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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depois de perder o motor e o cérebro, Real Madrid agora perde a alma

Sergio Ramos comemora gol pelo Real Madrid - Fran Santiago/Getty Images
Sergio Ramos comemora gol pelo Real Madrid Imagem: Fran Santiago/Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

17/06/2021 04h00

O Real Madrid pode até ter sido campeão espanhol em 2020, naquela reta final em meio à pandemia. Mas o fato é que o maior clube do mundo não desperta confiança alguma desde 2018, quando Cristiano Ronaldo foi embora. Zidane havia ido embora junto, depois voltou, agora foi de novo. E a notícia de ontem, que caiu como uma bomba, é a despedida de Sergio Ramos.

Primeiro, o Real perdeu seu motor, a máquina de fazer gols —diziam que a carreira chegava ao fim e vejam só o que Cristiano fez de gols nos últimos três anos. Depois, perdeu o cérebro. Não sei que tamanho Zidane terá como treinador na sequência da carreira, mas fica claro que ele era um homem quase perfeito para um clube alucinado por vitórias, como o Madrid. A sobriedade, a razão, a calma, a clareza de pensamentos vinham de Zidane.

Agora, o clube perde a alma. Sergio Ramos chegou de Sevilha 16 anos atrás para se transformar em um dos maiores jogadores da história do clube —certamente o maior defensor—, o segundo maior colecionador de troféus (atrás de Gento). Um multicampeão pelo Real e pela seleção espanhola, respeitado por companheiros e adversários, que foi amadurecendo de forma impressionante e consolidou sua liderança nos últimos anos, depois do período de bonança.

O gol mais importante de sua vida foi o da final da Champions League em Lisboa, em 2014, levando o duelo contra o Atlético de Madrid para a prorrogação —e, na prática, decretando a chegada de "La Décima". O Real já não vencia a Champions havia 12 anos e não tenho dúvidas que aquele gol e aquele título abriram as portas para os três que viriam a seguir, em 16, 17 e 18. Foi o gol mais "o campeão voltou" que eu já vi na vida.

Foi o gol mais importante na vida de muita gente, não só dele. Mas é claro que a passagem de 16 anos de Sergio Ramos pelo Real Madrid não se resume a isso. Um líder dentro do vestiário e dentro do campo, defensor implacável e artilheiro nas horas vagas, cobrador de pênaltis com alto aproveitamento de gols e de humilhação aos adversários.

Ramos virou um símbolo. E, de símbolos, clubes não deveriam se desfazer tão facilmente. O problema foi contratual. Ramos queria mais dois anos de contrato e já dois como parte da equipe técnica (pós-aposentadoria). O Madrid ofereceu um ano e com salário reduzido. É lógico que tudo isso é fácil de resolver quando ambos querem. Pelo jeito, ninguém queria.

Assim como Cristiano Ronaldo e Zidane, Sergio Ramos sairá mal do clube. Nenhum deles se sentiu devidamente prestigiado por Florentino Pérez. Não há portas fechadas, serão trocadas palavras bonitas, mas a verdade é que o clube dá um tratamento ordinário a gente extraordinária.

"Não há ninguém maior que o clube", dizem. Mas os que fazem do clube maior do que ele era, e isso precisa ser levado em conta.

É difícil imaginar a sequência desta renovação do Real Madrid. Volta Carlo Ancelotti, seguem alguns veteranos, mas nenhum deles com a hierarquia de Ramos. Entre tantas coisas que o clube já procurava —sem êxito—, agora acrescenta-se uma difícil de encontrar no mercado: alma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL