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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fracasso de Mbappé na Eurocopa deixa Bola de Ouro ainda mais imprevisível

Mbappé se desculpa por pênalti perdido em eliminação da França na Eurocopa - Reprodução/Instagram
Mbappé se desculpa por pênalti perdido em eliminação da França na Eurocopa Imagem: Reprodução/Instagram
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

29/06/2021 05h49

Já vimos tantas vezes a história, e ontem ela se repetiu. Disputa de pênaltis, vai lá a estrela do time e... Surge um vilão. Depois de nove cobranças perfeitas entre suíços e franceses, chegou a vez de Mbappé fechar a série. O astro do PSG bateu mal, o goleiro Sommer defendeu e a Suíça protagonizou a maior zebra da Eurocopa até agora, vencendo por 5 a 4 nos pênaltis e eliminando a França, atual campeã do mundo e favorita no torneio.

Mas não foi só o pênalti. Ao longo do tempo normal e da prorrogação, o jogo terminou empatado por 3 a 3 e Mbappé perdeu duas chances claríssimas de gol - é verdade que deu uma assistência, para um dos gols de Benzema.

Mbappé finalizou cinco vezes, todas para fora. As que chamaram mais atenção foram duas bolas bem enfiadas, recebidas pela esquerda, dentro da área, em que Mbappé tinha liberdade total para finalizar - do jeito que ele gosta.

A primeira, quando o jogo estava 1 a 0 para a Suíça, logo após o pênalti perdido pelos suíços e logo antes do empate anotado por Benzema. Mbappé posicionou o corpo e bateu de direita, buscando a trave oposta, um gol que já fez mil vezes. Bateu para fora e levou as mãos à cabeça. A segunda chance poderia ter sido a decisiva, já na prorrogação. Pogba, que jogou muito, meteu uma bola preciosa, Mbappé entrou na área e chutou mal de esquerda - depois pareceu ter sentido alguma coisa no lance (cansaço?) e voltou mancando a campo.

No fim, Mbappé, um dos principais candidatos a ser artilheiro do torneio, deixa a competição com zero gols marcados e uma assistência. Benzema foi o atacante francês que não desapontou, anotando quatro dos sete gols da seleção na Eurocopa. Mas Benzema foi substituído na prorrogação ontem, e Griezmann saiu no fim do segundo tempo, quando Deschamps quis segurar o resultado. O técnico apostou as fichas em Mbappé. E perdeu.

Com 47 gols na temporada, o astro do Paris ia se transformando no maior candidato a ganhar a Bola de Ouro na temporada. Apesar de o PSG ter perdido o título francês, as atuações dele contra o Barcelona e o Bayern de Munique, na Champions League, ficaram na memória - o clube seria eliminado nas semifinais da competição.

Sem título de expressão e com o fracasso na Eurocopa, parece difícil imaginar que a Bola de Ouro vá para Mbappé. Outro francês que se destacou no ano, Kanté, campeão europeu com o Chelsea, é outro que fica prejudicado na disputa após a eliminação precoce diante da Suíça. É possível "construir um caso" em torno de Benzema, que fez temporada extraordinária no Real Madrid, mas é difícil imaginá-lo entre os primeiros da lista.

Com quem vai ficar a Bola de Ouro e o The Best da Fifa? Nos últimos anos, nunca houve tamanha pulverização e está difícil apontar um candidato.

Lewandowski, atual detentor do prêmio da Fifa (a Bola de Ouro, mais tradicional e respeitada na Europa, não foi entregue no ano pandêmico de 2020), pode acabar de novo com o prêmio. Afinal, fez 42 gols na Bundesliga, destroçando um recorde histórico com a camisa do Bayern e ganhando a Chuteira de Ouro, como maior artilheiro das ligas europeias. Fez também uma Eurocopa decente, apesar de a Polônia acabar eliminada na fase de grupos.

Messi e Cristiano Ronaldo tiveram uma temporada daquelas que não valorizamos muito, olhando para o que ambos fizeram no passado. Mas que não foram irrelevantes. Messi ainda está vivo na Copa América, em busca do primeiro título da seleção absoluta da Argentina desde 1993. Não que europeu ligue muito para a Copa América, mas um troféu pode ajudar no pacote. Cristiano está eliminado da Eurocopa, mas ainda é artilheiro isolado do torneio.

Talvez quem suba na cotação seja De Bruyne, que fez uma temporada brilhante pelo Manchester City, campeão inglês e vice da Champions, e ainda está vivo na Euro com a Bélgica - ainda que tenha saído machucado contra Portugal e seja dúvida para a partida de sexta, contra a Itália.

Outro belga que poderia pintar com o prêmio é Lukaku, que fez uma temporada monstruosa com a Inter de Milão e faz uma boa Euro. Correndo por fora podemos considerar ingleses como Foden e Mount, mas são ainda muito jovens e até desconhecidos - principalmente pensando no The Best. Entre os italianos, não parece haver um nome com potencial para ganhar a Bola de Ouro.

O fato é que Mbappé ia surgindo como candidato com mais chances de ganhar um prêmio de votação popular, como o da Fifa. Ainda pode ganhar. Mas a Bola de Ouro, que tem um comitê de especialistas e que vivem de perto o futebol europeu, deve ter ficado impossível para ele após o fracasso na Eurocopa.

Precisamos esperar o fim das competições de seleções para ter uma ideia melhor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL