF, ainda que jogadores tenham pouco a ver com isso. E, hoje, acho muito difícil dissociar a seleção do sequestro político que ocorreu com sua camisa, de oito anos para cá.

Neste sábado, não sei nem se conseguirei assistir à final contra a Argentina - estou viajando com a família pelo interior de Portugal e a final será de madrugada. Conseguindo ou não ver a partida, prefiro que a Argentina saia campeã. E explico a grande razão.

A maior de todas: considero Messi o maior jogador que já vi, um dos grandes da história, e sei da "necessidade" de ganhar um título com a Argentina para que não fique uma injusta mancha em seu curriculum. Por que injusta? Porque creio que Messi já fez o suficiente para dar um título para a Argentina. Na Copa de 2014, nas Copas Américas de 15 e 16... Se não ganharam, não foi por causa dele. Foi apesar dele. Os gols perdidos por Higuaín nestas finais acabam tendo uma consequência histórica de fazer Messi parecer "apenas" um jogador de clube.

A Copa América não significa nada para o Brasil, que ganhou uma há dois anos e domina o futebol do continente. Todos sabem que o Brasil tem o melhor futebol da América do Sul, de longe. Mas, para a Argentina, seria um título em cima do grande rival, no Maracanã e saindo da fila de 28 anos. Sim, seria o suficiente para que Messi fosse colocado em seu devido lugar no imaginário coletivo de seu próprio país, talvez o único lugar em que não tenha o devido reconhecimento.

Acho também que um título argentino seria bom para a seleção de Tite, pensando na Copa do Mundo do Catar, daqui a um ano e pouco. Uma Copa do Mundo não se ganha sem que percalços anteriores tenham ocorrido. Não é uma questão de superstição, é uma questão de experiência ao lidar com problemas. Creio que a Copa do Mundo de 2018 foi importante para muitos destes jogadores, foi um aprendizado para eles e para o treinador. Perder da Argentina seria parte deste processo. O Brasil chegará a 2022 como um dos dois ou três grandes favoritos ao título, e ganhar de novo a Copa América só aumentará essa carga - não fará bem algum.

Tem que gente que vai torcer pela Argentina amanhã pela mesma razão: Messi. Tem gente que vai torcer contra a seleção brasileira pelo simbolismo. Temos um governo negacionista, que deixa sua população morrer aos montes na maior pandemia que o mundo já enfrentou e que escolheu organizar um torneio de futebol, em vez de trabalhar direito. A Argentina fez o oposto: entendeu que era necessário abrir mão da Copa América. Esta seria a razão política para torcer pela Argentina.

Todos os motivos são aceitáveis. É um jogo de futebol, não é uma guerra. Não vejo absurdo algum ou antipatriotismo. Aliás, patriotismo é um conceito muito abstrato e a relação de cada um com sua nação deveria, a meu ver, ir além de vestir uma camisa ou espetar uma bandeira no país ou na janela do carro. Para mim, ser patriota tem a ver com o senso de coletividade, empatia e convivência. Desconfie destes que se declaram "patriotas", pois, em regra, costumam ser os mais individualistas e despreocupados com os que estão em volta.

Não espero ser compreendido. Muita gente vai me xingar, julgar, etc. Apenas declaro minha torcida porque me parece que muita gente está pensando da mesma maneira e não podemos fechar os olhos para um sentimento, digamos, "anormal" que está ocorrendo entre muita gente na fraturada sociedade que temos.

Em tempo, acho que o Brasil é muito favorito para este jogo e que será campeão. Gosto muito desta seleção brasileira, do Tite e do trabalho dele. Acho, sinceramente, que em 2022 este processo será coroado. E ele não terá nada a ver com a corja que comanda a CBF. Mas, neste sábado, creio que um outro processo precisa ser coroado. E que tampouco tem a ver com a AFA, que igualmente é cheia de ratos e raposas. É a hora de coroar Messi.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL